sábado, 23 de agosto de 2008


Um blog sobre a decadência da literatura, o fim da civilização & outras amenidades.

Entreouvido na livraria...


Moça do caixa olhando a assinatura do cheque do cliente: Allan Kardec.


- Meu pai admira muito a obra do senhor!...

sábado, 16 de agosto de 2008

Palavras cantadas...


As moça de Jaguaripe

Choraram de fazê dó

Seu "Dori" foi na jangada

E a jangada voltou só


Dorival Caymmi
(30 de abril de 1914 - 16 de agosto de 2008)
Mundo menos interessante e mais silencioso.

sexta-feira, 15 de agosto de 2008


"Os corvos afirmam que um só corvo seria capaz de destruir os céus. Sobre isso não há dúvida, mas isso nada prova contra os céus, pois o céu, simplesmente, significa a impossibilidade dos corvos!"


Franz Kafka

Um Teólogo Secular


A exemplo de outras obras excepcionais da literatura, das artes plásticas e da música, a ficção de Franz Kafka é a que hoje, mais contundentemente, convida o ser humano perplexo a decifrá-la, e faz desse convite uma armadilha religiosa. Na condição de indivíduo e escritor, Kafka foi uma seqüência de imensos paradoxos. As suas maiores obra de ficção – “O Processo” e “O Castelo” – não chegam a desafiar “Em Busca do tempo Perdido”, de Proust, “Ulysses”, de Joyce, ou mesmo “A Montanha Mágica”, de Thomas Mann. No entanto pensamos no século XX como uma leitura de Kafka, e não de Proust ou Joyce, e muito menos de Thomas Mann. Na vida, ele foi do mesmo modo tão bem-sucedido quanto fracassado. Não tinha formado família; sua carreira jurídica na área de seguros era, na melhor, das hipóteses, sofrível e risível; o sucesso literário, avaliado por qualquer escala pessoal ou pública, escapou-lhe quase por completo; sua aparência física inspirava certa reação divertida, ou prognósticos desfavoráveis: quer pela feiúra, quer pela timidez; seus relacionamentos eróticos terrivelmente complicados – como seu prolongado noivado com Felice Bauer e seu amor por Milena – terminavam sempre mal. E sempre que se via na iminência de assumir um compromisso, Kafka refugiava-se na doença, a tuberculose, que viria a causar-lhe a morte prematura. Em qualquer biografia não podemos deixar de perceber a etiologia psicossomática da doença e de observar que era uma situação consentida. Kafka usava a doença como ela o usava, e essa reciprocidade tornava ainda mais profundos seus sentimentos de culpa. Tanto em relação aos ideais pessoais, literários e religiosos como às expectativas brutalmente expressas por seu pai, Kafka declarava-se um fracassado total, um decaído. Daí a culpa ser o seu tema mais recorrente e, por conseguinte, o objeto de sua “teologia secular”, disfarçada de literatura. Entretanto, por mais que negasse possuir sabedoria ou percepção religiosa, Franz Kafka foi, depois de Dostoievski, o mais arguto teólogo secular da moderna literatura ocidental. E cada vez que o releio percebo o quanto é estranha e, ao mesmo tempo, inquestionável sua profunda espiritualidade. Cumpre-me confessar que não gosto de Kafka, não sou fã, muito embora tenha lido tudo que dele pudesse encontrar com a mesma avidez e asco. Poucos escritores, só os grandes, conseguem tal proeza. Em meio a toda uma ambientação voltada para o mundano, o político e o racional, Kafka compõe um conjunto de parábolas, de alegorias, de aforismos e de comentários cuja essência é - técnica e substantivamente - sagrada, teológica e religiosa. É aí que se observa a ascendência espiritual pessimista de Pascal, Kierkegaard e Nietzsche, e ao mesmo tempo a influência ficcional de Dostoievski, primo literário, cuja força narrativa revela como a santidade encontra-se lado a lado com o mais profundo ódio. Neste termos, ousaria dizer que Kafka é um judeu eminentemente talmúdico, mas com aspirações de cristão protestante. As aflições de Caim e Abel, de Abraão e Isaac, de Jó e seus amigos, de Judas e Jesus Cristo, cuja dialética é desafiadora e enigmática, são as mesmas aflições que atormentam Gregor Sansa, Joseph K. e todos os K. que figuram na obra de Kafka, e terminam por destruí-lo. A tristeza, a angústia e o desalento supremos dos seus livros, suas cartas, seus diários, de tudo, enfim, que ele escreveu, é incomensurável. Porém ele também era um satirista social, um virtuoso do grotesco, do absurdo, que sabia parodiar os temas mais sérios. Não obstante, sob todos os chistes, piadas e anedotas, as invenções ficcionais de Kafka constituem uma prodigiosa façanha de indagação metafísico-religiosa. Reconheço que Kafka é escorregadio e bastante refratário às definições, e tudo que diz respeito a esse artigo é paradoxal, pois Kafka certamente dele fugiria. Mas do que não fugia Kafka?
Além de ter sido o teólogo da dúvida, Kafka foi também o gênio literário do isolamento. E toda a sua obra perturbadora ensina-nos a vislumbrar o quanto podemos "ser" ou "estar" sozinhos.

Predestinação: a religião político-jurídica de Kafka!


Por mais que Deus e a religião sejam aparentemente imperceptíveis na obra de Kafka, eles não estão ausentes. Sua literatura essencialmente onírica e estruturalmente absurda prefigura uma teologia desafiadora, cuja fé irrompe das convulsões de uma agonia de dúvida, como em santo Agostinho, Lutero, Pascal, Kierkegaard, Dostoievski e Nietzsche. Essa esplendorosa agonia Kafka encontrou nos fardos da vida cotidiana. Como judeu crescido em civilização cristã, ele absorveu o que havia de mais desconcertante nestas duas tradições religiosas: o fatalismo da eleição divina, ou melhor, a predestinação. Esse é o tema de toda a sua literatura, e cada um dos seus romances o observa sob diversos prismas. O Processo é um apólogo e uma apologia, ao mesmo tempo. Sob o véu da alegoria, Kafka instrui acusação contra a justiça do tribunal divino. O delito desconhecido do personagem K. é o pecado original. O processo judicial é o signo da predestinação. E o que K. evita, sem compreender, pelas suas atividades é a graça. A prisão de K. não passava de uma provocação por parte daquele estranho tribunal, segundo o qual, o próprio personagem tem de criar pelas suas atitudes as razões de sua absolvição ou condenação. E, sem querer, cria o delito mortal, prevalecendo-se obstinadamente da sua inocência. Faz tudo o que se pode fazer: contrata um advogado e um médico, corrompe o carcereiro e o escrivão. Mas eles não podem ajudá-lo porque nenhum deles compreende o processo melhor do que o próprio K., todavia todos estão convencidos da justiça e da onipotência do tribunal; por isso aconselham K. a confessar um crime que ele não conhece e nem pode conhecer. E neste contexto absurdo K. não faz mais que jogar o processo contra si mesmo. Ao longo de toda a narrativa o homem é apresentado como uma vítima passiva da perseguição celeste. No conto “A Colônia Penitenciária”, que é uma continuação de “O Processo”, vemos uma terrível máquina de precisão marcar no corpo dos forçados, por meio de agulhas incandescentes, os nomes dos delitos, que são desconhecidos dos próprios condenados. A tortura pela qual a sua culpa lhe será revelada é a única esperança, pois saber o nome do delito é a condição preliminar para saber justificar-se. No romance inacabado “O Castelo”, a questão se inverte, mas ainda requer a mesma resposta. Ainda nesta narrativa o herói se chama K., somente K.! E o seu adversário não é desta vez um tribunal, mas o Castelo, o lugar onde a graça e a redenção estão concentradas. Ao pé deste castelo há uma aldeia, onde os camponeses, crentes humildemente submissos, executam suas tarefas diárias. K. também desejaria ser camponês nessa aldeia. É preciso frisar: ele o quer, ele o exige mesmo. Desejaria obrigar o Castelo a conceder-lhe o direito de permanência na aldeia. Quer forçar esta comunhão com fiéis mesmo sem ser um “eleito”. E o que ele pode fazer para ser um eleito? Ninguém sabe. Predestinação! Mesmo depois de acolhido, K. é logo coagido a deixar a aldeia por um dos filhos do castelão. Ele então recorre a uma mentira dizendo que foi contratado para trabalhar como nivelador. Resolvem telefonar para o Castelo. E o Castelo responde de maneira surpreendente: sim, K. estava sendo esperado! É o primeiro dom voluntário da graça: mas contém uma punição. Pois o Castelo retorna o telefonema acrescentando: “K. tem permissão de ficar, mas o seu contrato foi um lamentável engano, não há necessidade de niveladores, portanto ele pode ficar, mas não pode participar da vida da aldeia. K. desespera-se pois embora presente não participa, sua existência não tem sentido. Eis-nos nas últimas linhas do romance inacabado. Mas uma anotação aponta-nos um fim: K. não tem o direito de compor a aldeia, mas considerando-se certas circunstâncias, ser-lhe-á permitido permanecer, isolado e excluído, até a morte. Em “O Processo” o céu instaura litígio espiritual contra o homem. Em “O Castelo” o homem instaura litígio contra o céu. São as conseqüências da lógica da predestinação. O homem em Kafka, recusa-se e revolta-se contra um misterioso sistema de seletividade divina. Acusa Deus, como Ivan Karamazov que entendia a predestinação como uma piada blasfema e absurda. Não parece que esse Deus deseja a participação do homem em sua própria redenção. No abismo entre o Deus tirânico dos crentes da predestinação como Santo Agostinho e Calvino, e o homem desavisado de sua condição metafísica, Kafka sonda o caminho da graça. No seu último diário, pouco antes de morrer, ele copiou as seguintes palavras de um sermão de Lutero:

“Deus não é inimigo dos pecadores, mas somente da soberba dos descrentes que não admitem os próprios pecados nem procuram o apoio de Cristo, mas que procuram temerária e estupidamente a purificação em si mesmos”.

A estas palavras, Kafka contrapôs o seguinte aforismo:

“Quem procurar não encontrará, quem não procurar será encontrado!”

Quando li este aforismo, imediatamente, lembrei-me das sábias palavras do filósofo católico Baisle Pascal:

“Consola-te: não me procurarias se já não tivesses encontrado!”

sexta-feira, 1 de agosto de 2008


No fim tu hás de ver que as coisas mais leves

são as únicas que o vento não conseguiu levar:

um estribilho antigo

um carinho no momento preciso

o folhear de um livro de poemas

o cheiro que tinha um dia o próprio vento...


Mário Quintana

A mais difícil simplicidade!...


Na minguada constelação da poesia brasileira, Mario Quintana é astro de primeira grandeza, muito embora haja quem conteste, porque seu brilho surgiu tão remoto e distante que foi considerado pequeno e fugaz, como uma “supernova” poética. Eu, particularmente, o prefiro a qualquer outro - mesmo em detrimento dos meus conterrâneos (Manuel Bandeira e João Cabral) que desde sempre refulgem que nem os bois do carro-do-sol de Apolo Auriniente, divindade estética da música e da poesia. O que se deu com Quintana é o que se dá com tantos outros à margem dos acontecimentos, onde a chancela das edições provincianas é quase sempre uma fatal condenação ao silêncio e ao esquecimento. Mas quase!... Para escapar a esta triste fatalidade, e obter projeção, Quintana teve a sorte de ser reeditado no Rio de Janeiro (sob os auspícios de Manuel Bandeira), de onde, afinal, pôde brilhar em todo o seu esplendor, ofuscando assim as critiquinhas que queriam reduzi-lo ao tamanho delas próprias. A poesia de Quintana é feérica e se caracteriza por rápidos e pequenos sortilégios, feitiços ou simpatias verbais que funcionam e impressionam pela difícil simplicidade de sua forma e conteúdo. Ternura, melancolia, intimismo, misticismo, ironia, ingenuidade, humor e erotismo são ingredientes de sua quintessência poética. Quem nunca desejou, ou mesmo supôs-se capaz de imitar, e até superar Mario Quintana, para logo surpreender-se frustrado? Eu já!... Desde então abdiquei da vaidade de ser poeta. A facilidade com que se exprime é ilusória: nada aí está ao alcance dos nossos dedos, por mais próximo que pareçam. Quintana é um enfeitiçado das letras, dono de um condão semântico encantatório que ele sabe manipular com o mínimo de palavras. Com tais poderes, seus versos sempre conseguem aquele prodígio “lorcaniano” de significados, próprio da grande poesia. Seus símbolos e termos são quase sempre diminutos, estreitos, lacônicos, e no entanto polissêmicos, multívocos. A sua lírica é, como dizia Drummond, uma tradução para o simples de muitos mistérios. Com efeito, o monumental e misterioso “Em Busca do Tempo Perdido” de Marcel Proust, não pôde encontrar no idioma português outro tradutor mais competente. À parte as traduções, basta uma leitura, mesmo apressada de algumas de suas obras como “As Canções”, “O Aprendiz de Feiticeiro”, “O Sapato Florido”, “A Rua dos Cataventos”, “A Cor do Invisível” ou o “Carderno H”, para deixar claro o equivoco de certos telescópios críticos ao considerar menor essa imensa estrela poética. Quisera eu saber como fazer metade dessa poesia doce e lúcida, debochada, genial e grandiosa, apesar da humilíssima constituição, que está para muito além de qualquer academia, qualquer título.

quinta-feira, 3 de julho de 2008


Vai, livro natimudo,
E diz a ela
Que um dia me cantou essa canção de Lawes:
Houvesse em nós
Mais canção, menos temas,
Então se acabariam minhas penas,
Meus defeitos sanados em poemas
Para fazê-la eterna em minha voz
Diz a ela que espalha
Tais tesouros no ar,
Sem querer nada mais além de dar
Vida ao momento,
Que eu lhes ordenaria: vivam,
Quais rosas, no âmbar mágico, a compor,
Rubribordadas de ouro, só
Uma substância e cor
Desafiando o tempo.
Diz a ela que vai
Com a canção nos lábios
Mas não canta a canção e ignora
Quem a fez, que talvez uma outra boca
Tão bela quanto a dela
Em novas eras há de ter aos pés
Os que a adoram agora,
Quando os nossos dois pós
Com o de Waller se deponham, mudos,
No olvido que refina a todos nós,
Até que a mutação apague tudo
Salvo a Beleza, a sós.


Ezra Pound

Antenadíssimo


Ezra Pound é, pessoalmente falando, uma das figuras literárias mais constrangedoras que surgiu desde Dostoievski. Digo isso porque sua alma foi tão luminosa quanto sombria. Nascido em 1885, era um menino rico, branco e protestante do Idaho, conhecido pelo domínio precoce de várias línguas. Começou a lecionar literatura muito cedo, aos 16 anos, mais foi despedido por ser um tipo muito “Quartier Latin”. Em breve buscou abrigo entre almas singulares, no estrangeiro. Aos 23 anos, engordando de fome numa dieta de batatas em Veneza, ele publicou seu primeiro livro, A Lume Spento, em italiano, uma coletânea de poemas que provocou uma amizade agressiva com Yeats, que assim o definia: “Uma natureza bruta e rude, ele está sempre ferindo o sentimento das pessoas, todavia é dotado de boa-vontade e de um gênio semântico incomensurável”. Boa-vontade: para dizer o mínimo! – entre 1909 e 1920, quando viveu em Londres e depois em Paris, ele sistematicamente promoveu as carreiras alheias (T. S. Eliot dedicou “A Terra Devastada” a Pound; foi Pound quem levantou o dinheiro necessário para Joyce terminar "Ulysses"; e ainda contribuiu para publicação de “A Consciência de Zeno” de Svevo, mesmo antipatizando com judeus). Sua generosidade nesse aspecto é uma questão sobre a qual até Hemingway, que não costuma celebrar a gentileza alheia, deu seu testemunho: “Até agora”, escreveu em 1925, “vemos que Pound, um poeta maior, dedicar um quinto de seu tempo à poesia, digamos. No restante do tempo ele tenta promover a fortuna tanto poética quanto material dos seus amigos”. E não era isso, eles os defendia quando eram atacados, colocava-os nas revistas e os tirava da cadeia. Emprestava dinheiro. Vendia seus quadros. Conseguia concertos para eles. Escrevia artigos a seu respeito. Apresentava os amigos a mulheres ricas. Fazia com que os editores lessem seus livros. Passava a noite em claro com eles, quando acreditavam que iam morrer, e servia de testemunha na hora do testamento. Adiantava despesas de hospital e os dissuadia de cometer suicídio. E, no final, alguns poucos evitam apunhalá-lo pelas costas na primeira oportunidade. Mesmo assim, ele conseguiu publicar panfletos regularmente, compor seus famosos Cantos (“o épico das viagens de uma inaudita mente poética”, como definiu João Cabral de Melo Neto, seu mais ilustre discípulo brasileiro). "Inaudita mente poética" é um gentil eufemismo, Pound era uma verdadeira antena semântica, cujo profundo domínio gramatical de diversos idomas chegava ser estarrecedor - daí ser tão grande poeta quanto tradutor. Nisto, porém, havia uma singela ironia: o escritor que foi um dos melhores tradutores, não apenas de um para quase todos os idiomas inverificáveis do extremo Oriente, mas do familiar território ocidental, seja qual fosse a sua compreensão da escrita, não era poeticamente fruível em algumas traduções. Ou seja, Pound era capaz de traduzir com maestria qualquer escritor de qualquer lugar, época ou língua. Mas poucos eram capazes de traduzi-lo!... Além de poesia e tradução, ele também tentou escultura e pintura com seriedade, mas sem sucesso. Entretanto foi o estudo do existencialismo ateu que se tornou seu interesse mais intenso, que veio juntamente com a nociva amizade e influência de Heidegger - depois do que ele desenvolveu noções filosóficas equivocadas que o levariam a ruína psíquica e moral: em 1939, sendo ainda muito italianófilo, mussolinista, assumiu publicamente uma postura anti-semita e começou a transmitir pelas rádios de Roma uma seqüência de discursos de cunho fascista que culminariam com seu indiciamento como traidor dos Estados Unidos; unidades do exército norte-americano que invadiram a Itália o capturaram em 1945. Por várias semanas, como uma besta feroz e raivosa, ele ficou preso numa jaula ao ar livre em Pisa. Meses depois, na véspera do seu julgamento por traição, ele foi declarado insano, como poderia ocorrer com qualquer outro poeta digno do nome; passou os doze anos seguintes isolado, evitado e quase esquecido no hospital Santa Elizabeth, no Distrito de Columbia. Enquanto estava lá publicou The Pisan Cantos, ganhou o prêmio Bollingen, um premio excessivamente censurado nos círculos endinheirados. Contudo, num dia chuvoso de 1958, Pound, então um velho de 72 anos, com sua barba antes exuberante tornando-se grisalha e seu rosto de santo demasiado pecador vincado por linhas que contavam uma história digna de consternação, compareceu perante a Suprema Corte e soube que era considerado “incuravelmente insano”. Incurável, mas inofensivo o bastante para viver livre. Imediatamente Pound anunciou: “Qualquer homem capaz de viver na América é insano!"... e se preparou para voltar a Itália. As fotografias, como esta feita por Cartier-Bresson, foram ainda tiradas poucos dias antes de sua partida de navio. Arrogante, zombeteiro, sombrio, seus olhos se fechando quando entoou os versos de uma canção sem sentido, balançando para frente e para trás, com se ainda estivesse na jaula em Pisa. Ou na jaula em que a própria vida se transformou.
Apesar de tudo isso, sua poesia é eterna e não apenas merece, mas deve ser lida.