
Parece título de Schopenhauer, mas não chega a tanto. Trata-se apenas de uma reflexão, ou melhor, de uma digressão (resultado de horas vadias) acerca de sebos, de livros velhos, e de como tais coisas afetam nossa capacidade de leitura. Veja bem, eu nunca gostei de sebos. Para mim o nome é em si já bastante repelente, devido ao homônimo malcheiroso que asquerosamente nos remete a cravos, espinhas, furúnculos, e outras excrescências insondáveis, porque mais endógenas e indecorosas. E, dada minha rinite alérgica, sempre evitei os livros antigos, os códices, os incunábulos e alfarrábios, cuja visão, ainda que distante, era suficiente para desencadear a mais incômoda, medonha e obstinada crise de coriza já sofrida por um nariz humano. Para mim estes antros, estes cemitérios de brochuras decrépitas eram verdadeiros ninhos de ácaros e esporos, então cultivados numa poeira secular que o proverbial desleixo dos livreiros vai deixando se acumular de modo onipresente.
Revestido e convencido deste preconceito higiênico, eu resisti à visão idílica e até mesmo glamourosa que os sebos inspiram nos leitores mais românticos, e assim os evitei heróica e diligentemente até que, certo dia, por uma necessidade ocasional, meu amigo Emerson Coelho arrancou-me deste equívoco.
Este amigo, já um conhecido nosso, é, no dizer poético de Drummond, um destes habitués de sebo, um freqüentador crônico, acometido das taras que todo bibliófilo sente no contato com as obras condenadas ao esquecimento. É o típico farejador sutil que procura sempre e infatigavelmente uma pérola esfarrapada ou um diamante hipotético, mesmo sabendo que talvez não o encontre jamais, nunca entre aqueles restos de literatura, mas que todavia insiste, porque qualquer encontro o satisfaz. Procurar, mesmo não achando, é a sua arte e fetiche.
Revestido e convencido deste preconceito higiênico, eu resisti à visão idílica e até mesmo glamourosa que os sebos inspiram nos leitores mais românticos, e assim os evitei heróica e diligentemente até que, certo dia, por uma necessidade ocasional, meu amigo Emerson Coelho arrancou-me deste equívoco.
Este amigo, já um conhecido nosso, é, no dizer poético de Drummond, um destes habitués de sebo, um freqüentador crônico, acometido das taras que todo bibliófilo sente no contato com as obras condenadas ao esquecimento. É o típico farejador sutil que procura sempre e infatigavelmente uma pérola esfarrapada ou um diamante hipotético, mesmo sabendo que talvez não o encontre jamais, nunca entre aqueles restos de literatura, mas que todavia insiste, porque qualquer encontro o satisfaz. Procurar, mesmo não achando, é a sua arte e fetiche.
Ora, foi então na companhia deste amigo fabuloso que passei a freqüentar sebos, e conquanto não tenha o mesmo faro atilado, descobri o prazer de vascular, de escavar, de perscrutar, qual arqueólogo, as vetustas e caóticas prateleiras de livros arruinados, e do meio delas sair todo sujo e empolgado trazendo comigo velhas novidades. Acabei deste modo adquirindo um hábito, que virou mania e depois paixão, mas que agora corre o risco de se converter em filosofia fenomenológica. Isso mesmo. Desde que passei a conviver com estes livros gastos e idosos, reparei que já não sou um simples leitor, isto é, um leitor comum, como qualquer outro que se restringe ao texto. Sem a mínima reserva ou circunspeção, devo confessar que sou hoje um X-leitor, um mutante literário, cuja capacidade de inteligir vai além da palavra escrita. Mas sei que não sou o único, e estou certo de alguém aqui, certamente, se identificará comigo. Permita então uma melhor exposição dos fatos.
Primeiro, como nunca me fiei no acaso, passei a acreditar numa “afinidade eletiva” entre o livro e o leitor. Enquanto vagava pelos sebos, eu percebia que meus encontros com os livros se davam tal como o encontro daqueles passantes que no Canto XV do Inferno de Dante “olham uns para os outros quando a luz do dia se torna penumbra e descobrem subitamente um vislumbre, uma palavra, uma atração irresistível”. Isso me lembra um adágio latino, de um monge e ensaísta medieval que dizia: “Habent sua fata libelli”, ou seja, “os livros têm seu próprio destino”. Com efeito, sempre que compro livros de sebos fico imaginando como alguns deles esperaram anos e décadas para chegarem até a minha estante, a qual parece terem sido destinados. Como manuscritos perdidos do Mar Morto, como todo livro que chegou até nós das mãos de leitores remotos no espaço e no tempo, cada um dos meus livros traz consigo um relato incógnito de sua própria sobrevivência. E essa sobrevivência é análoga a do Universo, que segundo os antigos cabalistas, não depende de que o leiamos, mas apenas da possibilidade de que o leiamos. No ensejo, aproveitando a analogia cabalística, poderia acrescentar que tais livros encerram em si um microcosmos, um mundo diminuto que pode ser observado através de suas páginas rasgadas e carcomidas, das rasuras, das anotações, do desgaste da capa ou contracapa. É a partir disso que se amplia nossa capacidade leitura. Quem nunca sentiu o prazer curioso de segurar nas mãos um volume que pertenceu a outro leitor, evocado como um fantasma por meio do murmúrio de umas poucas palavras rabiscadas na margem, uma assinatura ou dedicatória na guarda do livro, uma foto perdida, uma rosa ou folha seca usada como marcador, uma gota de café, uma mancha de vinho ou mesmo uma lágrima reveladora. Os livros usados oferecem aos novos leitores uma visão de relance, mesmo que secreta ou distante, das vidas de outros leitores, e permite que tenham, por meio destes vestígios aparentemente banais, todavia conservados para seu escrutínio, uma simpatia, uma identificação, um certo conhecimento de sua própria condição.
Mas para isso é preciso ser perspicaz, é preciso ser um bom leitor. Somente quando olhos capazes, como o de Miss Marple de Agatha Christie, fazem contato com os sublinhados, as manchas e rasuras das páginas é que o texto ganha um significado que está além do seu enredo. Toda escrita depende da generosidade do leitor. E sem essa generosa capacidade o texto torna-se novamente marcas silenciosas. Cada leitor deve ter o propósito de assegurar uma modesta imortalidade aos livros. A leitura é, nesse sentido um rito de renascimento. Mas como já disse antes, isso não se restringe ao texto nem as suas entrelinhas, devemos observar tudo o que circunda. A verdadeira leitura consiste na experiência registrada e resgatada das páginas, e novamente transformada em experiência, em palavras que tanto se refletem no mundo exterior como no próprio ser do leitor. Eu sei que essa hiperleitura nem sempre é fácil. É preciso certo pendor investigativo, e um tanto de falta do que fazer. Porém o benefício é inestimável. Como nos ensinam os detetives da ficção, os livros velhos por vezes nos ajudam a formular as perguntas que desejamos fazer, mas não necessariamente decifrar as respostas. Nem sempre trazem uma coerência, uma lógica ou propósito ao texto. Isso (como Miss Marple tornaria claro) é tarefa do leitor, a marca de sua liberdade, do seu poder de inteligibilidade.
E sem modéstia, ouso afirmar que, desde que freqüento sebos, estou a um passo da aquisição deste poder, pois sei que há livros em que as notas de rodapé, ou os comentários rabiscados por algum leitor pretérito são mais interessantes do que o texto. O mundo, a vida, a realidade e os outros são alguns destes livros a serem lidos. Aqui, o ato de ler nos ajuda a entender nossa relação hesitante com nós mesmos, o encontro, o toque, a decifração de signos que são gestos e palavras. A literatura nos propicia a capacidade de ler tudo o que nos cerca, basta querer. Como dizia Lady Macbeth, de Shakespeare: “Tua face, meu cavaleiro, é como um livro onde olhos agudos podem ler coisas estranhas”. O hábito de ler nos faculta o poder ver o que está aquém e além, é um processo que envolve não somente visão e intelecção, mas inferência, percepção, julgamento, memória, reconhecimento, experiência e prática.
E sem modéstia, ouso afirmar que, desde que freqüento sebos, estou a um passo da aquisição deste poder, pois sei que há livros em que as notas de rodapé, ou os comentários rabiscados por algum leitor pretérito são mais interessantes do que o texto. O mundo, a vida, a realidade e os outros são alguns destes livros a serem lidos. Aqui, o ato de ler nos ajuda a entender nossa relação hesitante com nós mesmos, o encontro, o toque, a decifração de signos que são gestos e palavras. A literatura nos propicia a capacidade de ler tudo o que nos cerca, basta querer. Como dizia Lady Macbeth, de Shakespeare: “Tua face, meu cavaleiro, é como um livro onde olhos agudos podem ler coisas estranhas”. O hábito de ler nos faculta o poder ver o que está aquém e além, é um processo que envolve não somente visão e intelecção, mas inferência, percepção, julgamento, memória, reconhecimento, experiência e prática.
Leiam mais, sempre, infatigavelmente, livros velhos ou novos, pois como dizia Platão: aqueles que podem ler, vêem duas vezes melhor.