domingo, 12 de outubro de 2008

Orbitando


Pronto.

Sentei na frente do pc, e agora? Eu quero escrever. Na verdade o ideal seria escrever algo assim bem bonito, para que um monte de gente comente. Adoro comentarios. Mas escrever o que?(Pausa. Pensamento avulso.)

Uma vez, numa oficina de escrita, a professora, com um corte de cabelo igual o da Cuca, do Sitio do Pica-pau Amarelo, porem morena e de pele terracota...

(Pausa. Pensamento avulso 2.)

....Terracota nao eh nome de cor que se usa quando se quer pintar uma parede? Fica bem dizer que o tom de pele de uma pessoa eh terracota? Ainda mais de uma professora tao querida?Bom, o que importa eh que ela comentou de um metodo - cujo nome nao me vem a cabeca - em que voce simplesmente senta e escreve tudo que lhe passa na cachola. Assim, deste jeito. Eu adorava a Cuca, com suas hiperboles, dramatica que só ela. Geminianos adoram hiperbole e drama.(Pausa. Pensamento avulso de numero 3.)

Drama - 3o. Ato (de 1973) é o nome de um dos discos mais legais de Maria Bethania. Disco mesmo, porque ainda nao foi lancado em cd. Por que ainda nao foi lancado em cd, se é um dos discos mais legais de Bethânia? Se lancado fosse, seria um dos cds mais legais de Bethânia. Ah, besteira.

Esquece.

Eu ate queria dizer algo mais profundo, daquelas pseudo-profecias de auto-ajuda que fazem os leitores se sentirem traduzidos, lidos, compreendidos, sabe? O problema é que nada me ocorre. Mas sigo no tac tac tac do teclado. Ja está ficando chato? Aguente firme que eu vou ver se tem algo explosivo e/ou de intensa beleza pela internet. Deve ter, né? A rede é tao vasta...

Mas antes disso, deixa eu falar de Drama - 3o. Ato, aquele que eh um dos discos mais legais de Bethania. Gravei em fita pra mim, com capinha de xerox e tudo. Eu escutei ate o walkman enrolar. Tinha um texto lindo da Clarice Lispector no final. Lembro? Nao. Nao lembro mais do texto. So sei que era lindo. Redundante dizer isso de Clarice.
Quanto clichê, por Deus!

Pausa.

Eu nao disse que ia achar algo bonito na Internet? Caio Fernando Abreu falando de Bethania. Pode? Sim, eu sou repetitivo. Algum problema? Na verdade, pensando bem, correndo o risco de ser eufêmico, eu nao me acho repetitivo nao. Deve ser porque geminianos nao sao muito bons em auto-critica. No entanto, eu acho que o que eh bom, bonito, bacana, deve ser recorrente, concorda?

Não?!

Então, faz assim, enquanto eu tento aterrisar, vocês vão degustando este blogs que, no momento são bem mais interessantes do que o meu:





PS: Mas nem pensem em me deixar!... Um dia despenco destas imensidões.


PS. do PS.: Falando sério agora, estou estudando para um concurso muito importante (para mim) e por isso ando totalmente sem tempo. Mas deste mês não passa. I'll be back!

domingo, 31 de agosto de 2008

A Indecência Sagrada


Nascido 8 anos depois de Shakespeare, John Donne cresceu e morou em Londres a vida inteira; uma vida que como as máscaras da dramaturgia, teve uma face cômica e outra trágica. Na juventude foi um cavalheiro abastado, que desfrutava da reputação de poeta erótico e satírico. Assíduo freqüentador de teatro, assistiu a primeira encenação de “Ricardo III”, de Shakespeare, e saberia apreciar o progresso (ou declínio) do monarca martirizado, que, de governante autoritário, vem a ser poeta metafísico, bem ao estilo do próprio Donne. O Volume “Canções e Sonetos” só foi publicado dois anos após seu falecimento, mas alguns poemas ali coligidos haviam circulado, amplamente, em panfletos manuscritos, o que lhe garantiu certa notoriedade. A ascensão social de John Donne, a partir da conversão, em 1602, do catolicismo para o protestantismo, sobreveio na sucessão de reveses que tornara sua vida outrora festiva e hedonista numa legenda trágica, repleta de perdas e dores. Seus parentes morreram, seus bens foram confiscados (por ser católico), e a Peste Negra contaminou-o. Houve algumas compensações, pois após a conversão, Donne casou e tornou-se rapidamente célebre pregador e, em 1621, foi nomeado decano da Catedral de Saint Paul. Em sua maioria os “Sonetos Sagrados” foram escritos antes da ordenação de Donne, assim com a grande meditação “Sexta-Feira Santa”. Os dois hinos magníficos – “Para meu Deus, na agonia” e “Para Deus Pai” – foram, provavelmente, compostos em 1623, entre novembro e dezembro, quando os médicos já o haviam desenganado, e os sinos de sua Catedral, o dia inteiro e todos os dias, tocavam dobres fúnebres pelas vítimas da Peste. Foi também nesta ocasião que ele escreveu o conhecidíssimo poema “Por Quem os Sinos Dobram (Meditação XVII)”. À exceção destes escritos, Donne havia abandonado a poesia pela metafísica e teologia. Seus sermões, no quem de melhor, figuram entres os mais contundentes do cristianismo, e suas preces são até hoje as mais belas da liturgia anglicana. Como um Góngora inglês, ao mesmo tempo sagrado e profano, John Donne foi continuamente valorizado até o século XIX, influenciando grandes poetas místicos como o reverendo Coleridge e o padre Gerald Hopkins. Depois passou um tempo completamente esquecido, até que no século XX o poeta anglo-católico T.S. Eliot o ressuscitou. O leitor comum, mesmo que não familiarizado com alta poesia, pode ler Donne sem dificuldade e ainda constatar que a sua obra é perene e jamais ficará datada. Sua arte, uma intermitência de dor e prazer, descende daquele lirismo de sacralidade erótica do “Cântico dos Cânticos”, e revela a alma em sua completa humanidade. Todos os seus textos são um testemunho da inquietação espiritual que dialeticamente oscilava entre a contemplação dos prazeres terrestres e do ascetismo cristão. Essa dialética era a sua maneira de suportar a dor, as perdas e a doença. Como um Jó altivo e sensual, ele desafia Deus, se solidariza com todos os sofredores, e medita sobre sua condição comum, e disso surgem poemas como este:


Tu perdoas o pecado em que intervim

E fiz outros pecar – meus pecados portais?

Tu perdoas o pecado evitado por mim

Por um ano ou dois, mas curtido bem mais?

Ao chegares ao fim, tu não terás o fim,

Pois inda tenho mais.”


Foi num destes momentos que ele afirmou que “nenhum homem é uma ilha”, e assim definiu a perda que sentimos reciprocamente diante de cada morte. Sempre quando leio a poesia de John Donne fico extremamente impressionado com a capacidade do espírito humano de fazer arte não só no prazer e para o prazer, mas também na dor e na iminência do fim.

VEM, Dama, vem, que eu desafio a paz;

Até que eu lute, em luta o corpo jaz.

Como o inimigo diante do inimigo,

Canso-me de esperar se nunca brigo.

Solta esse cinto sideral que vela,

Céu cintilante, uma área ainda mais bela.

Desata esse corpete constelado,

Feito para deter o olhar ousado.

Entrega-te ao torpor que se derrama

De ti a mim, dizendo: hora da cama.

Tira o espartilho, quero descoberto

O que ele guarda, quieto, tão de perto.

O corpo que de tuas saias sai

É um campo em flor quando a sombra se esvai.

Arranca essa grinalda armada e deixa

Que cresça o diadema da madeixa.

Tira os sapatos e entra sem receio

Nesse templo de amor que é o nosso leito.

Os anjos mostram-se num branco véu

Aos homens. Tu, meu Anjo, és como o Céu

De Maomé. E se no branco têm contigo

Semelhança os espíritos, distingo:

O que o meu Anjo branco põe não é

O cabelo mas sim a carne em pé.


Deixa que a minha mão errante adentre

Atrás, na frente, em cima, em baixo, entre.

Minha América! Minha terra à vista,

Reino de paz, se um homem só a conquista,

Minha Mina preciosa, meu Império,

Feliz de quem penetre o teu mistério!

Liberto-me ficando teu escravo;

Onde cai minha mão, meu selo gravo


Nudez total! Todo o prazer provém

De um corpo (como a alma sem corpo)sem vestes.

As jóias que a mulher ostenta

São como as bolas de ouro de Atalanta:

O olho do tolo que uma gema inflama

Ilude-se com ela e perde a dama.

Como encadernação vistosa, feita

Para iletrados, a mulher se enfeita;

Mas ela é um livro místico e somente

A alguns (a que tal graça se consente)

É dado lê-la. Eu sou um que sabe;

Como se diante da parteira, abre-

Te: atira, sim, o linho branco fora,

Nem penitência nem decência agora.


Para ensinar-te eu me desnudo antes:

A coberta de um homem te é bastante.


John Donne

quinta-feira, 28 de agosto de 2008

A Nova Idade das Trevas... ou do Esquecimento.

Houve um tempo em que entre Religião e Cultura havia uma equivalência, quase uma sinonímia óbvia - aliás, ainda há, só que esta equivalência, ou sinonímia, é hoje algo despercebido, esquecido. E, ironicamente, estando sintetizados pela Igreja, pelas artes, pela filosofia e pela literatura, a religião e a cultura são ainda os únicos componentes de uma civilização que podem sobreviver quando ela chega ao término da sua duração histórica. São os valores universais, que, por servirem a toda a humanidade e não somente ao povo em que se originaram, justificam que ele seja lembrado e admirado por outros povos. A economia, a política, a tecnologia e a ciência são apenas o suporte, local e temporário, de que a civilização se utiliza para seguir vivendo enquanto gera os símbolos nos quais sua imagem permanecerá quando ela própria já não existir. Nenhum povo ascendeu ao primado econômico e político para somente depois se dedicar a interesses espirituais ou intelectualmente superiores. O inverso é que é verdadeiro: a afirmação das capacidades civilizacionais da religião e da cultura antecedem as realizações político-econômicas.
A Itália medieval, por exemplo, mesmo politicamente fragmentada, foi o ponto de encontro do espírito humano com a mais absoluta perfeição artística. A França foi o centro literário e cultural da Europa muito antes das pompas de Luís XIV. Os ingleses, antes de se apoderarem dos sete mares, foram os supremos fornecedores de santos e eruditos para a Igreja. A Alemanha foi o foco irradiador da Reforma e em seguida o centro intelectual do mundo - com Kant, Hegel, Goethe e Schelling - e antes mesmo de constituir-se como nação. Os EUA tinham três séculos de religião devota e de valiosa cultura literária e filosófica antes de lançar-se à aventura industrial que os elevou ao cume da mais dinâmica prosperidade. Os eslavos e escandinavos também tiveram seus santos, filósofos, poetas - sem falar nos dois maiores romencistas de todos os tempos - e isso antes do carvão, do aço e, atualmente, da enérgia nuclear ou do invejável IDH. Aqui não convém desdenhar dos espanhois e portugueses, que complexados por não acompanharem pari passu o pensamento moderno, acabaram se esquecendo daqueles fantásticos padres-filósofos de Salamanca e Coimbra, mestres de Descartes e Leibniz, que em pleno século XVI já pensavam em economia de mercado e física probabilística, saltando três séculos sobre a ilusão mecanicista cujo prestígio, tão invejado pelos ìluministas ibéricos, só fez atrasar o desenvolvimento das ciências e inspirar, na política, os frutos mais letais da falência estatal. O poder ocidental, então, foi de alto a baixo fruto da religião cristã - religião que seria inconcebível se não tivesse encontrado, como legado das tradições judaica e greco-latina, a semântica poderosa e sutil da Igreja, que irradiaria o conhecimento da Bíblia e da Antiguidade Clássica.
A experiência e herança de dois milênios, no entanto, pode ser obscurecida até tornar-se invisível e inconcebível. Basta que novos bárbaros, travestidos de intelectuais, invadam nossa escolas e nos eduquem para a preguiça e o esquecimento. Coisa que desde há muito vem acontecendo. Por toda parte, as universidades - antigas filhas das igrejas - são hoje, de uma perspectiva intelectual, intrigueiras, doentes, falidas, e, salvo exceções, dirigidas por impostores que, inveriavelmente, duvidam de Deus e desconfiam do homem. O abismo entre o progresso material e a cultura espiritual aumenta de dia para dia, e as armas desse progresso nas mãos dos bárbaros é fato que salta aos olhos de quem ainda pode enxergar. Olhamos em volta e vemos que as universidades foram reduzidas a escolas (superiores) profissionalizantes ou, quando muito, em cursinhos de ideologia, onde toda bagagem intelectual do "acadêmico" se reduz a um punhado de jargões niilistas, clichês relativistas e slogans demagógicos. A bem da verdade, os edifícios das universidades ainda resistem, e neles trabalha-se muito, demais, às vezes, mas o edifício do espírito, esta catedral invisível, está ameaçado de cair em ruínas. Em tempos mais felizes a sueca Ellen Key dizia com sutileza: "Cultura é o que nos resta depois de termos esquecido tudo quanto aprendemos." Mas que dizer quando o "esquecimento" é já em si um imediato fator cultural. Com efeito, somos riquíssimos de informação imediata, porém mendigos de cultura. Hoje em dia H. G. Wells poderia dizer melhor do que antes: "We are entered in a race between education and catastrophe..." ("Entramos numa corrida entre educação e catástrofe..."). Aí está a questão da Universidade.
Entretanto, não é sobre universidades que pretendo falar, é sobre trevas e esquecimento. O escritor Jorge Luis Borges dizia que "a memória é o essencial, visto que a literatura está feita de sonhos e os sonhos fazem-se combinando recordações!" Noutra ocasião, ele também ressaltou que "somos nossa memória, somos esse incomensurável museu de formas inconstantes, esse montão de espelhos rompidos." E ainda numa acertiva máxima, ele declarou que "o livro é uma extensão da memória e da imaginação." A memória é pois, naturalmente, o ponto crucial, a pedra de toque que infelizmente, neste tempo de arrogantes esquecidos, converteu-se em pedra de tropeço!... A capacidade de reagir ao texto, a compreensão e a resposta crítica ao autor, pertinentes ao ato pleno da leitura dependem estritamente das artes da memória, isto é, do saber de cor (termo que merece atenta reflexão). Saber de cor é uma arte, ou melhor, uma tradição cultural que prevaleceu na educação do ocidente desde a idade média até a Primeira Guerra Mundial. Thomas Mann, por exemplo, na infância havia decorado toda a Ilíada e o Livro de Jó. Os monges e cléricos (ou clercs como se dizia nas escolas inglesas) sabiam e ensinavam de cor extensos trechos das Escrituras Sagradas, da liturgia, da poesia, épica e lírica. A capacidade de citar e recitar de memória capítulos de Homero, Virgílio, Horácio ou Ovídio, de ter sempre uma citação apropriada de Dante, Shakespeare, Milton ou Platão gerou uma tessitura compartilhada de ecos, de identificações e reciprocidades intelectuais e emcionais sobre as quais fundamenta-se a linguagem da filosofia, da política, da jurisprudência, das leis e das ciências ocidentais. O conhecimento de cor das fontes latinas da cultura, de La Fountaine, de Racine, das frases de impacto de Oscar Wilde deram à vida cultural da Europa o seu caráter retórico. O leitor autêntico, o lector ou lisant, como se dizia na Idade Média, situava o texto que estava lendo num espaço cheio de ressonâncias. Um eco respondia a outro, a analogia era precisa e imediata, as correções e as emendas eram justificadas por precendentes evocados com precisão. O leitor reagia ao texto com todo este repertório de referências e associações. Mas isso é coisa do passado!... Quantas pessoa com dotes semelhantes, atualmente, você conhece? Decerto, poucas, talvez nenhuma. Mas não se envergonhe porque vivemos na era do esquecimento, a nova e verdadeira idade das trevas, em que não há restrição de livros, mas de leitores. Nesta era a atrofia da memória é característica principal da educação. A grande maioria de nós já não sabe identificar - e muito menos citar - até mesmo as passagens bíblicas mais importantes, tampouco os textos subjacentes à leitura ocidental (de Camões a Cora Coralina, de Goethe à Guimarães Rosa, os textos carregam dentro de si o eco implícito dos textos que os antecedem). As mais elementares alusões à Mitologia Grega, ao Antigo e ao Novo Testamento, aos clássicos, à história antiga e ocidental tornaram-se herméticas. Pequenos retalhos de textos sobrevivem agora precariamente à custa de pretenciosas notas de rodapé. A identificação da fauna e da flora, das principais constelações, das liturgias das horas e das estações do ano, que, como demonstrou C.S. Lewis, são conhecimentos essenciais à mais simples compreensão da poesia ocidental, do drama, do romance, de Bocaccio a Tennyson, são considerados hoje em dia um saber especializado. Já não mais aprendemos de cor. Os interstícios de nosso saber já não comportam ecos, pois estão entulhados de trivialidades estridentes, de lixo ideológico, de preconceitos politicamente-correto, todos cimentados por uma inexpugnável preguiça mental. O ensino escolar de nossos dias, princialmente o universitário, o acadêmico, é amnésia programada. Estamos esteticamente falidos, agonizantes. Logo resta-nos apenas um esplendor tecno-científico, uma semântica de estímulos auditivos e visuais, em que telas e monitores substituem livros. A ciência e a tecnologia não passam pelo processo de declínio observado em outras áreas da criação humana. Mas isso não invalida o diagnóstico geral. Digamos então que o estado da alma ocidental não é feliz. Não encontramos ninguém dizendo a frase de Erasmo no começo da Renascença: "Que tempo maravilhoso para se viver!". Por isso precisamos reavaliar nosos conceitos de civilização, de cultura, de identidade e sobretudo de educação.
A moderna educação ocidental nos acostumou a ler a historia antiga e sobretudo a medieval sob a ótica de "valores modernos" (termo bastante paradoxal!). Porém, quem já tentou ler a modernidade através da Idade Média?... Por que não podemos, em vez de medir o passado com a régua dos senhores do dia, julgar os senhores do dia à luz das sementes cujo máximo e perfeito desenvolvimento eles, sem a mínima prova, asseguram representar? Por que não nos atravemos a provar que as antigas sementes, plantadas em terra nova, podem dar melhores e mais doces frutos do que as ideologias niilistas, positivistas, anarquistas, relativistas, multiculturalistas das quais pendem toda degradação intelectual de hoje?
Toda a civilização ocidental nasceu de surtos religiosos da Igreja Cristã. Jamais existiu uma “cultura laica”. E longo tempo decorrido da fundação desta civilização, nada impede que alguns valores e símbolos sejam separados abstrativamente das suas origens e se tornem, na prática, forças educativas relativamente independentes. Até isso ela propiciou.
Mas digo “relativamente” porque, qualquer que seja o caso, seu prestígio e em última análise seu sentido continuarão devedores da tradição religiosa e não sobrevivem por muito tempo quando ela desaparece da sociedade em torno. Toda “cultura laica” não é senão um recorte operado em códigos e referências religiosas anteriores. Esse recorte pode ser eficaz para certos grupos dentro de uma civilização que, no fundo, permaneça religiosa, mas, suprimido esse fundo, o recorte perde todo sentido. A incapacidade de uma leitura autêntica e proveitosa decorre, portanto, apenas disso. O presente estado de coisas nos países que se desprenderam mais integralmente de suas raízes judaico-cristãs está demonstrando com evidência máxima que a pretensa “civilização laica” nunca existiu nem pode existir. E a literatuta é somente um indício.

sábado, 23 de agosto de 2008


Um blog sobre a decadência da literatura, o fim da civilização & outras amenidades.

Entreouvido na livraria...


Moça do caixa olhando a assinatura do cheque do cliente: Allan Kardec.


- Meu pai admira muito a obra do senhor!...

sábado, 16 de agosto de 2008

Palavras cantadas...


As moça de Jaguaripe

Choraram de fazê dó

Seu "Dori" foi na jangada

E a jangada voltou só


Dorival Caymmi
(30 de abril de 1914 - 16 de agosto de 2008)
Mundo menos interessante e mais silencioso.

sexta-feira, 15 de agosto de 2008


"Os corvos afirmam que um só corvo seria capaz de destruir os céus. Sobre isso não há dúvida, mas isso nada prova contra os céus, pois o céu, simplesmente, significa a impossibilidade dos corvos!"


Franz Kafka

Um Teólogo Secular


A exemplo de outras obras excepcionais da literatura, das artes plásticas e da música, a ficção de Franz Kafka é a que hoje, mais contundentemente, convida o ser humano perplexo a decifrá-la, e faz desse convite uma armadilha religiosa. Na condição de indivíduo e escritor, Kafka foi uma seqüência de imensos paradoxos. As suas maiores obra de ficção – “O Processo” e “O Castelo” – não chegam a desafiar “Em Busca do tempo Perdido”, de Proust, “Ulysses”, de Joyce, ou mesmo “A Montanha Mágica”, de Thomas Mann. No entanto pensamos no século XX como uma leitura de Kafka, e não de Proust ou Joyce, e muito menos de Thomas Mann. Na vida, ele foi do mesmo modo tão bem-sucedido quanto fracassado. Não tinha formado família; sua carreira jurídica na área de seguros era, na melhor, das hipóteses, sofrível e risível; o sucesso literário, avaliado por qualquer escala pessoal ou pública, escapou-lhe quase por completo; sua aparência física inspirava certa reação divertida, ou prognósticos desfavoráveis: quer pela feiúra, quer pela timidez; seus relacionamentos eróticos terrivelmente complicados – como seu prolongado noivado com Felice Bauer e seu amor por Milena – terminavam sempre mal. E sempre que se via na iminência de assumir um compromisso, Kafka refugiava-se na doença, a tuberculose, que viria a causar-lhe a morte prematura. Em qualquer biografia não podemos deixar de perceber a etiologia psicossomática da doença e de observar que era uma situação consentida. Kafka usava a doença como ela o usava, e essa reciprocidade tornava ainda mais profundos seus sentimentos de culpa. Tanto em relação aos ideais pessoais, literários e religiosos como às expectativas brutalmente expressas por seu pai, Kafka declarava-se um fracassado total, um decaído. Daí a culpa ser o seu tema mais recorrente e, por conseguinte, o objeto de sua “teologia secular”, disfarçada de literatura. Entretanto, por mais que negasse possuir sabedoria ou percepção religiosa, Franz Kafka foi, depois de Dostoievski, o mais arguto teólogo secular da moderna literatura ocidental. E cada vez que o releio percebo o quanto é estranha e, ao mesmo tempo, inquestionável sua profunda espiritualidade. Cumpre-me confessar que não gosto de Kafka, não sou fã, muito embora tenha lido tudo que dele pudesse encontrar com a mesma avidez e asco. Poucos escritores, só os grandes, conseguem tal proeza. Em meio a toda uma ambientação voltada para o mundano, o político e o racional, Kafka compõe um conjunto de parábolas, de alegorias, de aforismos e de comentários cuja essência é - técnica e substantivamente - sagrada, teológica e religiosa. É aí que se observa a ascendência espiritual pessimista de Pascal, Kierkegaard e Nietzsche, e ao mesmo tempo a influência ficcional de Dostoievski, primo literário, cuja força narrativa revela como a santidade encontra-se lado a lado com o mais profundo ódio. Neste termos, ousaria dizer que Kafka é um judeu eminentemente talmúdico, mas com aspirações de cristão protestante. As aflições de Caim e Abel, de Abraão e Isaac, de Jó e seus amigos, de Judas e Jesus Cristo, cuja dialética é desafiadora e enigmática, são as mesmas aflições que atormentam Gregor Sansa, Joseph K. e todos os K. que figuram na obra de Kafka, e terminam por destruí-lo. A tristeza, a angústia e o desalento supremos dos seus livros, suas cartas, seus diários, de tudo, enfim, que ele escreveu, é incomensurável. Porém ele também era um satirista social, um virtuoso do grotesco, do absurdo, que sabia parodiar os temas mais sérios. Não obstante, sob todos os chistes, piadas e anedotas, as invenções ficcionais de Kafka constituem uma prodigiosa façanha de indagação metafísico-religiosa. Reconheço que Kafka é escorregadio e bastante refratário às definições, e tudo que diz respeito a esse artigo é paradoxal, pois Kafka certamente dele fugiria. Mas do que não fugia Kafka?
Além de ter sido o teólogo da dúvida, Kafka foi também o gênio literário do isolamento. E toda a sua obra perturbadora ensina-nos a vislumbrar o quanto podemos "ser" ou "estar" sozinhos.

Predestinação: a religião político-jurídica de Kafka!


Por mais que Deus e a religião sejam aparentemente imperceptíveis na obra de Kafka, eles não estão ausentes. Sua literatura essencialmente onírica e estruturalmente absurda prefigura uma teologia desafiadora, cuja fé irrompe das convulsões de uma agonia de dúvida, como em santo Agostinho, Lutero, Pascal, Kierkegaard, Dostoievski e Nietzsche. Essa esplendorosa agonia Kafka encontrou nos fardos da vida cotidiana. Como judeu crescido em civilização cristã, ele absorveu o que havia de mais desconcertante nestas duas tradições religiosas: o fatalismo da eleição divina, ou melhor, a predestinação. Esse é o tema de toda a sua literatura, e cada um dos seus romances o observa sob diversos prismas. O Processo é um apólogo e uma apologia, ao mesmo tempo. Sob o véu da alegoria, Kafka instrui acusação contra a justiça do tribunal divino. O delito desconhecido do personagem K. é o pecado original. O processo judicial é o signo da predestinação. E o que K. evita, sem compreender, pelas suas atividades é a graça. A prisão de K. não passava de uma provocação por parte daquele estranho tribunal, segundo o qual, o próprio personagem tem de criar pelas suas atitudes as razões de sua absolvição ou condenação. E, sem querer, cria o delito mortal, prevalecendo-se obstinadamente da sua inocência. Faz tudo o que se pode fazer: contrata um advogado e um médico, corrompe o carcereiro e o escrivão. Mas eles não podem ajudá-lo porque nenhum deles compreende o processo melhor do que o próprio K., todavia todos estão convencidos da justiça e da onipotência do tribunal; por isso aconselham K. a confessar um crime que ele não conhece e nem pode conhecer. E neste contexto absurdo K. não faz mais que jogar o processo contra si mesmo. Ao longo de toda a narrativa o homem é apresentado como uma vítima passiva da perseguição celeste. No conto “A Colônia Penitenciária”, que é uma continuação de “O Processo”, vemos uma terrível máquina de precisão marcar no corpo dos forçados, por meio de agulhas incandescentes, os nomes dos delitos, que são desconhecidos dos próprios condenados. A tortura pela qual a sua culpa lhe será revelada é a única esperança, pois saber o nome do delito é a condição preliminar para saber justificar-se. No romance inacabado “O Castelo”, a questão se inverte, mas ainda requer a mesma resposta. Ainda nesta narrativa o herói se chama K., somente K.! E o seu adversário não é desta vez um tribunal, mas o Castelo, o lugar onde a graça e a redenção estão concentradas. Ao pé deste castelo há uma aldeia, onde os camponeses, crentes humildemente submissos, executam suas tarefas diárias. K. também desejaria ser camponês nessa aldeia. É preciso frisar: ele o quer, ele o exige mesmo. Desejaria obrigar o Castelo a conceder-lhe o direito de permanência na aldeia. Quer forçar esta comunhão com fiéis mesmo sem ser um “eleito”. E o que ele pode fazer para ser um eleito? Ninguém sabe. Predestinação! Mesmo depois de acolhido, K. é logo coagido a deixar a aldeia por um dos filhos do castelão. Ele então recorre a uma mentira dizendo que foi contratado para trabalhar como nivelador. Resolvem telefonar para o Castelo. E o Castelo responde de maneira surpreendente: sim, K. estava sendo esperado! É o primeiro dom voluntário da graça: mas contém uma punição. Pois o Castelo retorna o telefonema acrescentando: “K. tem permissão de ficar, mas o seu contrato foi um lamentável engano, não há necessidade de niveladores, portanto ele pode ficar, mas não pode participar da vida da aldeia. K. desespera-se pois embora presente não participa, sua existência não tem sentido. Eis-nos nas últimas linhas do romance inacabado. Mas uma anotação aponta-nos um fim: K. não tem o direito de compor a aldeia, mas considerando-se certas circunstâncias, ser-lhe-á permitido permanecer, isolado e excluído, até a morte. Em “O Processo” o céu instaura litígio espiritual contra o homem. Em “O Castelo” o homem instaura litígio contra o céu. São as conseqüências da lógica da predestinação. O homem em Kafka, recusa-se e revolta-se contra um misterioso sistema de seletividade divina. Acusa Deus, como Ivan Karamazov que entendia a predestinação como uma piada blasfema e absurda. Não parece que esse Deus deseja a participação do homem em sua própria redenção. No abismo entre o Deus tirânico dos crentes da predestinação como Santo Agostinho e Calvino, e o homem desavisado de sua condição metafísica, Kafka sonda o caminho da graça. No seu último diário, pouco antes de morrer, ele copiou as seguintes palavras de um sermão de Lutero:

“Deus não é inimigo dos pecadores, mas somente da soberba dos descrentes que não admitem os próprios pecados nem procuram o apoio de Cristo, mas que procuram temerária e estupidamente a purificação em si mesmos”.

A estas palavras, Kafka contrapôs o seguinte aforismo:

“Quem procurar não encontrará, quem não procurar será encontrado!”

Quando li este aforismo, imediatamente, lembrei-me das sábias palavras do filósofo católico Baisle Pascal:

“Consola-te: não me procurarias se já não tivesses encontrado!”

sexta-feira, 1 de agosto de 2008


No fim tu hás de ver que as coisas mais leves

são as únicas que o vento não conseguiu levar:

um estribilho antigo

um carinho no momento preciso

o folhear de um livro de poemas

o cheiro que tinha um dia o próprio vento...


Mário Quintana

A mais difícil simplicidade!...


Na minguada constelação da poesia brasileira, Mario Quintana é astro de primeira grandeza, muito embora haja quem conteste, porque seu brilho surgiu tão remoto e distante que foi considerado pequeno e fugaz, como uma “supernova” poética. Eu, particularmente, o prefiro a qualquer outro - mesmo em detrimento dos meus conterrâneos (Manuel Bandeira e João Cabral) que desde sempre refulgem que nem os bois do carro-do-sol de Apolo Auriniente, divindade estética da música e da poesia. O que se deu com Quintana é o que se dá com tantos outros à margem dos acontecimentos, onde a chancela das edições provincianas é quase sempre uma fatal condenação ao silêncio e ao esquecimento. Mas quase!... Para escapar a esta triste fatalidade, e obter projeção, Quintana teve a sorte de ser reeditado no Rio de Janeiro (sob os auspícios de Manuel Bandeira), de onde, afinal, pôde brilhar em todo o seu esplendor, ofuscando assim as critiquinhas que queriam reduzi-lo ao tamanho delas próprias. A poesia de Quintana é feérica e se caracteriza por rápidos e pequenos sortilégios, feitiços ou simpatias verbais que funcionam e impressionam pela difícil simplicidade de sua forma e conteúdo. Ternura, melancolia, intimismo, misticismo, ironia, ingenuidade, humor e erotismo são ingredientes de sua quintessência poética. Quem nunca desejou, ou mesmo supôs-se capaz de imitar, e até superar Mario Quintana, para logo surpreender-se frustrado? Eu já!... Desde então abdiquei da vaidade de ser poeta. A facilidade com que se exprime é ilusória: nada aí está ao alcance dos nossos dedos, por mais próximo que pareçam. Quintana é um enfeitiçado das letras, dono de um condão semântico encantatório que ele sabe manipular com o mínimo de palavras. Com tais poderes, seus versos sempre conseguem aquele prodígio “lorcaniano” de significados, próprio da grande poesia. Seus símbolos e termos são quase sempre diminutos, estreitos, lacônicos, e no entanto polissêmicos, multívocos. A sua lírica é, como dizia Drummond, uma tradução para o simples de muitos mistérios. Com efeito, o monumental e misterioso “Em Busca do Tempo Perdido” de Marcel Proust, não pôde encontrar no idioma português outro tradutor mais competente. À parte as traduções, basta uma leitura, mesmo apressada de algumas de suas obras como “As Canções”, “O Aprendiz de Feiticeiro”, “O Sapato Florido”, “A Rua dos Cataventos”, “A Cor do Invisível” ou o “Carderno H”, para deixar claro o equivoco de certos telescópios críticos ao considerar menor essa imensa estrela poética. Quisera eu saber como fazer metade dessa poesia doce e lúcida, debochada, genial e grandiosa, apesar da humilíssima constituição, que está para muito além de qualquer academia, qualquer título.

quinta-feira, 3 de julho de 2008


Vai, livro natimudo,
E diz a ela
Que um dia me cantou essa canção de Lawes:
Houvesse em nós
Mais canção, menos temas,
Então se acabariam minhas penas,
Meus defeitos sanados em poemas
Para fazê-la eterna em minha voz
Diz a ela que espalha
Tais tesouros no ar,
Sem querer nada mais além de dar
Vida ao momento,
Que eu lhes ordenaria: vivam,
Quais rosas, no âmbar mágico, a compor,
Rubribordadas de ouro, só
Uma substância e cor
Desafiando o tempo.
Diz a ela que vai
Com a canção nos lábios
Mas não canta a canção e ignora
Quem a fez, que talvez uma outra boca
Tão bela quanto a dela
Em novas eras há de ter aos pés
Os que a adoram agora,
Quando os nossos dois pós
Com o de Waller se deponham, mudos,
No olvido que refina a todos nós,
Até que a mutação apague tudo
Salvo a Beleza, a sós.


Ezra Pound

Antenadíssimo


Ezra Pound é, pessoalmente falando, uma das figuras literárias mais constrangedoras que surgiu desde Dostoievski. Digo isso porque sua alma foi tão luminosa quanto sombria. Nascido em 1885, era um menino rico, branco e protestante do Idaho, conhecido pelo domínio precoce de várias línguas. Começou a lecionar literatura muito cedo, aos 16 anos, mais foi despedido por ser um tipo muito “Quartier Latin”. Em breve buscou abrigo entre almas singulares, no estrangeiro. Aos 23 anos, engordando de fome numa dieta de batatas em Veneza, ele publicou seu primeiro livro, A Lume Spento, em italiano, uma coletânea de poemas que provocou uma amizade agressiva com Yeats, que assim o definia: “Uma natureza bruta e rude, ele está sempre ferindo o sentimento das pessoas, todavia é dotado de boa-vontade e de um gênio semântico incomensurável”. Boa-vontade: para dizer o mínimo! – entre 1909 e 1920, quando viveu em Londres e depois em Paris, ele sistematicamente promoveu as carreiras alheias (T. S. Eliot dedicou “A Terra Devastada” a Pound; foi Pound quem levantou o dinheiro necessário para Joyce terminar "Ulysses"; e ainda contribuiu para publicação de “A Consciência de Zeno” de Svevo, mesmo antipatizando com judeus). Sua generosidade nesse aspecto é uma questão sobre a qual até Hemingway, que não costuma celebrar a gentileza alheia, deu seu testemunho: “Até agora”, escreveu em 1925, “vemos que Pound, um poeta maior, dedicar um quinto de seu tempo à poesia, digamos. No restante do tempo ele tenta promover a fortuna tanto poética quanto material dos seus amigos”. E não era isso, eles os defendia quando eram atacados, colocava-os nas revistas e os tirava da cadeia. Emprestava dinheiro. Vendia seus quadros. Conseguia concertos para eles. Escrevia artigos a seu respeito. Apresentava os amigos a mulheres ricas. Fazia com que os editores lessem seus livros. Passava a noite em claro com eles, quando acreditavam que iam morrer, e servia de testemunha na hora do testamento. Adiantava despesas de hospital e os dissuadia de cometer suicídio. E, no final, alguns poucos evitam apunhalá-lo pelas costas na primeira oportunidade. Mesmo assim, ele conseguiu publicar panfletos regularmente, compor seus famosos Cantos (“o épico das viagens de uma inaudita mente poética”, como definiu João Cabral de Melo Neto, seu mais ilustre discípulo brasileiro). "Inaudita mente poética" é um gentil eufemismo, Pound era uma verdadeira antena semântica, cujo profundo domínio gramatical de diversos idomas chegava ser estarrecedor - daí ser tão grande poeta quanto tradutor. Nisto, porém, havia uma singela ironia: o escritor que foi um dos melhores tradutores, não apenas de um para quase todos os idiomas inverificáveis do extremo Oriente, mas do familiar território ocidental, seja qual fosse a sua compreensão da escrita, não era poeticamente fruível em algumas traduções. Ou seja, Pound era capaz de traduzir com maestria qualquer escritor de qualquer lugar, época ou língua. Mas poucos eram capazes de traduzi-lo!... Além de poesia e tradução, ele também tentou escultura e pintura com seriedade, mas sem sucesso. Entretanto foi o estudo do existencialismo ateu que se tornou seu interesse mais intenso, que veio juntamente com a nociva amizade e influência de Heidegger - depois do que ele desenvolveu noções filosóficas equivocadas que o levariam a ruína psíquica e moral: em 1939, sendo ainda muito italianófilo, mussolinista, assumiu publicamente uma postura anti-semita e começou a transmitir pelas rádios de Roma uma seqüência de discursos de cunho fascista que culminariam com seu indiciamento como traidor dos Estados Unidos; unidades do exército norte-americano que invadiram a Itália o capturaram em 1945. Por várias semanas, como uma besta feroz e raivosa, ele ficou preso numa jaula ao ar livre em Pisa. Meses depois, na véspera do seu julgamento por traição, ele foi declarado insano, como poderia ocorrer com qualquer outro poeta digno do nome; passou os doze anos seguintes isolado, evitado e quase esquecido no hospital Santa Elizabeth, no Distrito de Columbia. Enquanto estava lá publicou The Pisan Cantos, ganhou o prêmio Bollingen, um premio excessivamente censurado nos círculos endinheirados. Contudo, num dia chuvoso de 1958, Pound, então um velho de 72 anos, com sua barba antes exuberante tornando-se grisalha e seu rosto de santo demasiado pecador vincado por linhas que contavam uma história digna de consternação, compareceu perante a Suprema Corte e soube que era considerado “incuravelmente insano”. Incurável, mas inofensivo o bastante para viver livre. Imediatamente Pound anunciou: “Qualquer homem capaz de viver na América é insano!"... e se preparou para voltar a Itália. As fotografias, como esta feita por Cartier-Bresson, foram ainda tiradas poucos dias antes de sua partida de navio. Arrogante, zombeteiro, sombrio, seus olhos se fechando quando entoou os versos de uma canção sem sentido, balançando para frente e para trás, com se ainda estivesse na jaula em Pisa. Ou na jaula em que a própria vida se transformou.
Apesar de tudo isso, sua poesia é eterna e não apenas merece, mas deve ser lida.

sábado, 14 de junho de 2008

Da série: Quéisso??????????!


Há cinquntas anos atrás, no dia 16 de junho de 1958, Marilyn Monroe foi fotografada lendo (ou tentando ler) "Ulysses", de James Joyce... Reparem na expressão da moça: reflexiva, espantada, estarrecida, confusa, catatônica ou cara-de-choro? Não importa. A pergunta certa é: quanta humilhação e maldade pode suportar uma serumana???

Depois, ninguém entende porque (quatro anos depois) ela se matou!...

BLOOMSDAY


Toda a substância do romance "Ulysses" é simplesmente o dia 16 de junho de 1904, em Dublin. Cidade a margem do mundo que não nos importa em nada, num dia em que nada aconteceu; a não ser o retorno de Stephen Dedalus e seu encontro com Leopold Bloom. Nunca mais a literatura seria a mesma.

Literatura casca grossa


James Joyce certa vez confessou a um amigo: "Quando jovem, uma das coisas com as quais não conseguia me acostumar era a distância entre a vida real e a literatura". Qualquer leitor que sabe apreciar boa leitura percebe a diferença. Joyce passou toda a sua carreira tentando aproximar essas realidades e, sem perceber, acabou revolucionando a ficção do século 20. Ele trouxe sua própria vida para a literatura. Nascido nos arredores de Dublin, em 1882, James Augustine Aloysius Joyce era o mais velho dos dez filhos do casal John e Mary Jane Joyce. O pai, beberrão espirituoso e irascível, era um provedor negligente. A mãe, católica devota, impotente diante das adversidades da vida, assistiu resignada e contrita à ruína da família. Em 1902, ao terminar seus estudos na Trinity College, em Dublin, Joyce achava que já sabia o bastante para dispensar a religião, a família, a terra natal e a coroa britânica. A literatura seria sua vocação e sua passagem para a imortalidade. No final de 1904, Joyce deixou a Irlanda em direção ao continente, levando na cabeça todas as histórias que um dia iria escrever. Ao lado de Nora Barnacle, jovem camareira da região de Galway, que ele conheceu num hotel de Dublin, o escritor andou por cidades como Pola, Trieste, Zurique, Roma e Paris. Para sustentar a esposa e os dois filhos, Joyce trabalhava como professor ou escriturário. Esse período pode ser definido como uma sucessão de crises. Aliás, toda a sua vida foi uma crise intermitente, que só terminou com sua morte, quando refugiado na Suíça, praticamente cego, separado da filha esquizofrênica que ele adorava e que ficou sozinha, internada num hospício na França sem poder deixar o país recém-ocupado pelos alemães. Uma biografia de partir o coração, a bibliografia porém.. Seu primeiro livro de ficção, "Os Dublinenses" (1914), contém 15 contos, pobres de enredo mas ricos em linguagem e força evocativa. "Retrato do Artista Quando Jovem", escrito dois anos mais tarde, traz um relato lingüisticamente complexo, mas, ao mesmo tempo, bastante objetivo sobre a vida de Stephen Dedalus - o próprio escritor - desde seu nascimento até a partida de Dublin. O livro teve pouca saída, mas seu trabalho já havia atraído a atenção de vários artistas de vanguarda, incluindo o poeta americano Ezra Pound, que acreditava na necessidade de uma renovação completa na arte, na poesia e na música. Os aliados de Joyce uniram forças para promover sua literatura experimental. O escritor irlandês, é claro, não os decepcionou. "Ulysses" começou a ser escrito em 1914. Alguns trechos da obra apareceram em publicações como "Egoist", na Inglaterra, e "Little Review", nos Estados Unidos, até que o serviço dos Correios, alegando obscenidade, resolveu confiscar três números da revista, contendo fragmentos escritos por Joyce. Seus editores tiveram de pagar uma multa de US$ 100. A ameaça de censura apenas serviu para aumentar a curiosidade sobre o novo livro. Antes mesmo de "Ulysses" ser publicado, em 1922, os críticos já comparavam as inovações literárias de Joyce ao impacto causado pelos trabalhos de Einstein e Freud. Toda essa comoção tinha um motivo claro. Em primeiro lugar, Joyce dispensou a maior parte das técnicas de narração empregadas na ficção do século 19. O livro não tem uma trama distinta -uma sucessão de obstáculos que o herói deve enfrentar na busca de um final feliz. Não existe um narrador onisciente, pronto para guiar o leitor, descrevendo os personagens e seu ambiente, fornecendo detalhes, resumindo os acontecimentos e explicando, aqui e ali, o significado moral da história. Talvez a descrição mais clara e concisa da técnica usada pelo escritor seja a do crítico Edmund Wilson: "Em "Ulysses", Joyce usou as palavras de maneira exaustiva, precisa e direta para retratar a nossa participação na vida - ou melhor, como ela se apresenta a nós, em cada momento vivido". Depois de "Ulysses", a literatura do século 20 passou a dispor de um ponto de referência. Com múltiplas vozes narrativas e um jogo de palavras extravagante, o livro é um verdadeiro dicionário de estilo para os escritores que tentam descrever a contemporaneidade da vida. Existe um pouco de "Ulysses" nas obras de escritores como William Faulkner, Albert Camus, Samuel Beckett, Saul Bellow, Gabriel García Márquez, Thomas Phyncon e Toni Morrison. Todos, com exceção de Joyce, receberam o Prêmio Nobel de Literatura. Mas o único autor que ousou superar o alcance enciclopédico de "Ulysses" foi o próprio Joyce. Apesar do volume e da complexidade, dos neologismos e dos jogos verbais, "Ulysses" ainda é ninharia perto do que viria depois. No intuito obsessivo de se superar, o escritor dedicou dezessete anos de trabalho a "Finnegans Wake", escrito com o objetivo de retratar a vida adormecida de Dublin com a mesma minúcia com que o escritor tinha explorado, em "Ulysses", o lado desperto da cidade. Joyce resolveu então inventar uma linguagem que imitasse a experiência dos sonhos. Hoje em dia, apenas os joyceanos mais dedicados se dispõem a enfrentar o obscuro "Finnegans Wake". Quem sabe, daqui a um século, seus leitores conseguirão alcançá-lo. Ou, o mais provável, ninguém mais queira ouvir falar dos livros de James Joyce.

Decifra-me ou te devoro...


Amigos e inimigos, fã e detratores concordam: Ulysses, seja obra-prima neo-homérica, seja monstro pseudo-dantesco, é um livro de importância excepcional, mas, sobretudo, um desafio ao nosso poder de leitura. Apenas não concordam quanto às conclusões críticas: alguns o consideram como o maior romance de todos os tempos, cume e suma do gênero; outros reconhecem em Ulysses a paródia definitiva do gênero, e lembrando-se do aforismo de Kierkegaard segundo o qual “toda fase histórica termina com a paródia de si mesma”, proclamam o romance de James Joyce como ponto final da história do romance. O próprio autor, presunçoso como ele só, dizia ter escrito "anti-livros", e que toda sua obra só podia ser lida por quem fosse capaz de dar sua vida por isso, ou, no mínimo, por quem sofresse de uma insônia crônica. Eu sofro de insônia - embora não seja crônica - e, francamente, não acho que a obra mereça tanto - embora deva confessar que só li, aliás, tentei ler Ulysses uma vez. E confesso também que só compreendi uma ínfima parte do seu conteúdo enorme, porque dediquei à leitura somente algumas semanas - firmemente decido a aproveitar para outras coisas o resto da minha vida. Todavia, isso não significa nada, e Ulysses tem direito a nossa consideração. Portanto, se você deseja lê-lo, permita algumas ressalvas: Como o próprio nome indica, Ulysses é um hipertexto, metatexto, ou seja lá o que for, da Odisséia de Homero. Logo, recomenda-se encará-lo só depois de ter feito o mesmo com a Odisséia. Todo o texto joyceano está rigorosamente constituído conforme o plano da segunda epopéia de Homero, embora suas mais de 900 páginas descrevam apenas um dia (16 de junho de 1904). Leopold Bloom é o moderno Ulysses, andando perdido, como meio estrangeiro, pelas ruas de Dublin, assim como Ulysses andou pelo arquipélago grego; é um Ulysses judeu porque, conforme certas filologias, às quais Joyce adere, os marujos na Odisséia são semitas de origem fenícia. Como judeu, Bloom é meio apátrida; e em vez de uma Penélope, casta e fiel, só tem a esposa Molly Bloom que não é nada disso. Em compensação, encontra um filho em Stephen Dedalus, seu Telêmaco. Custa até eles se encontrarem, e este ínterim é, então, a nova Odisséia. Cada momento do banalíssimo dia de Leopold Bloom corresponde a uma etapa da longa viagem de Ulysses: A submissão de Bloom com respeito a Molly, que fica deitada enquanto ele prepara o café-da-manhã, corresponde à prisão de Ulysses na ilha da musa Calipso. Enfim, Bloom sai de casa, mas no banho, entre água morna e perfumes baratos, quase esquece os negócios do dia; assim como Ulysses esqueceu-se da viagem distraindo-se com os lotofagos. Para assistir o enterro do seu cliente Dignam, Bloom repete a viagem de Ulysses ao mundo dos mortos. A leitura do tablóide que voa até ele trazendo notícias fúteis, assemelha-se ao encontro com Eolo, o fútil deus do vento. No restaurante, onde Bloom e amigos vão almoçar sem apetite, relemos o episódio homérico com os Lestrigônios, doentes de fastio. Entrando na Biblioteca, Bloom tem de passar entre duas estátuas imensas, como Ulysses navegando entre o estreito de Scila e Caribdis. Às 3 da tarde, as ruas de Dublin se põem em movimento, lembrando o fabuloso capítulo dos rochedos caminhantes. Nisso, Bloom chega ao pub, onde, devido a sua origem judaica, será ultrajado por um gigantesco fascista irlandês, que lembra o terrível Ciclope. (Joyce, com sua linguagem inventada, o descreve nestes termos: ombrilargo amplipeito perniforte olhifranco cabelirrubro!). Depois deste incidente ele é levado pelas garçonetes, cujo falatório o deixa ainda mais confuso, tal qual Ulysses ouvindo o canto das sereias. Dali ele vai à praia, onde encontra, semi-nua, a tentadora ninfeta Gerty, reencarnação de Nausicaa. Ao cair da noite, os estudantes bêbados que ele encontra na maternidade, onde foi visitar uma amiga, comportam-se como os ruidosos “bois do sol” do deus Apolo. Entre eles está o intrigante Stephen Dedalus (protagonista do primeiro e único romance legível de Joyce: Retrato do artista quando jovem), que trava amizade com Bloom e o atrai para um bordel. Lá, Bloom assiste a uma orgia comandada pela cafetina que - em tudo - espelha a feiticeira Circe transformando os marinheiros em porcos!... (Para mim, esse é um dos episódios mais impressionantes do romance: a orgia é descrita com uma imponência infernal digna de Dante). Por fim, Stephen resolve deixar os camaradas e resolve acompanhar Bloom até a casa deste. Mas antes entram num café, onde são molestados pela arenga de um marujo, que assim repete a cena do loquaz Eumeo. A seguir, e finalmente, os dois heróis da epopéia, agora juntos, retornam para casa, uma Ítaca diferente onde, em vez de Penélope, encontram Molly, deitada na cama, sonhando coisas eróticas enquanto masturba-se, resumindo num enorme monólogo (40 páginas!), sem sintaxe nem pontuação, a sua vida – monólogo que não acaba, assim como não acaba o fluxo do tempo. Eis tudo, ou quase. Certamente passaram coisas despercebidas, e agora percebi que me esqueci de comentar o texto em si, que como alguns já devem saber é algo inteiramente inusitado. Joyce era excelente poliglota, de modo que seu estilo é babélico: plural e confuso. Ele sabia dizer tudo, em todas as línguas, de todas as épocas, com feito, disse coisas demais. Desafiou não só a semântica e a sintaxe, mas também a morfologia, que foi por ele genialmente violada. Todos os estilos e modos servem ao romancista. Na cena da maternidade, por exemplo, um estudante começa falando no inglês medieval de Chaucer, outro responde no inglês barroco de Shakespeare e Ben Johnson, segue-se a linguagem bíblica de Milton, depois as rimas de Pope, a narrativa sóbria de Defoe, a elegância cínica de Swift, o sentimentalismo de Fielding, a sonoridade oriental de De Quincey e a verbosidade cômica de Dickens, até descambar nas gírias grosseiras que prenunciavam os beatniks. Cumpre aqui avisar que o livro é bastante obsceno! Em comparação, as convulsões eróticas de D. H. Lawrence parecem pálido reflexo, faltando-lhe o humorismo cruelmente irônico de Joyce. Há ainda outros detalhes interessantes, porém irrelevantes (assim penso), cada capítulo corresponde a uma parte do corpo e não será difícil identificar qual. Cada um também é caracterizado por uma cor, conforme as significações místicas da escolástica concernentes às artes humanas: música, retórica, etc. Afinal, como se pode ver, Ulysses foi elaborado de acordo com um esquema de construção tão meticulosamente elaborado, que cabe perguntar: para que tudo isso? Não sei. Jamais decifrei tal charada. Pelo menos não por inteiro. Nem sei se quero, nem se vale a pena... Só sei que apesar da grande influência que Joyce exerceu, a sua obra continua única e inimitável. Pode ser considerada como sintoma de decomposição, literária e intelectual. Mas a literatura, ou o mesmo romance não acabou e nem vai acabar por causa disso – apenas ampliou-lhes o território. Ulysses é, de fato, um mistério e um desafio, mas por isso não pode dizer: “não será lido”, pois não se sabe se jamais foi lido e tampouco decifrado.

quinta-feira, 12 de junho de 2008

Palavras cantadas...


Eu quero a sorte de um amor tranqüilo


Com sabor de fruta mordida


Nós na batida, no embalo da rede


Matando a sede na saliva


Ser teu pão, ser tua comida


Todo amor que houver nessa vida


E algum trocado pra dar garantia


Que ser artista no nosso convívio


Pelo inferno e céu de todo dia


Pra poesia que a gente não vive


Transformar o tédio em melodia


Ser teu pão, ser tua comida


Todo amor que houver nessa vida


E algum veneno antimonotonia


E se eu achar a tua fonte escondida


Te alcanço em cheio, o mel e a ferida


E o corpo inteiro como um furacão


Boca, nuca, mão e a tua mente não


Ser teu pão, ser tua comida


Todo amor que houver nessa vida


E algum remédio pra dar alegria




Feliz dia dos namorados

terça-feira, 10 de junho de 2008

Amour sans fin...

Héloise era órfã, e não se sabe ao certo quem seriam seus pais; era sobrinha de Fulbert, padre e Deão da Catedral de Paris (ainda não era a Notre Dame, construída um século depois). O tio mandou-a para um convento, célebre pela escola e biblioteca. Quando soube que Héloise sabia conversar em latim com a mesma facilidade que em francês, e que estava estudando hebraico, Fulbert orgulhou-se da sobrinha e levou-a para morar em sua casa, nos fundos da catedral. Para servir-lhe de tutor em filosofia e outros estudos avançados, Fulbert procurou o ídolo e modelo de todos os estudiosos de Paris.
Seu nome era Pierre Abélard, nascera na Bretanha por volta de 1079, primogênito de um rico agricultor. Brilhante na escola, Abélard, ainda jovem, ficou entusiasmado quando ouviu falar de homens chamados escolásticos, uma classe de intelectuais que compartilhavam de conhecimentos, terminologia técnica e experiências interiores comuns, que propiciavam um diálogo filosófico fértil e especializado entre a razão e as Sagradas Escrituras. Sua busca por estes homens logo o levou para Paris, e para à escola catedral, onde Guilherme de Champeaux foi seu mestre. Anos depois, Abélard organizou sua própria escola, primeiro em Melun, depois em Mont-Geneniève, nos arredores de Paris. Ali, sua eloqüência, seu brilho e sua alegria intelectual atraíram mais alunos do ele poderia abrigar. Sua fama espalhara-se pela França, foi quando Fulbert o convidou para ser tutor de Héloise.
Era 1117, Abélard estava com 38 anos e Héloise com 17. Abélard admite que o primeiro sentimento que teve por ela foi de atração física, mas isso logo se transformou, graças à delicadeza da jovem, naquilo que ele descreveu como “uma ternura que superava em suavidade qualquer bálsamo”. Ela parece ter-se entregue a ele com confiança quase infantil; logo engravidou.
Abélard enviou-a para casa de sua irmã, na Bretanha, e acalmou Fulbert oferecendo-se para casar com Héloise, desde que o padre mantivesse a união em segredo, pois ele próprio tinha pretensões ao sacerdócio. De sua parte, Héloise recusou-se a casar, pois não queria que Abélard vivesse sua vocação de forma indigna. Se acreditarmos na autobiografia de Abélard, Historia Calamitatum, Héloise disse-lhe que “era muito mais doce ser chamada de ‘amante’ do que ‘esposa’, aliás, isso a honraria muito mais”. Mas, finalmente, Héloise consentiu e, junto com Abélard e Fulbert, concordou em manter o segredo. Logo depois, Fulbert revelou a união ilegal, no intuito de atenuar um escândalo mais grave. Héloise o desmentiu; Fulbert espancou a sobrinha, e ela abortou; Abélard mandou-a para um convento e pediu-lhe que aceitasse as vestes, mas não os votos de freira. Fulbert contratou rufiões para castrar Abélard. A emasculação não o desgraçou imediatamente, embora o desqualificasse para o sacerdócio; toda Paris, inclusive o clero, solidarizou-se com ele; os estudantes acorreram para confortá-lo – mas era tarde, Abélard estava arruinado. Pediu a Héloise que tomasse o hábito e os votos, e ele próprio professou votos solenes como monge. Com permissão para ensinar novamente, ele e seus alunos construíram perto de Troyes uma ermida para servir de escola e oratório. Aos poucos, recuperando a saúde e a coragem, Abélard dedicou-se a escrever alguns dos mais importantes livros da filosofia e poesia medieval. Na sua imponente obra Dialectica, ele formulou as regras de raciocínio, preparando-as para o renascimento da mente da Europa Ocidental. Em Diálogo entre um filósofo, um judeu e um cristão, permitiu que cada um desses três homens expusesse a fragilidade das doutrinas dos outros dois. Em Sic et Non (Sim e Não), Abélard formulou 157 perguntas às quais apresentou um argumento para resposta afirmativa e outro para resposta negativa. Em Theologia Christiana, rejeitou como sendo irracional a alegação de que só um cristão poderia se salvar; argumentou que Deus dá amor a todas as pessoas. Os hereges deveriam ser reprimidos pela razão, e não pela força.
Devido a essa variedade de idéias arrojadas, em 1140, Abélard foi indiciado pela Inquisição que, no Concílio de Sens, estabeleceu o inquisidor São Bernard de Clairvaux como promotor e relator do processo. Bernard era amigo de infância de Abélard e, após estudar sua filosofia, considerou-o muito ousado e heterodoxo, mas não perigoso, e por fim pediu que ele fosse punido apenas com o silêncio obsequioso. Abélard desesperou-se e, embora nessa época debilitado pela idade e aflições, partiu para Roma para expor seu caso ao Papa. Chegou ao mosteiro de Cluny, na Borgonha, e foi bem recebido pelo piedoso abade, Pedro, o Venerável. Ali, porém, ficou sabendo que Inocêncio III já havia acatado o veredicto do Concilio de Sens e lhe impusera o silêncio e confinamento monástico. Exausto física e espiritualmente, Abélard retirou-se para a obscuridade das celas e dos rituais de Cluny. Edificou os companheiros monges com a sua piedade, o seu silêncio e as orações. Escreveu a Héloise – a quem jamais voltou a ver - e reafirmou seu amor por ela e pela Igreja. Compôs, talvez para os olhos de Héloise, alguns dos mais belos poemas da literatura universal. Pouco depois adoeceu e o bondoso abade o enviou para o hospital do mosteiro de São Marcelo, perto de Châlons. Ali, aos 21 de abril de 1142, Abélard morreu com 63 anos. Foi enterrado na capela do mosteiro, mas Héloise, então abadessa do Paracleto, lembrou a Pedro, o Venerável, que Abelard pédira para ser enterrado em sua abadia. O bom abade Pedro levou ele próprio o corpo até Héloise, tentou consolá-la dizendo que ele era o maior gênio da época, e deixou-lhe uma carta cheia de ternura e cristã:

Assim, cara e venerável irmã em Cristo, aquele a quem, depois do vínculo da carne, vos uniste por um liame ainda melhor e mais forte, ou seja, o do amor divino,... o Senhor agora o recebe em vosso lugar, ou como a vossa própria pessoa, e o aquece em Seu seio; e o conserva para devolvê-lo a vós, pela Sua graça, no dia de sua vinda.

Héloise uniu-se ao amado em 1164, tendo vivido o mesmo número de anos e tido quase a mesma fama intelectual. Foi enterrada ao lado de Abélard nos jardins da abadia do Paracleto. Esse oratório foi destruído na Revolução Francesa, os túmulos violados e talvez confundidos. Em 1817, o que se julgava serem os restos mortais de Abélard e Héloise foi transferido para o cemitério Père Lachaise, em Paris. Ali, ainda hoje, em domingos de verão, podemos ver homens e mulheres apaixonados - às vezes juntos, às vezes solitários - adornando o túmulo com flores.

quinta-feira, 5 de junho de 2008


A literatura, ao curar os males da alma humana, pode oferecer-nos uma nova visão e um novo vocabulário de experiências, ou seja, um quadro verdadeiro da liberdade. Com isso, renovando a nossa noção de perspectiva, talvez nos lembremos de que a arte também vive em uma região onde toda a iniciativa humana fracassa.




Iris Murdoch

A Filósofa das Despedidas


Iris Murdoch foi mais uma das grandes contribuições que a Irlanda deu à literatura universal – ao lado de Oscar Wilde, Bernard Shaw e James Joyce. Como a maioria dos seus compatriotas, ela escreveu em inglês, enriquecendo assim uma língua já tão saturada de arte e poesia. Mas antes de ser artista e poeta, Iris quis ser filósofa, pois desde a adolescência tinha o propósito filosófico de, esteticamente, desafiar Platão, e assim anular o anátema que ele havia lançado sobre todos os poetas desde Homero. No entanto, apesar de sua exuberância intelectual e do forte ímpeto narrativo, acabou fracassando. Em tal empreitada, Iris Murdoch havia estabelecido para si os modelos mais elevados: Dante, Shakespeare, Tolstoi, Jane Austen, Dickens e Henry James. Diante de tais padrões, cumpre-nos perguntar, quantos escritores sobreviveriam? Ela sobreviveu, mas mesmo assim fracassou, pois se nem Homero conseguiu arranhar o incomensurável poder argumentativo de Platão, quem mais poderia fazê-lo? Todavia, que ninguém a subestime, pois qualquer escritor, poeta ou filósofo que se propõe a encarar tamanho desafio sofre, necessariamente, uma derrota honrosa. E o espólio desta luta não me deixa mentir: Iris escreveu 26 romances magníficos, dentre os quais ninguém sabe dizer qual o melhor. Eu só tive a sorte de ler três – O Sonho de Bruno, O Príncipe Negro, e O Mar, o Mar -, e foi o bastante para vislumbrar o seu gênio. Em todos os seus textos, Iris incansavelmente demonstra que só a literatura pode nos permitir uma percepção de todos os aspectos da realidade, que não seríamos capazes de ver, se não nos fossem por ela indicados. O grande paradoxo disso tudo é que a sua narrativa, quase romanesca ou fantástica, depende de magia, de intrusões góticas e paixões absurdas que nem sempre terminam bem. Iris Murdoch sofreu muito por amor, de modo que sempre fez seus personagens sofrerem o mesmo. Sua obra é toda povoada por jovens ardentes, violentos, ladinos e obsessivos, que perseguem ídolos narcisistas, dotados de muito charme, mas pouco controle da realidade, e que são céticos hesitantes. Nela há também adultos, freqüentemente, frustrados e raivosos, que se apaixonam subitamente. E há os magos de Murdoch, judeus carismáticos, os “deuses estranhos”, conforme ela própria, certa vez, os definiu. Nenhum desses tipos permite grandes processos de individuação, em termos de personagem, mas encaixam-se bem nas profundíssimas reflexões que Iris faz acerca do erotismo, da vivência amor e, sobretudo, da triste vivência do final do erotismo e do amor. Por isso ela é a grande filósofa das despedidas. E como Platão, Iris consegue filosofar com poesia. Seu poema “Carta do Hades” traz um dos melhores momentos da literatura moderna em que é invocado final de uma paixão. Sempre que leio lembro-me de Swann, em Proust, exclamando: “E pensar que sofri tanto por uma mulher que comigo não condizia, que sequer era meu tipo!”. Lembro também de Jack Burden, no romance de Robert Penn, Todos os Homens do Rei, que despede-se, em devaneio, da ex-esposa: “Adeus, Lois, e perdôo-te por tudo que te fiz!” (Chico Buarque usou essa frase numa de suas lindas canções). Mas nada se compara mesmo a obra de Iris Murdoch, que num dos seus primeiros romances diz: “Deixar de gostar de alguém é uma das grandes experiências humanas; a gente parece ver o mundo com novos olhos”.

Apagar de uma memória


Baseado em dois livros de John Bailey (A Memoir e Elegy for Iris), o filme Iris - dirigido por Richard Eyre e interpretado por Kate Winslet (na fase jovem) e Judi Dench (nos derradeiros dias) - acompanha a agonia de Iris Murdoch a partir da descoberta acidental do mal de Alzheimer, pouco antes de ela concluir o último romance em 1995. Paralelamente, revela o início de sua carreira e do relacionamento com o fiel companheiro, interpretado por Hugh Boneville (quando jovem) e Jim Broadbent (na idade avançada, interpretação que mereceu o Oscar de ator coadjuvante). Mais do que uma cinebiografia reverente, esta é a história de um relacionamento e de como uma pessoa que vivia da memória e das palavras se viu incapacitada de lembrar e escrever.
O defeito de Iris que mais salta aos olhos talvez seja o de carregar nas tintas melodramáticas. Assistindo-o, sabe-se que, na fase mais adiantada da doença, ela perdia-se com facilidade nas ruas. Mas não fica claro como suas idéias transformaram o comportamento de uma geração. Mesmo assim, veja.

terça-feira, 27 de maio de 2008


Quando todos compreenderem claramente como eu, escreverão. A vida será impregnada de literatura. Metade da humanidade consagrar-se-á a leitura do que a outra metade terá escrito. E o recolhimento ocupará o melhor tempo que será por isso arrancada à verdadeira e horrível vida. E se uma parte da humanidade se rebelar e se recusar a ler as meditações dos outros, tanto melhor. Cada um se lerá a si mesmo.




Italo Svevo

Um ligeiro peso na consciência


A glória de Italo Svevo passou como um cometa entre as constelações literárias do século XX. Aaron Ettore Schmitz, este seu nome civil, descendente de judeus austríacos de língua alemã, tinha nascido em 1861 em Trieste, então o grande porto da Áustria - cidade da civilização italiana no meio das gentes eslavas. Na juventude, já sob pseudônimo, escreveu dois romances Uma Vida e Senilidade (título esquisito em escritor tão jovem), passaram despercebidos. Voltou a ser Schmitz e comerciante abastado. Anos depois, sobreveio a primeira guerra e uma doença visual, seu comércio foi a falência, mas não o desejo de ser escritor. Nestas circunstâncias renasce Italo Svevo, agora com o propósito de descrever a consciência do moderno homem ocidental – ou o que o homem pós-psicanálise entendia por consciência. Fez isso e obteve um clássico, o primeiro da literatura moderna. Na verdade A consciência de Zeno, sua obra-prima, é a descrição de um fracasso, ou de um ideal fracassado. Ao mesmo tempo é um romance sutilmente humorístico. Zeno Cosini é neurótico. É abúlico. Quer, mas não pode deixar de fumar. Procura o psicanalista, que lhe manda escrever a história de sua vida. Ei-la. É a vida de um homem comum, ligeiramente ridículo e trapalhão (às vezes lembra Charlie Chaplim), mas bastante esperto para viver comodamente, sem se cansar demais em trabalhar, e para manter-se precariamente equilibrado em situações duvidosas quando assim lhe convém. Casou com Augusta, engana-a com Carla e depois engana Carla com Augusta. Tem os melhores propósitos, “mas são bons demais para serem imperativos”. Cada cigarro que fuma será o último. Também sairá com Carla, hoje, pela última vez, mas se a encontrar, porventura, mais uma vez, será esta a última. Não se ilude quanto a dubiedade destas situações, e essa vida dupla o torna neurótico. Por isso procurou o psicanalista. Mas não quer ficar curado: pois a neurose, meio cínica e meio pervertida, é como o navio em que continua saindo para o mar da aventura – e voltando, no fim do dia, para o porto da mediocridade segura. Essa existência, um tanto tragicômica, nem sempre será afetada pela realidade, um tanto evanescente, da consciência de Zeno. Antes da psicanálise, o mundo ocidental havia aprendido com a espiritualidade judaico-cristã que a consciência era uma voz interior - que todavia vinha de fora, ou seja, a transcendência na imanência - com a qual travávamos um diálogo. Depois da psicanálise a consciência perdeu essa referência transcendental, e tornou-se um simples eco de nossos desvairados monólogos íntimos – que não implicam em nenhum julgamento de valor – apenas monólogos. Deste ponto de vista o romance de Svevo é obra sui generis, pois o que ele pretendia era uma propaganda da psicanálise, mas sem querer acabou construindo uma crítica mordaz. Uma consciência sem um respaldo metafísico é uma impostura, ante a qual qualquer um torna-se um impostor. Ninguém sabe isso melhor que o psicanalista do livro. Zeno fala na primeira pessoa como personagem de um romance picaresco; aliás, A consciência de Zeno é mesmo o romance picaresco da psicanálise, onde parte da confissão é ou pode ser verdade. Mentira e verdade aparecem inextricavelmente misturadas. Nunca saberemos quando Zeno é ele próprio, quando acredita ser ele próprio, quanto nos quer fazer acreditar que assim é ele próprio. São as três dimensões que caracterizam a realidade de uma consciência avessa a qualquer paradigma espiritual. Zeno é tão real porque não passa de uma ficção inventada por ele mesmo. Como Juvenal, Svevo diria: “la realità può talvolta farsi satira con la sola precisione (a realidade pode às vezes tornar-se sátira mediante a simples precisão)”. Homens fracassados na realidade como Zeno ou fracassados na imaginação Svevo não castigam ninguém. Mas seu sorriso é amargo. Ele se perguntava se não estaríamos, todos nós, infinitamente solitários em companhia com a nossa consciência? Eu digo que não, pois a verdadeira consciência sempre enseja diálogo, invariavelmente humilde, e um não monólogo, invariavelmente egoísta. Mas para cada um, de fato, chega a hora em se sente surdo e mudo neste vale de lágrimas, e só uma voz que está em nós, mas que não é a nossa, pode novamente nos fazer falar, e entender. Italo Svevo só admitiu isso inconscientemente e assim nos proporcionou no fim de sua vida dolorosa esse espetáculo raro: o sorriso de um homem velho.

segunda-feira, 26 de maio de 2008

Da série: qualquer semelhança não será mera coincidência!

Desenho de Leopold Bloom feito por Joyce em Trieste (1911)

Leopold Bloom, é um das personagens mais deslumbrantes já concebidas pela imaginação humana. Talvez ele seja uma das poucas coisas agradáveis que encontramos à primeira leitura de "Ulysses". Indiferente à religião e à política, desprovido de ambição, "Poldy" (como é carinhosamente conhecido) é prudente, comedido, levemente pessimista, mas não infeliz. É imune a ira, ao ódio, à inveja, à malícia e, acima de tudo, é gentil e generoso com todos. Trata-se da pessoa mais sensata e humana da literatura joyceana, só comparável ao admirável Tio Toby, de Tristan Shandy, romance de autoria de Laurence Sterne que Machado de Assis adorava. Mas o que quase ninguém sabe é que Leopold Bloom realmente existiu e foi um dos melhores amigos de James Joyce, que o conheceu na cidade italiana de Trieste onde, para sobreviver, dava aulas de inglês. Muito se tem especulado porque Joyce escolheu como herói de sua Odisséia um judeu. Existe até uma teoria sobre a origem fenícia, semítica, da epopéia. Todavia isso não explica por que a personagem Leopold Bloom era um judeu oriundo da Europa central. Ora, a explicação é muito simples: Bloom era judeu porque Italo Svevo era judeu, ou seja, Leopold Bloom e Ítalo Svevo são a mesma pessoa. Isto foi dito pelo próprio Joyce, que no ano de 1911 conheceu Svevo, quando este se inscreveu no seu cursinho de inglês. Foi uma amizade instantânea e eterna. Cada um dos dois aprendeu muito com o outro. Svevo, que até então era um escritor ignorado, encontrou em Joyce seu leitor mais entusiástico, que acabaria até bancando a publicação dos seus primeiros romances. E Joyce além de descobrir nele uma nova forma de escrever, acabou encontrando seu personagem mais notório. E assim repetiu-se a eterna mímesis que existe entre a vida e a arte.

domingo, 25 de maio de 2008

Trinta anos esta noite!...


Eu sempre fui avesso a aniversários. Não se pode negar o peso que existe em trocar de idade. Não há como evitar o fatídico balanço anual, que não examina apenas o último ano de vida, mas a vida inteira, mais ou menos parecido com aquele que se faz no reveillon. E a criatura mais impiedosa nesta avaliação é invariavelmente o aniversariante, que insiste em focar nos tropeços e esquece dos saltos bem-sucedidos. Há se ter foco nos tropeços sim, mas de forma a traçar estratégias para que eles não mais aconteçam. Só que a grande vantagem de se fazer aniversário é que não importa o quanto você seja exigente consigo, seus amigos estão por perto para amenizar o peso da bigorna Acme que lhe cai sobre a cabeça. O carinho das mensagens, os abraços, a felicidade de estarem com você, longe ou perto, dizem uma coisa muito importante: você tem bons amigos e a gente é tão bom quanto os amigos que tem.


Muito obrigado a todo mundo que deixou scrap, comentários, ligou, bateu à porta. Senti o abraço de todos vocês. E foi bom.

terça-feira, 20 de maio de 2008


"Quem acende uma luz é o primeiro a beneficiar da claridade."


G. K. Chesterton

Um Escritor Peso-Pluma


Gilbert Keith Chesterton (1874-1936), é um gigante da literatura, e digo isso nos dois sentidos, pois ele media 2,10 de altura e pesava 140 kg. Portanto não é o tipo de escritor que pode ser resumido numa frase, tampouco num parágrafo. Apesar de se terem escrito excelentes biografias sobre ele, nunca foi realmente “capturado” nas páginas de um livro. Mas, isso não impede de dizer extamente quem ele era. Para começar, Chesterton foi o melhor escritor do século XX. Teve algo a dizer sobre todos os assuntos, e disse-o melhor do que ninguém. Não era, porém, um mero fraseólogo: sabia expressar-se muitíssimo bem, mas – o que é mais importante – também tinha coisas muitíssimo boas para expressar. Pois a razão pela qual foi o maior escritor do século XX é que foi o maior pensador do século XX. Nascido em Londres, Chesterton estudou no Saint Paul’s College, mas não freqüentou a Faculdade, e sim a Escola de Artes. Em 1900, pediram lhe que escrevesse uns artigos de crítica de Arte para uma revista, e partindo daí acabou por tornar-se um dos mais prolíficos escritores de todos os tempos. Chesterton escreveu uma centena de livros, contribuições para outros duzentos, centenas de poemas, incluindo o épico Ballad of the White Horse, cinco peças de teatro, cinco romances e uns duzentos contos, incluindo a popular série sobre o Padre Brown, o padre detetive. Sua literatura era exatamente como ele: pra mais de metro!... Chesterton movia se com igual desembaraço em crítica literária ou social, História, Política, Economia, Filosofia e Teologia. O seu estilo é inconfundível, sempre marcado pela humildade, pela consistência, pelo paradoxo, pela sagacidade e pelo encanto. Os seus escritos continuam tão atuais e permanentes como no momento em que surgiram, apesar de muitos deles terem sido publicados pela primeira vez em jornais há cem anos atrás. O homem que compôs frases tão perfeitas e profundas como "Não é que o ideal cristão tenha sido testado e considerado insuficiente; foi considerado difícil demais e deixado de lado sem testar" ("The Christian ideal has not been tried and found wanting; it has been found difficult and left untried"), passeava usando uma capa, um chapéu amarrotado, minúsculos óculos na ponta do nariz e uma bengala na mão, soprando alegremente o seu bigode. E quase sempre não tinha a menor idéia de onde ou quando era o seu próximo compromisso. Boa parte dos seus escritos foram elaborados em estações de trem, pois ele costumava perder o trem que devia tomar. Esse distraído, enorme e travesso homenzarrão, que ria das suas próprias piadas e divertia as crianças em festinhas de aniversário lançando balas ao ar e apanhando as com a boca, foi o homem que escreveu a obra intitulada O Homem Eterno, que levaria um jovem ateu chamado C.S. Lewis a tornar se cristão. Foi ele quem escreveu um romance intitulado O Napoleão de Nothing Hill, que inspiraria Michael Collins a liderar o movimento pela independência da Irlanda. E foi também ele o autor de um artigo no Illustrated London News que inspiraria Gandhi a liderar o movimento que pôs fim ao domínio colonial inglês na Índia. Esse foi o homem que, solicitado a escrever um livro sobre São Tomás de Aquino, pediu à secretária que retirasse uma pilha de livros de São Tomás da biblioteca, abriu o primeiro, folheou o do começo ao fim, fechou o e começou a ditar a obra sobre o santo teólogo. E, ao contrário do que esperaríamos, não lhe saiu um livro qualquer. Ninguém menos do que o renomado especialista em tomismo e Filosofia Medieval, Étienne Gilson, considerou uma obra-prima, uma síntese quase definitiva.
Apesar disso Chesterton é o escritor mais injustamente desprezado do nosso tempo. Talvez esta seja mais uma prova de que a educação é importante demais para ser deixada nas mãos dos burocratas do ensino, e de que a publicação de livros é importante demais para ser deixada nas mãos dos editores. Mas isso não desculpa que se tenha deixado de ler e estudar Chesterton, de reeditar amplamente os seus escritos e de mencioná-los com o destaque que merecem nas antologias de textos universitários. Os pensadores, os críticos e os comentaristas modernos acharam muito mais conveniente ignorar Chesterton do que fazê lo comparecer numa discussão, porque argumentar com Chesterton equivale a ser derrotado. Chesterton debateu de forma eloqüente com todas as variadas ideologias surgidas no século XX: o materialismo, o determinismo científico, o positivismo, a psicanálise, o relativismo moral, o agnosticismo invertebrado e tutti-quanti cruzasse o seu caminho. Além disso, combateu tanto o socialismo quanto o capitalismo, mostrando porque ambos têm falhado na promoção da liberdade e da justiça na sociedade moderna. Mas a que coisas ele era favorável? O que defendia? Defendia o homem e o bom senso. Defendia a fé, a esperança, a caridade e a beleza. E defendia a Cristandade, e particularmente sua fé Católica. Temas que não andam muito em voga nas salas de aula, na mídia ou no debate público. E é provavelmente por isso que ele é desprezado. O mundo moderno prefere escritores que sejam esnobes, que tenham idéias exóticas e bizarras, que glorifiquem a decadência, que discorram sobre o próprio umbigo, que ridicularizem o senso comum, que neguem a dignidade e que digam que liberdade não implica em nenhuma responsabilidade. Seja como for, existe uma desculpa mais óbvia para isso: Chesterton é demasiado brilhante, e por isso é difícil de encarar. Logo se um escritor se expressa tão claramente, corre o risco de escorrer pelo ralo. Mesmo que meça mais de dois metros e pese cento e quarenta quilos.

100 anos de "Ortodoxia"


Chesterton discutiu com muitos dos mais célebres intelectuais do seu tempo: George Bernard Shaw, H.G. Wells, Bertrand Russell, Clarence Darrow. Segundo os relatos da época, costumava sair vencedor dessas disputas. O mundo, porém, imortalizou os seus oponentes e esqueceu Chesterton, de modo que hoje só nos dão a ouvir um dos lados da argumentação e nos obrigam a aturar as heranças do socialismo, do relativismo, do materialismo e do ceticismo. A ironia disso é que todos os seus oponentes tratavam Chesterton com a máxima consideração e estima; Shaw, por exemplo, chegou a dizer: "O mundo não agradeceu o suficiente a Chesterton". Os seus escritos foram aplaudidos e elogiados por Ernest Hemingway, Graham Greene, Evelyn Waugh, Jorge Luis Borges, Gabriel García Márquez, Karel Capek, Marshall McLuhan, Paul Claudel, Dorothy L. Sayers, Agatha Christie, Sigrid Undset, Ronald Knox, Kingsley Amis, W.H. Auden, Anthony Burgess, E.F. Schumacher, Neil Gaiman e Orson Welles, para só citar alguns poucos. E T.S. Eliot afirmou que Chesterton "merece o direito perpétuo à nossa lealdade". Todo isso está registrado no livro "Ortodoxia", que a editora evangélica Mundo Cristão, gentilmente, ecumenicamente, caridosamente, relança num bela edição comemorativa de 100 anos para todos os leitores critãos, ou simplesmente livres-pensadores. Imperdível.


Aproveitem que está com preço promocional: R$ 16,92!... Eu já tenho o meu.

Santa dedução!!!!


Mas nem só de séria apologética, filosofia e teologia configura-se a literatura do polemista G. K. Chesterton. Ele também abordou isso de um ponto de vista divertido e, depois de Edgar Poe e Conan Doyle, decidiu criar o tipo de novela policial em que o genial investigador, longe de ser o esmiuçador sagaz, frio e raciocinante, era o Padre Brown, (na verdade o Padre Vicente O.F.M., seu amado confessor), um detetive humano, demasiado humano, que tinha os olhos lavados pela Fé e pelo colírio das lágrimas, de modo que conseguia, mesmo cochilando, descobrir os meandros da malícia criminosa mais pela compreensão sublime do que pela sagacidade mundana. Indispensável para todo e qualquer fã de romance policial, seja ele de que credo ou falta de credo for!... Aqui no Brasil você encontra quase todos os livros da série: A Inocência do Padre Brown, A Sabedoria do Padre Brown, O Escândalo do Padre Brown, A Incredulidade do Padre Brown e o Segredo do Padre Brown.
Num sebo ou livraria próximo de você.

domingo, 11 de maio de 2008

Palavras cantadas...

Maria, Maria

É um dom,uma certa magia

Uma força que nos alerta

Uma mulher que merece

Viver e amar

Como outra qualquer

Do planeta

Maria, Maria

É o som, é a cor, é o suor

É a dose mais forte e lenta

De uma gente que rí

Quando deve chorar

E não vive, apenas aguenta

Mas é preciso ter força

É preciso ter raça

É preciso ter gana sempre

Quem traz no corpo a marca

Maria, Maria

Mistura a dor e a alegria

Mas é preciso ter manha

É preciso ter graça

É preciso ter sonho sempre

Quem traz na pele essa marca

Possui a estranha mania

De ter fé na vida....


Feliz Dia das Mães

sexta-feira, 9 de maio de 2008

Lady Frieza


A primeira vez que li Virginia Woolf tive uma péssima impressão. Sua prosa se parecia exatamente com ela: fria, diáfana, taciturna, anêmica, de um bom gosto excessivo, que transcendia o terreno literário para entrar no chique. Definitivamente, Virginia Woolf era uma literatura, um desafio, ou simplesmente uma pessoa para quem eu não estava preparado. E mesmo, hoje, quando quase tudo já foi devidamente relido e reconsiderado, ainda não sei como defini-la. O que me consola é que talvez ninguém saiba. E consta que a escritora detestava e evitava qualquer definição. No entanto, 67 anos após o seu suicídio, ela se encontra atada a definições de todos os tipos: modernista, teórico feminista, lesbian chic!... Mas não é para menos, estamos na nova idade das trevas onde um rótulo é tudo, e a teoria literária é mais lida do que a própria literatura. Porém como sou antipático a estereótipos acadêmicos, me limitarei à falar como leitor sincero e dizer que a literatura de Virginia Woolf é tudo o que se podia esperar de melhor em experimentação, inovação, abstração, embromação, delírio, faniquito e virtuosismo psicológico produzido até então pela língua inglesa no século XX, sem deixar, contudo, de dar continuidade a grande tradição literária deste idioma que vemos implícita através dos momentos cruciais, privilegiados e epifânicos dos seus cinco melhores romances: “Mrs. Dalloway”, “O Farol”, “As Ondas”, “Os Anos” e “Entre os Atos”. Em alguns momentos ela exagera, é verdade, erra a mão, parece drogada, e merecidamente pode ser encarada como a mais radical experimentalista da ficção do século passado - ao lado de James Joyce, mas sem o intelectualismo deste. Virginia buscava tão obsessivamente uma nova forma lírica para o romance, que acabou desenvolvendo com precisão inédita os recursos do fluxo da consciência e dos monólogos interiores, que constituíram a narrativa de seus livros.
Por isso, aos leitores agitadinhos, vou logo avisando que os romances de Virginia têm pouca ação - ''Sra. Dalloway'', por exemplo, resume-se a um passeio por Londres - espécie de motor para o desencadear de sensações que fazem da sua narrativa uma literatura ''radial'', como ela definia, em oposição a uma narrativa ''linear''. Esse mergulho radial e vertiginoso no inconsciente era, a bem dizer, lenitivo e veneno para sua fragilidade psicológica. Sabemos que uma adolescência traumática causou uma série de colapsos nervosos e internações que pontuariam toda a sua vida, e fariam dela uma esteta triste e desesperada. Todavia, Virginia alcançou o domínio de uma arte com características tão pessoais que a sua escola é composta somente por ela mesma – ainda que sobejem originais imitadoras mundo a fora: Katherine Mansfield, Marguerite Duras e Clarice Lispector, só para citar as melhores. Assim como nestas escritoras, o que caracteriza o texto de Virginia Woolf são os relatos de isolamento, loucura e amor perdido, que são verbalizados num complexo de imagens; não só um amontoado de imagens fraturadas, mas sim uma reunião harmônica de percepções e sensações. Virginia Woolf era duplamente dotada, quer como escritora quer como leitora, e talvez esse seja o segredo do seu grande gênio criativo - um gênio que sabia não apenas inventar uma forma de escrever, mas também uma nova forma de ler.