terça-feira, 10 de junho de 2008

Amour sans fin...

Héloise era órfã, e não se sabe ao certo quem seriam seus pais; era sobrinha de Fulbert, padre e Deão da Catedral de Paris (ainda não era a Notre Dame, construída um século depois). O tio mandou-a para um convento, célebre pela escola e biblioteca. Quando soube que Héloise sabia conversar em latim com a mesma facilidade que em francês, e que estava estudando hebraico, Fulbert orgulhou-se da sobrinha e levou-a para morar em sua casa, nos fundos da catedral. Para servir-lhe de tutor em filosofia e outros estudos avançados, Fulbert procurou o ídolo e modelo de todos os estudiosos de Paris.
Seu nome era Pierre Abélard, nascera na Bretanha por volta de 1079, primogênito de um rico agricultor. Brilhante na escola, Abélard, ainda jovem, ficou entusiasmado quando ouviu falar de homens chamados escolásticos, uma classe de intelectuais que compartilhavam de conhecimentos, terminologia técnica e experiências interiores comuns, que propiciavam um diálogo filosófico fértil e especializado entre a razão e as Sagradas Escrituras. Sua busca por estes homens logo o levou para Paris, e para à escola catedral, onde Guilherme de Champeaux foi seu mestre. Anos depois, Abélard organizou sua própria escola, primeiro em Melun, depois em Mont-Geneniève, nos arredores de Paris. Ali, sua eloqüência, seu brilho e sua alegria intelectual atraíram mais alunos do ele poderia abrigar. Sua fama espalhara-se pela França, foi quando Fulbert o convidou para ser tutor de Héloise.
Era 1117, Abélard estava com 38 anos e Héloise com 17. Abélard admite que o primeiro sentimento que teve por ela foi de atração física, mas isso logo se transformou, graças à delicadeza da jovem, naquilo que ele descreveu como “uma ternura que superava em suavidade qualquer bálsamo”. Ela parece ter-se entregue a ele com confiança quase infantil; logo engravidou.
Abélard enviou-a para casa de sua irmã, na Bretanha, e acalmou Fulbert oferecendo-se para casar com Héloise, desde que o padre mantivesse a união em segredo, pois ele próprio tinha pretensões ao sacerdócio. De sua parte, Héloise recusou-se a casar, pois não queria que Abélard vivesse sua vocação de forma indigna. Se acreditarmos na autobiografia de Abélard, Historia Calamitatum, Héloise disse-lhe que “era muito mais doce ser chamada de ‘amante’ do que ‘esposa’, aliás, isso a honraria muito mais”. Mas, finalmente, Héloise consentiu e, junto com Abélard e Fulbert, concordou em manter o segredo. Logo depois, Fulbert revelou a união ilegal, no intuito de atenuar um escândalo mais grave. Héloise o desmentiu; Fulbert espancou a sobrinha, e ela abortou; Abélard mandou-a para um convento e pediu-lhe que aceitasse as vestes, mas não os votos de freira. Fulbert contratou rufiões para castrar Abélard. A emasculação não o desgraçou imediatamente, embora o desqualificasse para o sacerdócio; toda Paris, inclusive o clero, solidarizou-se com ele; os estudantes acorreram para confortá-lo – mas era tarde, Abélard estava arruinado. Pediu a Héloise que tomasse o hábito e os votos, e ele próprio professou votos solenes como monge. Com permissão para ensinar novamente, ele e seus alunos construíram perto de Troyes uma ermida para servir de escola e oratório. Aos poucos, recuperando a saúde e a coragem, Abélard dedicou-se a escrever alguns dos mais importantes livros da filosofia e poesia medieval. Na sua imponente obra Dialectica, ele formulou as regras de raciocínio, preparando-as para o renascimento da mente da Europa Ocidental. Em Diálogo entre um filósofo, um judeu e um cristão, permitiu que cada um desses três homens expusesse a fragilidade das doutrinas dos outros dois. Em Sic et Non (Sim e Não), Abélard formulou 157 perguntas às quais apresentou um argumento para resposta afirmativa e outro para resposta negativa. Em Theologia Christiana, rejeitou como sendo irracional a alegação de que só um cristão poderia se salvar; argumentou que Deus dá amor a todas as pessoas. Os hereges deveriam ser reprimidos pela razão, e não pela força.
Devido a essa variedade de idéias arrojadas, em 1140, Abélard foi indiciado pela Inquisição que, no Concílio de Sens, estabeleceu o inquisidor São Bernard de Clairvaux como promotor e relator do processo. Bernard era amigo de infância de Abélard e, após estudar sua filosofia, considerou-o muito ousado e heterodoxo, mas não perigoso, e por fim pediu que ele fosse punido apenas com o silêncio obsequioso. Abélard desesperou-se e, embora nessa época debilitado pela idade e aflições, partiu para Roma para expor seu caso ao Papa. Chegou ao mosteiro de Cluny, na Borgonha, e foi bem recebido pelo piedoso abade, Pedro, o Venerável. Ali, porém, ficou sabendo que Inocêncio III já havia acatado o veredicto do Concilio de Sens e lhe impusera o silêncio e confinamento monástico. Exausto física e espiritualmente, Abélard retirou-se para a obscuridade das celas e dos rituais de Cluny. Edificou os companheiros monges com a sua piedade, o seu silêncio e as orações. Escreveu a Héloise – a quem jamais voltou a ver - e reafirmou seu amor por ela e pela Igreja. Compôs, talvez para os olhos de Héloise, alguns dos mais belos poemas da literatura universal. Pouco depois adoeceu e o bondoso abade o enviou para o hospital do mosteiro de São Marcelo, perto de Châlons. Ali, aos 21 de abril de 1142, Abélard morreu com 63 anos. Foi enterrado na capela do mosteiro, mas Héloise, então abadessa do Paracleto, lembrou a Pedro, o Venerável, que Abelard pédira para ser enterrado em sua abadia. O bom abade Pedro levou ele próprio o corpo até Héloise, tentou consolá-la dizendo que ele era o maior gênio da época, e deixou-lhe uma carta cheia de ternura e cristã:

Assim, cara e venerável irmã em Cristo, aquele a quem, depois do vínculo da carne, vos uniste por um liame ainda melhor e mais forte, ou seja, o do amor divino,... o Senhor agora o recebe em vosso lugar, ou como a vossa própria pessoa, e o aquece em Seu seio; e o conserva para devolvê-lo a vós, pela Sua graça, no dia de sua vinda.

Héloise uniu-se ao amado em 1164, tendo vivido o mesmo número de anos e tido quase a mesma fama intelectual. Foi enterrada ao lado de Abélard nos jardins da abadia do Paracleto. Esse oratório foi destruído na Revolução Francesa, os túmulos violados e talvez confundidos. Em 1817, o que se julgava serem os restos mortais de Abélard e Héloise foi transferido para o cemitério Père Lachaise, em Paris. Ali, ainda hoje, em domingos de verão, podemos ver homens e mulheres apaixonados - às vezes juntos, às vezes solitários - adornando o túmulo com flores.

4 comentários:

helentry disse...

Linda história para ser postada no Dia dos Namorados! Sabe, passei a ter mais orgulho do meu nome depois de saber desta história!...Vi o filme Em Nome de Deus e adorei! Mas há detalhes bem diferentes que li sobre esta história e mais uns que li aqui!
Parabéns pelo cuidado com as informações e fotos!
Meu irmão pediu à filha, quando esta esteve na França, que visitasse o túmulo dos dois.
Como pode ver a família é mui romântica!

O Bibliotecário disse...

Post-scriptum: Este artigo foi escrito especialmente para vc... Cara mia!

DIARIOS IONAH disse...

eu vi o filme e detestei.....
uma historia de amor excessivamente triste.os homens daquela epoca eram uns monstros sinistros.castrar alçguem porque esse alguem amava e era correspondido demonstra o grau de inveja e crueldade que havia no coraçao deles, uma verdadeira era das trevas...
por isso adoro ter nascido nesta epoca!

Marcello Lopes disse...

Meu caro amigo de letras.

A história nos mostra o quanto temos que evoluir para alcançarmos a força de um amor assim, e alguns de nós que presos em uma incômoda realidade dogmática não aceitam outras e iluminadas idéias.

Copiei para o meu blog ( com o devido crédito) para que outras pessoas possam conhecer essa história.

Grande abraço.

Marcello Lopes