segunda-feira, 31 de dezembro de 2007

Palavras cantadas...


Nada do que foi será

De novo do jeito que já foi um dia,

Tudo passa, tudo sempre passará.

quinta-feira, 20 de dezembro de 2007

Oremus...


Sonhei que entrava numa catedral - que jamais vi - e encontrava o escritor Jorge Luis Borges, sozinho, sentado num dos bancos proximo ao altar. Estava de olhos fechados e parecia ouvir um belíssimo canto litúrgico, que eu conheço bem (Stabat Mater), mas que vinha não sei de onde. Não tive coragem de me aproximar, fiquei olhando-o de longe até que o canto acabou e ele saiu por uma porta lateral. Quando acordei, fui imidiatamente procurar o cd que tem esse canto. Não encontrei. Procuro mais tarde. Mesmo assim, o sonho não me saiu da mémoria, e ainda há pouco, lembrei que em se trantando de religião, ou mesmo fé, Borges era bastante reticente. Cresceu como cristão-católico, depois declarou-se ateu, depois agnóstico, depois não disse mais nada. Fascinava-se com a trovejante poesia do Alcorão, citava-a e recitava. Estudava cabala e teologia. Mesmo assim ninguém sabia se acretidava ou não.

No entanto ele rezava. Sei que sua poesia era uma forma de prece. As vezes até escrevia evangelhos apócrifos:

Felizes os que amam;
felizes os que podem prescindir do amor (…)
Felizes os felizes!

Desde que acordei, tenho pensado nestas preces poéticas, e tenho murmurado baixinho, como quem reza, a mais bela dentre elas:

Dai-me, Senhor, coragem e alegria
Para escalar o cume deste dia.

Era só isso que eu tinha a dizer nesta manhã de quinta-feira. Obrigado por sua atenção. Agora vou ali tentar reunir toda a coragem e alegria que puder, porque este dia tem um cume alto, escarpado e cheio de perigos, e ninguém pode escalá-lo por mim.

Anunciação


Virgem! filha minha

De onde vens assim

Tão suja de terra

Cheirando a jasmim

A saia com mancha

De flor carmesim

E os brincos da orelha

Fazendo tlintlin?

Minha mãe querida

Venho do jardim

Onde a olhar o céu

Fui, adormeci.

Quando despertei

Cheirava a jasmim

Que um anjo esfolhava

Por cima de mim...


Vinicius de Moraes

terça-feira, 11 de dezembro de 2007

Solilóquios...


"Disseram-me que as estrelas aparecem com trinta anos de atraso, por isso olhar pro céu é como olhar o passado... Mas nem todas. Em algumas, a luz partiu há milhares de anos. Outras, como o Sol, há 8 minutos. Se ele explodisse – cogitou Sylvia Plath - a gente teria tempo apenas para fumar um cigarro... ou comer um Chicabon!..."

"Um livro é um amigo que faz o que nenhum outro amigo faz: cala-se quando queremos pensar."


Flaubert

A Perfeição que destrói...


Hoje, 12 de dezembro, comemora-se o 186 º aniversário do escritor que era o melhor dos melhores. Gustave Flaubert tornou-se sinônimo do esplendor estético da literatura universal porque sintetizou em si todos os movimentos e estilos, e realizou a perfeição estilística. Inaugurou o realismo com Madame Bovary, restaurou o romantismo com Salambô, e em todos os seus escritos, mesmo nos menores, fez questão de ser clássico. Nunca, desde então, nenhum homem influenciou mais a literatura, nem escreveu melhor.
Flaubert era filho e neto de médico e foi, como Dostoievski, criado num ambiente de médicos. Gostava de diagnosticar e receitar, e fascinava-se até a morbidez com o anormal. Seus personagens são pacientes, cobaias – e como bom médico ele termina mandando todos para o outro mundo. Nasceu em Rouen em 1821, e excetuadas três excussões a Bretanha e ao Oriente Médio, permaneceu nesta cidade a vida toda, dedicando a sua mãe um edipiano que o fazia fugir ao casamento. Quando jovem era forte, atlético, vivaz e bastante promíscuo. Mas a sífilis veio juntamente com a epilepsia que derramou-lhe na alma negra melancolia. A consciência destas doenças tornou-o tímido e recluso, embora terrivelmente orgulhoso. Sua extrema sensibilidade fez-se irritadiça; seus amigos só lidavam com ele com grande diplomacia, mas a maior parte o deixou entregue ao azedume e a solidão. Por duas vezes apaixonou-se sem que nada disso resultasse. Enclausurou-se num monasticismo literário, fez-se um solteirão da arte.
Entretanto, muito antes disso, já havia decido ser escritor. E começou cedo, com quinze anos já tinha três romances: A Bela Andaluza, O Baile de Máscaras e O Marido Prudente. Por sorte não os publicou!... “Ah, que prudência tive eu não imprimindo aquilo! Como me envergonharia agora!”... Ele se propusera anos de prática; dia a dia, durante meses, fechava-se no quarto para obstinadamente buscar o estilo mais belo, único, ou seja, a perfeição. E assim trabalhou no silêncio e na solidão; às vezes agarrado a uma página pela semana toda, nunca satisfeito com o que realizava, atordoando-se por casa de um sinônimo adequado, procurando, investigando sempre. Mal comparando, ele era como um desses carpinteiros que derrubam uma floresta para fazer uma gaveta. Com efeito, nessa idade, já havia descoberto a receita da prosa perfeita: “Primeiro, seguir de perto as metáforas; depois não entrar em detalhes alheios ao assunto; trabalhar em linha reta.Condensar o pensamento, remendos de púrpura de nada valem. Criar um tecido fino com a seda e forte como a malha. Nunca repetir na mesma página um adjetivo, nem na mesma frase uma preposição. E, por fim, a frase deve permitir a leitura em voz alta. A frase mal escrita não suporta este teste, pois só está correta quando se harmoniza com todas as necessidades da respiração.
A perfeição artística, como se pode ver, não lhe veio naturalmente, nem pela inspiração. Foi comprada, e custou caro. A observação de Flaubert tinha sutileza de Sthendal, a descrição tinha abrangência de Balzac; só que Balzac primeiro narra e depois descreve, Flaubert descreve por meio da narração. Cada personagem sua é a um tempo comum e individual, revelando a humanidade inteira através duma única alma. Tomados em conjunto formam um tratado completo da psicologia humana. Nada pode ser mais objetivo, o autor fala do “bem” do “mal” a neutralidade dum coveiro. Escreveu alguns livros e acabou fixando um parâmetro, o maior.
Ironicamente, por tudo isso, o final da sua vida foi amargo. O esforço sobre-humano das composições agravou-lhe a epilepsia, os amigos escritores evitavam-no porque temiam seu julgamento, os parentes morreram. A velhice veio encontrá-lo só, triste, esgotado. “Gostas demais da literatura; isso irá te matar” – foi como a escritora George Sand o advertiu. Ela o sabia, mas não se importava; por que não ser destruído por uma sublime devoção? Flaubert pagou voluntariamente com o preço do seu sangue a grandeza conseguida no céu literário do ocidente. Um sobrinho e também escritor, Guy de Maupassant, disse que “ele deu, desde novo, toda a sua vida às letras e nunca pediu devolução. Gastou sua existência nessa imoderada paixão, passando noites de insônia, caindo de fadiga depois de horas de amor violento, e recomeçando de novo, cada manhã a dar tudo de si à sua amante. Finalmente, um dia, caiu fulminado sobre a escrivaninha, assassinado por ela, pela literatura: assassinado como o são todas as almas grandes – consumido pela paixão que nelas arde.”
Que estas palavras sejam o ponto final.

Da série: correspondência secreta!



... para alcançar a forma, estude os clássicos dia e noite. evite palavras novas, obsoletas ou sesquipedais (palavras que medem um pé e meio). Se o produto sobreviver a tudo isso, esconda-no por dez anos. se ainda assim o agradar, publique-no, mas lembre-se de que ele pode envergonhá-lo na maturidade. Se escrever dramas, obedeça as três unidades: ação, tempo, lugar. Experiemente a vida (mesmo no que há de mais sórdido) e depois estude filosofia, pois sem experiência, sem estudo e sem compreensão um estilo perfeito é um vaso vazio, fragil demais para o nosso uso.


Trecho de uma carta (1862) de Gustave Flaubert
para seu sobrinho Guy de Maupassant.

Ensaio sobre a Infidelidade


A leitura de Madame Bovary me deixou várias e fortes impressões, três delas, porém, jamais esqueci. Primeiro, o texto é de fato perfeito; segundo, sua perfeição é tediosa; e terceiro, a despeito das impressões anteriores, nunca mais pude encarar o amor com a mesma ingenuidade. Por que? Bem, leia!... Se, no amor, você já passou pela experiência de trair ou ser traído, leia.
Madame Bovary tornou Flaubert, num momento, famoso e infame. Ele foi levado aos tribunais sob a acusação de “cínica imoralidade”. Contudo, satisfazer o sensualismo do leitor foi coisa que jamais lhe passou pela cabeça, não fora para isso que dedicara seis anos de trabalho àquele livro. Nele apenas descreveu a infidelidade como teria descrito a varíola, desapaixonadamente e sem ênfase. O pasmo não passava de uma reação acidental a uma análise crua e aguda nunca dantes realizada acerca da traição.
O triunfo de Madame Bovary fez mal a Flaubert, porque levou o público a ver-se no espelho; quando esse público percebeu que Flaubert interessava-se mais pela realidade do que pelo entretenimento erótico, abandonou-o – deixando-o entregue aos que ainda eram capazes de suportar a visão de si mesmo.
Em cada detalhe Flaubert vai-nos recriando em seu romance, toda a nossa humanidade está lá. O primeiro tipo, como já esperávamos, é um médico de aldeia, Charles Bovary, imensamente mais real que o virtuoso monstro de Balzac em “O Médico do Interior”; e mais real porque mais medíocre; nada se parece tanto com a vida como a mediocridade. Charles Bovary estabelece-se numa aldeia em que o único rival era o boticário Homais, sujeito manhoso que “curava” ilegalmente e matava menos que Bovary. O médico se queixa; limita-se a exercer sua profissão com diligência só igual a sua incompetência. Vive calmamente e tem a felicidade de não ter história, até que se casa com uma mulher bonita, Ema Bovary.
Ela é o mais complexo e bem acabado retrato da inconstância, da insatisfação e da fraqueza humana. Devoradora de livros românticos e melosos (o equivalente das telenovelas de hoje), Ema atribui e espera do pobre marido as qualidades heróicas e sentimentais que vê nos romances preferidos. Mas, aí, até um Don Juan, é muitas vezes um aborrecimento para sua mulher: depois dum ano ou dois ela conhece todas as idéias do esposo, ouvi-o falar demais, abusou-se dele, boceja antes suas aspirações sem ambição. Pior para Charles, pois do ponto de vista duma mulher a ambição é a maior virtude de um homem. Ele, porém, está contente sendo o que é; cai na rotina em tudo, seja trabalho ou sexo. É quando Flaubert nos diz:

“Suas expansões tornam-se regulares; possui a esposa em dias fixos. Ela era apenas mais um hábito na sua lista de hábitos.”

Ema Bovary sente-se inquieta, arrependida, como poderá suportar aquela vida. Decide então ter um filho, mas ao contrário do que esperava, isso só lhe faz aumentar o tédio. Logo a criança é desprezada. Ema torna-se pálida, com palpitações. Charles receita-lhe valeriana e banhos canforados. Ela quer algo mais. É quando surge Rodolfo, um forasteiro, que diz a Ema o que há um ano Charles esqueceu-se de dizer – que ela é formosa e encantadora. Rodolfo é um cafajeste charmoso, que a seduz com silogismos, aliás supérfluos. Raramente a arte foi tão feliz ao retratar a vulgaridade de uma relação de interesses baratos. Durante meses, Ema e Rodolfo encontram-se secretamente – e tanto amor e paixão ela despejou-lhe em cima, que ele depressa sentiu-se encharcado. Quanto mais ela redobrava de ternura, menos Rodolfo escondia sua indiferença. Ema então propõe uma fuga, ele manda-lhe um delicado bilhetinho e some. Desolada, Madame Bovary procura consolo na religião.
Reza até que um depois surge Leon, um leão de Paris, que lhe conta as glórias da cidade grande de onde acaba de chegar escapando de agiotas. Leon faz tudo na cama, dizendo sempre que “em Paris é assim”. Ema afunda num torvelinho de mentiras e de dívidas para manter esse luxo. Derrama sobre Leon a sua beleza e seus favores; mas novamente constata que os homens destruidores de lares não são tão bons amantes. Leon cansa-se de Ema e Ema de Leon...

“E de novo ela encontra no adultério todas as chatices do casamento”.

Esta é a idéia central do livro, e mais profunda de Flaubert. Por fim, Madame Bovary suplica-lhe que a auxilie no pagamento das dívidas que contraiu para custear a traição; Leon dá no pé e Ema suicida-se. Mas nos últimos momentos abraça o marido e exclama:

“Tu és bom, tu!”...


Eis a tragédia da bondade sem malícia e do amor que morre quando é retribuído demais. Charles Bovary nada sabe das aventuras da esposa; ama-a depois de morta ainda mais do que antes. Reúne suas coisinhas para beijá-las e entesourá-las; entre elas encontra as cartas de Rodolfo e alguns retratos. O choque e a decepção o arrebentam. Seu criado o encontra morto num banco de jardim.
Este desfecho é o único defeito de um livro que estava destinado a banir da literatura e da vida o irreal. Mesmo assim, nunca a infidelidade foi vista de tão perto.

Por falar nisso...


Esta cena do filme "Pecados Íntimos", em que Brad Adamson pergunta a Sarah Pierce: “Do you feel bad about this?”, ela responde: “No, I don’t” e ele replica: “I do. I feel really bad.”, fez-me, imediatamente, recordar Rodolfo e Emma Bovary. O desenvolvimento do filme veio confirmar a impressão de haver um paralelo com a Madame Bovary, de Gustave Flaubert:

“Não sabe que há almas que vivem em contínuo tormento? Necessitam alternadamente de sonho e de acção, das paixões mais puras e dos prazeres mais furiosos, e por isso se lançam em toda a espécie de fantasias, de loucuras.Emma olhou-o como quem contempla um viajante que passou por países extraordinários, e disse:

- A nós, pobres mulheres, nem mesmo essa distracção é concedida!

- Triste distracção, pois nela não se encontra a felicidade.

- Mas é coisa que se encontre alguma vez? – perguntou ela.

- Sim, encontra-se um dia –, respondeu ele.(…)

- Encontra-se um dia – repetiu Rodolfo -, um dia, subitamente, e quando já se começava a desesperar. Então entreabrem-se horizontes, e é como uma voz que exclama: «Ei-lo!» Sentimos necessidade de fazer a essa pessoa confidências da nossa vida, de lhe dar tudo, de lhe sacrificar tudo! Não são necessárias explicações: adivinha-se que está ali. Encontrámo-la já em sonhos. (E olhava-a.) enfim, está ali, o tesouro que tanto procurámos, ali, diante de nós; brilha, resplandece. Mas há ainda um resto de dúvida, porque não ousamos acreditar…”

Não há maneira de fugir, Flaubert confessou o que nós, homens ou mulheres, pensamos em segredo: Emma Bovary c’est moi.

Palavras cantadas...


"De todas as maneiras
Que há de amar
Nós já nos amamos
Com todas as palavras feitas pra sangrar
Já nos cortamos
Agora já passa da hora
Tá lindo lá fora
Larga a minha mão
Solta as unhas do meu coração
Que ele está apressado..."
Chico Buarque

quinta-feira, 29 de novembro de 2007

O sarcasmo usa monóculo


Costumo definir Eça de Queirós como uma pedra atirada contra o nada, mas que em seu trajeto acabou atingindo tudo e todos. Primeiro atingiu a língua, a literatura e o romance, depois ricocheteou nas pessoas, em suas crenças, hábitos e opiniões. Nada escapou ao seu golpe ferino, feito de papel e palavras, tão duro quanto a sinceridade e mais pontiagudo que a irreverência.
José Maria Eça de Queirós realizou a estética esperada. Espatifou a forma clássica da frase e deu agilidade neurótica à linguagem - o que deixou todo mundo estarrecido e encantado. Diante de prosa tão sem osso, carne só, que atropelava a pesada e vetusta gramática da língua portuguesa, o temido lexicógrafo Cândido de Figueiredo, que tinha consultório de extrair crases mal colocadas e extirpar vírgulas suspeitas, entrou logo em desespero:
“Com esse Eça de Queirós não há sintaxe que agüente. Sai tudo de suas respectivas presilhas. Vou embora para o Brasil!...”
Eça sabia causar. Passava o monóculo medonho e impertinente a sua volta, na capital, nas províncias, nas serras minhotas e, com um riso fino, deixava que sua observação ácida recobrisse as coisas e os seres. Deu-lhes significado de declínio e de ridículo. Desfigurou-os, escolheu-os, e com eles, pintou um mundo aberrante que seria trágico se não fosse cômico. Sabe-se que o monóculo de Eça, que levava jeito de agudo estilete, abria clareira de terror em qualquer multidão. Ele era um psicólogo implacável a quem nada nem ninguém escapava. Todavia houve e ainda há críticos que insistem em deixá-lo aquém de Machado de Assis. Discordo. Ambos tinham o mesmo poder e capacidade de percepção, sendo que Machado era microscópico e Eça macroscópico. Noutros termos, Eça foi antes um crítico social do um psicólogo. Criticou e descreveu de preferência as exterioridades, os ridículos, os sestros e manias aparentes. Escritor caricaturesco, primou pelo exagero e a zombaria, e para tanto subverteu a linguagem, buscando a expressão fiel de suas idéias e sentimentos. Literariamente é descendente de Balzac, Flaubert e Dickens, dos quais herdou, respectivamente, a força criadora, a excelência estética e o sarcasmo corrosivo. Com estes mestres, Eça aprendeu a fazer de sua literatura uma tempestade, cujos raios eram os adjetivos. Suas páginas estão cheias de tal riqueza, palavras, frases que agem umas sobres as outras, para um resultado de expressão inédito. Por vezes, um vocábulo, a uma volta do pensamento, lá está, sozinho, esteio do trecho, estourando de significações. De outra vez, fora desse virtuosismo estranho, a responsabilidade expressiva distribui-se harmoniosamente: as orações se enfeixam, as imagens se amparam, cada palavra, nas dobras delicadas da frase, sustenta e compõe a sugestão do conjunto.
Por isso toda a sua obra é prima de fio a pavio, pelo menos para mim que até hoje não sei dizer qual o melhor livro, conto ou crônica por ele escrito. Tudo é bom, engraçado, agudo, desconcertante e fascinante. Com efeito, sugiro que os interessados leiam tudo o que puder e conseguir. Eu pensava já ter feito isso, mas meu amigo Emerson (ilustre freqüentador desta biblioteca) tirou-me do engano quando, para minha felicidade, descobriu num sebo algumas farsas e cartas raríssimas.
Tanto melhor, será algo mais a degustar.

Da série: qualquer semelhança não será mera coincidência!



A influência literária é uma vizinhança honesta, uma aproximação de outra inteligência, em que o autor descobre suas próprias virtudes, seus propósitos artísticos mais secretos, já realizados. Mas há um limite que a separa das regiões culpadas do plágio.
Eça de Queirós desde o seu tempo de moço, jornalista em Évora, apossando-se do pensamento de Vitor Hugo sem o citar, permitiu que a suspeita e acusação de plagiário o seguissem pelo resto da vida. Plágio é uma incriminação forte, vergonhosa e nem mesmo Shakespeare escapou dela. No entanto, é difícil não acatar esta imputação e tentar negar que esses senhores de enormes riquezas tiraram, de outros, um pequeno punhado.

Assim quando se lê em Salambô (de Flaubert): “Sés grillages d’airain qui le defendait em bas des scorpions”... encontra-se na Relíquia: “uma entrada mais nobre, em arco, com uma grade baixa, que a defendia dos escopiões”... Aí está um recurso de erudição, inacusável, um detalhe de arquitetura antiga, propriedade artística universal.

Mas lê-se ainda na Relíquia: “estas colinas que eu vira dias antes em torno à Cidade Santa, dessecadas por um vento de abstração, e brancas da cor de ossadas”... Encontra-se também na Vie de Jesus (de Ernest Renan): “La triste Judée, dessechée comme par um vent brulant, d’abstraccion et de morte”... Já aqui não é um dado de cultura, mas uma imagem descritiva de que Eça se apossou.

E para aqueles que resistam tanto quanto os que mais o amam, em acreditar nessa sombra na face do mestre, reserva-se uma cópia literal duma das mais belas imagens, de mais sugestão poética, escrita por Flaubert, está na Relíquia: “As lágrimas rolavam por sua face, tristes como a chuva por um muro em ruínas”... quando em Salambô já Flaubert havia posto: "et des pleurs coulaint sur as face comme pluie d’hiver sur une muraille en ruine”.

Não fiquem pasmos, se Shakespeare podia, Eça também. E sabem do que mais, se gritar pega ladrão não fica um meu irmão - todos os gênios fizeram isso!... E cá pra nós, pouco valem esses singelos furtos que nada corroem a glória daquele que tocou uma nova harmonia à velha língua portuguesa, ao romanceador de todo um país, criador único do maior friso de tipos populares de toda a literatura latina (segundo Harold Bloom). Eça de Queirós elevou-se a tal altura, que em confronto com as suas próprias riquezas, por ele acumuladas, estas jóias desonestas de sua arca merecem o mesmo olhar de benevolência risonha com que se olham as culpas iguais de outros grandes.

sábado, 24 de novembro de 2007

Solilóquios...


Quando saio tarde de casa e volto mais tarde ainda (leia-se, de madrugada), só lembro de Clarice: é bom sair pelo prazer de voltar!...

terça-feira, 20 de novembro de 2007


Um blog fútil, porém limpinho.

Da série: encontros inusitados!!!...


Em agosto de 1899, no final de uma ponte que se liga à esquina da rua de Ponthieu, em Paris, André Gide foi abordado por um mendigo que lhe pediu alguns francos para poder jantar. Era uma noite quente de verão, e a ocorrência teria sido absolutamente trivial se não fosse o fato do mendigo ser "alguém"!... Era um homem sujo e, apesar dos andrajos, extremamente elegante, e mendigava com uma ironia que era bastante incomum entre os indigentes, mas inteiramente característica de Oscar Wilde.
Gide custou a acreditar quando o viu e reconheceu. Ficou estarrecido, mas pelo que escreveu em seus diário não se sentiu comovido: "Eu não senti pena ou prazer em revê-lo, apesar de sua extrema gentileza. Ele era incapaz de seriedade, e todos os seus pesamentos, tiradas, sensações, todo o costumeiro brilho de sua conversa me chocaram como um artigo de luxo ostensivamente exposto num período de fome e luto. Sua soberba, em meio a tamanha decadência, era um espetáculo lamentável e incômodo. Dei-lhe o dinheiro e me afastei."
Oscar Wilde agradeceu a esmola com uma frase acutilante: “Não covém desdenhar o que já foi destruído. Mesmo assim, muito obrigado”
André Gide não ousou olhar para trás.

O Imoralista


André Gide era parisiense, filho único de uma rica família protestante, de quem recebeu uma educação severa, obedecendo a padrões rígidos de moral e disciplina. Essas circunstâncias o marcariam profundamente e se refletiriam em sua obra, quer sob a forma de submissão ou de revolta. Ascetismo e hedonismo, espiritualidade e sensualidade são os pólos através dos quais a escrita de Gide oscilou.
Quando a primeira guerra mundial terminou, os principais escritores franceses eram Paul Claudel, Paul Valery, Marcel Proust e André Gide. Os primeiros três destacavam-se cada um em seu gênero literário. Não se pode dizer que Gide fosse excelente em nenhum, mas seu espírito permeou todo o clima literário nos anos que se seguiram a guerra. Nos dias atuais, praticamente, nenhum dos quatro é lido.
A atual obscuridade de Gide, talvez, se explique porque era uma moralista, só que às avessas, ou seja, não como um modelo, mas como uma contestação. Sem querer, querendo, ele tornou-se porta-voz do novo mal-do-século, o símbolo da angústia pós-guerra. Gide acreditava que, na tentativa de se conformar com os padrões culturais, o indivíduo era obrigado a desenvolver uma personalidade falsa, que, o deformava e que precisava ser descartada. Isso deu muito pano para a manga da psicanálise e da contracultura que assolaria todas as expressões artísticas do século XX. E a posteridade acabaria acusando Gide de dilapidar séculos de tradição, desmerecendo a herança espiritual do ocidente.
Em parte isso é verdade, e em parte é um exagero. André Gide não tinha todo este poder, mas sabia fazer uma barulheira danada - sobretudo quando se sentia acuado. A sociedade configurava uma camisa (para não dizer saia) muito justa para seu espírito inquieto e confuso, por isso o que se pode afirmar de fato, é que sua obra literária era uma forma de querer ficar nu.
Gide tentava ser “normal”, mas nunca obtinha êxito, com efeito, clamava por rebeldia. Toda a sua trajetória pode ser acompanhada através do diário que ele começou a escrever aos 13 anos e só parou quando morreu. Nele vemos sua ascensão literária, as crises espirituais, as lutas consigo mesmo, e a imensa e terrível canseira que tudo isso lhe causava. Quem não tiver acesso aos diários (são de rara edição) pode ler qualquer um dos seus muitos romances e poemas, principalmente “Os frutos da terra”, “Os moedeiros falsos” ou “Os Subterrâneos do Vaticano”, que é a sua obra-prima e o único que eu li (gostei muito). Neles, André Gide, pós casamento fracassado e homossexualidade assumida, se consagraria como um dos maiores escritores do século passado. Em 1947 recebeu o prêmio Nobel de literatura e quatro anos depois, em 1951, faleceu em Paris, em decorrência de uma embolia pulmonar.
O mais interessante é que no final da vida, Gide passou a acreditar que a cultura precisava, para sobreviver, de uma tradição que lhe servisse de esteio. Depois disso o destino de André Gide foi ser considerado um cínico imoralista.
Leiam e façam seu próprio julgamento.

"Estamos ligados aos nossos atos como um fósforo à sua chama. Eles consomem-nos, é verdade, mas são eles que nos dão o nosso esplendor. E, se a nossa alma valeu alguma coisa, é porque ardeu com mais ardor do que outras".


André Gide

quarta-feira, 7 de novembro de 2007

Cecília em poesia e prosa...

No mistério do sem-fim
equilibra-se um planeta.
E, no planeta, um jardim,
e, no jardim, um canteiro;
no canteiro uma violeta,
e, sobre ela, o dia inteiro,

entre o planeta e o sem-fim,
a asa de uma borboleta

Em toda a vida, nunca me esforcei por ganhar nem me espantei por perder. A noção ou o sentimento da transitoriedade de tudo é o fundamento mesmo da minha personalidade.(...) Minha infância de menina sozinha deu-me duas coisas que parecem negativas, e foram sempre positivas para mim: silêncio e solidão. Essa foi sempre a área de minha vida. Área mágica, onde os caleidoscópios inventaram fabulosos mundos geométricos, onde os relógios revelaram o segredo do seu mecanismo, e as bonecas o jogo do seu olhar. Mais tarde foi nessa área que os livros se abriram, e deixaram sair suas realidades e seus sonhos, em combinação tão harmoniosa que até hoje não compreendo como se possa estabelecer uma separação entre esses dois tempos de vida, unidos como os fios de um pano.
Cecília Meireles

terça-feira, 6 de novembro de 2007

Mais do que uma poeta: a poesia!


Não sei se vocês já notaram, mas Cecília Meirelles tem exatamente a cara dos poemas que escreveu!... Ou seria o inverso? Reparem no retrato, quem já a leu haverá de concordar comigo. Entre a poeta e sua poesia há uma similitude de feições e atitudes como só pode haver nas coisas geradas, e não criadas. Não diria que são como mãe e filhos – isso não seria uma definição precisa, além do que é bastante clichê – mas diria que são como emanações, como prolongamentos de seu ser, de sua beleza, suavidade e pasmo.
Ela tornou-se poeta muito cedo, acho que desde a infância, quando ficou órfã dos pais e foi morar com a avó. Aos 17 anos estreou parnasianamente com “Espectros”, poetando em versificações rigorosas, quase calculadas. A partir de 1922 aproximou-se das correntes modernistas através de ligações com os poetas católicos da revista Festa, sem todavia aderir efetivamente ao espiritualismo literário deles. A bem da verdade, Cecília, na qualidade de caldeirão poético, era “anti-aderente”. Nelas fervilhavam paradoxalmente elementos clássicos, parnasianos, simbolistas e modernistas, sem quem nenhum deles embotasse ou marcasse seu estilo que era categoricamente independente.
Digo independente porque nenhum rótulo pode grudar-se em Cecília Meireles. Ela é um dos poucos casos na literatura de língua portuguesa de “poesia pura e absoluta”. E essa pureza e absoluto poéticos residem no desprezo do material e do concreto, na ascese e perfeição formal. A sua temática é das mais amplas e profundas da nossa literatura moderna. A fugacidade do tempo, a precariedade do ser, a falta de sentido da existência, a vida vista como sonho (se não pesadelo), a insuficiência e os desacertos humanos, sua irremediável solidão – eis os ingredientes do lirismo delicado onde há uma constante penumbra de ceticismo e desencanto. Sua música é plangente, melancólica, dolorida, jururu – mas sem notas desesperadas, só tons penetrantes, agudos. Dos amigos católicos ela contraiu o devanear lírico, a abstração visionária, a fixação poética de um mundo imaterial, intemporal. E ainda certo misticismo dolente e vaporosa espiritualidade que conferem uma ressonância religiosa à sua dicção às vezes profética ou bíblica, como se fosse uma Santa Teresa D’Ávila que de santa não tinha nada.
Mas sabia fazer milagres verbais em metáforas inigualáveis do tipo:
a aérea franja de sua voz, o cheiro molhado do chão, sua boca de nata....” Quer erotismo mais elegante do que esse? Como Clarice Lispector, eu considero o lirismo de Cecília Meireles o mais elevado da moderna poesia de língua portuguesa. Nenhum outro poeta iguala o seu desprendimento, a sua fluidez, o seu poder transfigurador, a sua simplicidade e seu preciosismo, porque Cecília, só ela, se acerca da nossa poesia primitiva e do nosso lirismo espontâneo... A poesia de Cecília Meireles é uma das mais puras, belas e válidas manifestações da literatura contemporânea. E é exatamente por ser pura e bela que tem a cara dela.

Da série: encontros inusitados


Cecília Meireles foi a Portugal, para proferir conferências na Universidade de Coimbra e Universidade de Lisboa, em 1934. Um grande desejo seu era conhecer o poeta Fernando Pessoa, de quem se tinha tornado admiradora. Através de um dos escritórios para o qual trabalhava o poeta, conseguiu comunicar-se com ele e marcar um encontro. Esse encontro ficou fixado para o meio-dia, mas ela esperou inutilmente até as duas da tarde, sem que Fernando Pessoa desse o ar de sua presença. Cansada de esperar, Cecília voltou ao hotel e teve a surpresa de encontrar um exemplar do livro Mensagem e um recado do misterioso poeta, justificando que não comparecera porque consultara os astros e, segundo seu horóscopo, “os dois não eram para se encontrar”. Realmente, não se encontraram, nem houve mais muita oportunidade para isso, já que no ano seguinte Fernando Pessoa faleceu.

quinta-feira, 1 de novembro de 2007

AINDA


...sem assunto. Mas amanhã, ou depois, voltarei em grande estilo!... Acho.

sábado, 27 de outubro de 2007

COMPLETAMENTE...


...sem saco. Perdoem. Há de passar.

sexta-feira, 19 de outubro de 2007

Mundo menos interessante


Eu só soube hoje, mas aconteceu no último sábado, dia 13!... Ele morava em Olinda, numa casa antiga, de cujo sobrado podia ver todos os blocos no carnaval. E em todos os carnavais eu o via e cumprimentava. Uma vez, pediram que recitasse uma de suas poesias, mas ele modestamente declinou: "Desculpem-me, mas não me ensinaram a falar, só me ensinaram a escrever. Tudo que tenho a dizer está nos meus livros. Leiam."
Alberto da Cunha Melo (1942-2007)

Casa vazia



Poema nenhum, nunca mais,

será um acontecimento:

escrevemos cada vez mais

para um mundo cada vez menos,


para esse público dos ermos

composto apenas de nós mesmos

uns jõoes batistas a pregar

para as dobras de suas túnicas,

seu deserto particular,

ou cães latindo, noite e dia,

dentro de uma casa vazia.


Alberto da Cunha Melo

quarta-feira, 17 de outubro de 2007

Descalça e sozinha entre a poesia e a santidade


Ela era uma das mulheres mais belas e cortejadas da cidade espanhola de Ávila, era intelectualmente sofisticada, tinha cara e nome de rica, chamava-se Teresa de Cepeda y Ahuamada Saavedra, e de fato era rica – sobretudo em espírito. Leitora voraz, alimentada tanto pelo espírito aventureiro das baladas medievais e dos romances de cavalaria – chegando mesmo a escrever um deles – como pelo espírito exaltado da Flor Sanctorum, das lendas de santos (também desejosa de torna-se poeta e santa), Teresa rejeitou todos os pretendentes e esquivou-se da medíocre segurança doméstica e matrimonial para escolher o caminho da aventura espiritual. Um dia, estarreceu-se com as palavras evangélicas que ouviu durante uma missa: “Vigilate itaque, quias nescitis diem neque horam” – “Velai, pois não sabeis nem o dia nem a hora”. É o fim da parábola das virgens sábias e das virgens loucas: das virgens sábias que prepararam as lâmpadas para as núpcias, e das virgens loucas que esqueceram o óleo, e as lâmpadas apagaram-se, e caiu a noite, e o noivo celeste não as reconheceu; é o evangelho que hoje se reza durante a missa em honra e memória da poeta e mística Santa Teresa d’Ávila.
Sacudida pela poesia e santidade daquele texto, Teresa decidiu não mais pertencer ao número das virgens loucas; então se retirou do século para entrar num mosteiro carmelita, onde, livre e descalça, começou a escrever. De imediato, a virgem sábia foi considerada como louca. Todavia sua loucura não estava no ato de converter-se em monja (coisa corriqueira na época), mas na atitude que essa conversão ensejou: Teresa d’Ávila tornou-se, através de sua poesia, na mulher mais desafiadora e crítica do seu tempo. Seu primeiro alvo foi a própria Igreja; ainda noviça enviou uma carta ao Papa Pio XI denunciando o grande inquisidor Quiroga como uma prostituta assassina e mitrada. Com efeito, foi presa e processada. Ela, porém, não se deixava dobrar, continuou escrevendo e afrontando o inquisidor, os bispos e até o rei Felipe II, de quem era prima distante. Reunindo em si a imaginação de Dom Quixote e a inteligência prática de Sancho Pança, e mais ainda: o humor superior e o gênio literário do criador dessas personagens imortais, ela iniciou a carreira poética de missionária solitária, visionária extática e peregrina fugitiva que cruzou a Espanha deixando atrás de si um rastro de 32 conventos - aos quais convergiram todas as virgens sábias de sua época.
Capturada em Toledo, continuou escrevendo as obras místicas que a consagrariam como a primeira prosadora da literatura de língua espanhola. Escreveu inúmeras cartas aos grandes do mundo e às autoridades religiosas de crenças diversas; cartas cheias de uma coragem indomável, cheias de conselhos sábios, de um humor surpreendente e, sobretudo, de perguntas desconcertantes: foi ela quem fez o filósofo alemão Gottfried Leibniz desistir de ser ateu ao propor-lhe uma pergunta suprema - Por que antes existe o ser e não o nada?... – Leibniz jamais encontrou uma resposta, todavia em face da pergunta concluiu que qualquer declaração atéia, de sua parte, seria uma imponderação evasiva e leviana.
Ainda em vida, Teresa teve um público considerável, foi lida por Cervantes e o dramaturgo Lope de Vega, pelo pintor El Greco e o igualmente poeta e santo Juan della Cruz – com quem manteve extensa correspondência. E como, naquele tempo, o espanhol era a língua universal, sua obra foi traduzida para quase todas as línguas ocidentais. Foi a ela que Goethe atribuiu a moderna redescoberta da consciência individual, isto é, da alma humana como um valor em si mesma. E isso devido ao texto de Alma y Dios, Sola com em Solo (Alma e Deus, sozinha com o Único) – extenso poema que, no século XIX, inspiraria profundamente o existencialismo filosófico de Kierkegaard. Avaliar todo o impacto da obra literária de Teresa d’Ávila nos levaria longe, mas aqui ainda cabe lembrar a estirpe de mulheres igualmente poderosas e santas que ela inspirou, uma linhagem de Teresas, discípulas suas, imitadoras de Cristo, que ao longo dos séculos vêm marcando drasticamente a história espiritual da humanidade: a imaculada e precoce Therese Martin ou Santa Teresa de Lissieux, a mártir e filósofa Santa Edith Stein ou Teresa de Israel; e a iluminada e sempre amada Agnes Gonxha Bojaxhiu ou Madre Teresa de Calcutá.
Em seus diários, Dostoievski escreveu que através de Teresa d’Ávila entendeu “que os santos podem não ser infalíveis, mas são resolutos. E não são reacionários, modernos, restauradores ou revolucionários, pois representam o eterno. E são loucos sim, mas absolutamente livres, e sabem que a espada do espírito é mais cortante que o aço.”
Além da fé, do amor e da esperança, podemos dizer que a liberdade, o intelecto, a paixão, a audácia e influência espiritual de Teresa d’Ávila são provas incontestes de sua santidade.

Fé que inspira santos que inspiram arte...


Uma sensação fulgaz de dor e prazer expresso num instante eterno, a intensa brevidade do êxtase retida para sempre num só gesto... O insólito encontro da alma diante do Único.
Bernini
O Êxtase de Santa Teresa d'Ávila,
no altar da igreja de Santa Maria della Vitória - Roma.

sexta-feira, 12 de outubro de 2007


“No fundo do Mato-Virgem nasceu Macunaíma, herói de nossa gente. Era preto retinto e filho do medo da noite. Houve um momento em que o silêncio foi tão grande escutando o murmurejo do Uraricoera, que a índia tapanhumas pariu uma criança feia. Essa criança é que chamaram de Macunaíma.”


Mário de Andrade

O homem que falava brasilês!


Mário de Andrade foi um dos escritores mais multiformes da literatura brasileira. Cultivou praticamente todos os gêneros. Foi poeta, romancista, contista, ensaísta, crítico literário e de arte, musicólogo e folclorista. Mas, sobretudo, foi o primeiro literato a escrever em brasileiro!... É possível distinguir três fases na sua obra: primeiro, foi o delírio modernista da “Paulicéia Desvairada”. É uma fase de renovação belicosa, de iconoclastia e maneirismo. E ao mesmo tempo a fundação teórica e a realização prática.
Numa segunda fase, é o descobrimento do País, do nacionalismo pitoresco, do folclore, ou seja, é a época de O Clã do Jabuti, do insólito Macunaíma e do magistral Ensaio sobre a Música Brasileira. Num terceiro período, a sua arte, abandonando o pitoresco exterior, interioriza-se e amadurece pela meditação. Torna-se mais serena mais profunda, e então surge o poeta do “Remate de Males”. Aqui o nacional, o folclórico, o coletivo fundem-se com o pessoal, o individual, numa solução estética muito original, típica do autor. Assim a poesia de Mário de Andrade é inconfundível, tem um sotaque brasileiro e ao mesmo tempo pessoal.
Na ficção distingue-se principalmente no conto, tendo sido uma dos maiores criadores do gênero entre nós. Em caso de dúvida sugiro que leiam Belazarte e os Contos Novos. Mas excepcional mesmo é Macunaíma, que ele classificou como rapsódia brasílica, “o experimento ficcional mais sério que o modernismo fez do caráter nacional.” No ensaio, brilha uma das inteligências mais penetrantes da nossa realidade. E Mário de Andrade é o autor de alguns melhores livros brasileiros do gênero. Basta lembra seus estudos sobre Aleijadinho e Álvares de Azevedo, e outros reunidos em Aspectos da Literatura Brasileira, seus escritos sobre música brasileira e os artigos de crítica enfeixados no Empalhador de Passarinhos.
Mário de Andrade foi, acima de tudo, o intelectual e artista cônscio de seu dever, de sua missão histórica. Essa consciência faz dele um participante, um agitador de idéias e de espíritos. Dizem que sua personalidade irradiava alegria de viver e estímulo ao trabalho criador. Isso transpira principalmente de sua numerosa e palpitante correspondência. Com esse alto sentimento de obrigações com o seu momento histórico-cultural, de home a serviço da renovação nacional, plasmou a sua obra. Isto explica talvez o cunho circunstancial, às vezes polêmico, de parte de sua criação literária. Exagerou alguma vez no sotaque brasileiro a sua língua artística. Mas, no todo, a sua obra é das mais altas expressões da literatura nacional, e, impregnada de calor humano e entusiasmo, te força suficiente para perdurar.

Quatro retratos, quatro polêmicas...

O fato de Mario de Andrade possuir em sua coleção de artes visuais 40 retratos seus, produzidos por artistas de variadas escolas, estilos e técnicas, mostra o interesse do escritor no retrato, não como gênero de pintura, mas como instrumento para conhecer as várias interpretações que os artistas, a maioria seus amigos, reservavam nos traços, pinceladas e composições de seu próprio rosto.Assinam seus retratos artistas como Portinari, Anita Malfati e Tarsila do Amaral - que o teriam pintado na mesma oportunidade -, Lasar Segall, Di Cavalcanti e Victor Morelli, além de outros desenhistas e caricaturistas.
Por meio de numerosas cartas aos amigos Manuel Bandeira e Henriqueta Lisboa, Mario de Andrade não deixou de registrar suas opiniões sobre cada um desses trabalhos, particularmente dos que mais o impressionaram, estabelecendo, às vezes, um diálogo poético com os próprios artistas, valorizando a expressividade e a interpretação de cada um deles. Não deixou, entretanto, de questionar os que não corresponderam as suas expectativas. Para ele, suas características pessoais - algumas bem particulares como a questão da sua sexualidade - estavam sendo interpretadas nas representações e esse fato bastava para que o resultado da obra fosse ou não aceito por ele.
De todas as representações, o trabalho de Segall (acima), foi o mais polêmico pois despertou em Mario de Andrade sentimentos contraditórios de aceitação e rejeição ao mesmo tempo. Para ele, Portinari (na pintura abaixo) havia pintado as suas melhores qualidades e Segall, as piores. Suas críticas foram duras, às vezes cruéis, revelando facetas pouco conhecidas de seu pensamento.

Sobre os trabalhos de Segall e Portinari, Mario de Andrade escreveria em 11 de julho de 1941 à sua amiga Henriquetta Lisboa: “(...) O Portinari quando se propôs fazer meu retrato já me queria muito bem e éramos já muito bons camaradas. E além disso ele tinha por mim um especial e muito agradecido carinho.(...) E foi nesse estado iluminado de amor que ele fez o meu retrato que...eu fiz ele fazer de mim: só bom“. “Como os retratos dele (Portinari) e do Segall me completam... quase chego a me envergonhar.(...) O retrato feito pelo Segall foi ele mesmo sozinho que fez. Não creio que o Segall, russo como é, seja capaz de ter amigos. Pelo menos no meu conceito de amizade, uma gratuidade de eleição, iluminada, sem sequer pedir correspondência. Éramos bons camaradas e apenas. Como bom russo complexo e bom judeu místico ele pegou o que havia de perverso em mim, de pervertido, de mau, de feiamente sensual. A parte do Diabo. Ao passo que o Portinari só conheceu a parte do Anjo. Às vezes chego a detestar (me detestar) o quadro que Segall fez.
Anita fez vários retratos do escritor paulista, (uns vinte, segundo Mario de Andrade em sua carta à Henriqueta), mas, em 1922, ela e Tarsila pintaram juntas os retratos do amigo escritor, presenteando-o pelo seu aniversário em 9 de outubro do mesmo ano, segundo informações de Marta Rosseti, autora do livro "Anita Malfati – no Tempo e no Espaço". O resultado desse trabalho exemplifica claramente os traços mais livres de Anita (que ela abandonaria em seguida), com as cores dominando a composição, o fundo plano e expressividade concentrada nas cores fortes das faces e da testa. Houve reclamações: O “ar messiânico” e a “magreza espigada”, comentados por Mario de Andrade como se ele tivesse “jejuado quarenta dias e quarenta noites” revelavam, segundo suas próprias palavras, o espírito dessa fase de delírio que vivenciou. Coloco isto aqui porque acredito haver uma costura interessante a ser feita entre as interpretações plásticas dos artistas, a interpretação pessoal do próprio retratado como modelo exigente (e nem sempre justo) que era, e a do espectador deste blog que deve também exercer o seu direito à interpretação. Então, por favor, olhem, comentem e constatem que Mário de Andrade não passava de uma diva.

sexta-feira, 5 de outubro de 2007

Idéias que inspiram pessoas que inspiram artes...



Gore Vidal por Andy Warhol



Um estranho no ninho do império!



Eugene Luther Gore Vidal estreou na literatura aos 19 anos de idade com o romance “Williwaw”, e desde então não parou de aporrinhar a consciência política dos americanos com uma interminável sucessão de livros desafiadores e polêmicos. Rico, branco, protestante, inteligente, petulante, gay, filho de uma família tradicional e influente (a dinastia Gore, da qual também descende o ex-quase-presidente Al Gore), mas esquerdista convicto, Gore Vidal é a viva negação intelectual do sonho americano, ou seja, é um chato... Para os americanos, claro!
A sua relação de amor e ódio com os Estados Unidos está bem expressa na série de romances “Crônicas Americanas” e na coleção de ensaios “United States”, que valeu-lhe em 1993 o National Book Award. Em 1995 publicou uma notável autobiografia, “Palimpsesto”, na qual fica mais visível a sua postura diante do american life way, com direito a revelações sobre a elite política de Washington e a nata artística de Hollywood. Em todos estes livros ele diz coisas incômodas, como se observasse os Estados Unidos simultaneamente com um telescópio e um microscópio. Quando se vêem as coisas com este pormenor, com esta ironia, com este humor, com este cinismo, se é forçosamente incômodo, e às vezes extravagante, e outras vezes abusado. Mas é justamente o que ele quer ser. Oscilando sempre entre o romance e a história, Vidal só não decidiu se quer ser um romancista ou historiador. Só o tempo dirá.
Entretanto, é fundamental sublinhar que a sua narrativa tem uma enorme qualidade literária, talvez duas. “Prodigioso” foi um adjetivo comum da crítica para definir as “Crônicas”. E “didático” foi outro. Por “Império (seu melhor romance)” passam figuras da História dos Estados Unidos como os Presidentes McKinley e Theodore Roosevelt, como John Adams e John Hay; como o magnata da imprensa William Randolph Hearst, como o escritor britânico Henry James. Passa toda a promiscuidade entre dinheiro e política. Passam todos os bem intencionados, todos os corruptos, todos os fazedores de políticos e de presidentes. Passa tudo aquilo com que se constroem e mantêm os impérios.
Mas nem tudo é política em sua obra (embora sempre seja polêmica): é dele o escandaloso “Ao vivo do Calvário”, onde reconta o Novo Testamento de um ponto de vista bastante irreverente, para não dizer blasfemo.
Hoje Gore Vidal é um senhor de quase 80 anos que continua a insistir na faceta de provocador, o homem que pensa que os Estados Unidos não têm razão para se interrogarem por que foram atacados no 11 de Setembro, sabendo-se que depois da II Guerra Mundial já fizeram em todo o mundo mais de 200 ações militares e que uma lei da natureza é a de que não há ação sem reação... O homem que defende que os militares norte-americanos devem fazer as malas e sair de todos os lugares do mundo em que se encontram. Enfim, que os Estados Unidos regressem às suas raízes republicanas, que deixem de interferir nos assuntos das outras nações e também nas vidas privadas dos seus próprios cidadãos. Que enterrem este império cujo nascimento ele nos mostra e cuja morte ele profetiza nas “Crônicas Americanas”, que fazem dele um dos principais escritores americanos da atualidade. Essas crônicas - quase me esqueci de dizer - são compostas pelos livros “Washington D.C.”, “Burr”, “Lincoln”, “1876”, “Império (sua obra-prima)”, “Hollywood” e a “A Idade de Ouro”.
Toda sua obra foi (e ainda tem sido) escrita com o grande humor e a grande ironia de alguém que tem a certeza de está narrando a História Verdadeira.
Só o tempo dirá!

Da série: Não vou falar, não vou falar... Vou falar!


Na década de 80 rolou um boato (coisa barra-pesada, fuxicão cabeludo, maldade de gente desocupada), segundo o qual o Gore Vidal teria um "loverboy" brasileiro, um rapaz culto, fino e inteligente, com quem manteve um belíssimo caso de amor que entrou para os anais (sem trocadilhos) dos grandes romances homoeróticos!... Até aí tudo bem, não seria o primeiro nem o último, só que o detalhe pitoresco da rumor era o "dito cujo", isto é, "quem" era o tal do loverboy!...
Quem?...
Ah, não vou falar. Não, de jeito nenhum, não adianta implorar, suplicar, rastejar. Quéisso? Meu blog não é salão de beleza, nem mesinha de manicuri, e tampouco sucursal literária da revista Contigo!... Que baixaria, que coisa feia, sei que isso acontece em outros blogs, sei que é uma conseqüência incontornável da pós-modernidade, da in-cultura instantânea, da desinformação em tempo real, da comunicação em bytes. Mas eu, decididamente, enfáticamente, me recuso a dizer que o namorado do Gore Vidal era o Diogo Mainardi!...

Iiiiiiiii!... Ah, mas e daí? Já faz muito tempo, foi na Itália, eles moravam juntos...


Tá bom, parei!... Fica só entre nós.

terça-feira, 25 de setembro de 2007

Um luxo só...


O Som e a Fúria, Luz em Agosto e Palmeiras Selvagens... Três obra-primas luxuosamente editadas pela chiquérrima CosacNaify para os que queram experimentar Faulkner em grande estilo!...
E eu aqui, praticamente um flagelado da enchente.
Ô, mundo cão.

Vai encarar?


William Faulkner (essa coisa fofa na foto ao lado) aspirava criar um universo inalcançado, do qual apenas ele seria o único senhor e artífice; com efeito, o imaginário condado de “Yoknapatawpha” não era somente um retrato ficcional do condado de Lafayette, no Mississipi, sua terra natal, mas um lugar real onde assentou suas lendas profundamente humanas e universais. Faulkner é inegavelmente o maior romancista norte-americano desde Henry James - sua antítese. Nenhum outro escritor do século XX alinha-se, de modo tão definitivo, a grande seqüência de mestres da literatura americana: Hawthorne, Melville, Mark Twain e Henry James. Com eles, Faulkner forma a nata dessa literatura, e depois dele o resto é resto. Ainda que estivesse sujeito a influências decisivas, tais como Joseph Conrad e James Joyce, Falkner possuía um talento impar e considerável para a inovação narrativa. Seu gênio é verificado pela capacidade fecunda de criar homens e mulheres convincentes, embora, muitas vezes, terríveis. Seus personagens (com exceção dos idiotas) são todos obsessivamente obstinados e individualistas. Seu gênio narrativo pode ser constatado também através da capacidade de captar, em palavras, experiências humanas tenebrosas e estarrecedoras. Faulkner consegue ser nefasto e dramático ao mesmo tempo, mantendo o suspense para que o clímax, no final, possa ser perturbador. Coisa de matar Dostoievski de inveja!
Apesar disso, Faulkner também era capaz de cometer grandes equívocos e exagerar no experimentalismo (o mal do século) e no fluxo da consciência (às vezes parece uma Virgínia Woolf emaconhada), mas entre 19 romances que escreveu se incluem cinco obras-primas: O Som e a Fúria, Enquanto Agonizo, Santuário, Luz de Agosto, e Absalão, Absalão!... Coisas que por se só já o redimem de qualquer pecado. É verdade que ele jamais voltaria a escrever à altura dessas cinco obras, entretanto, nos últimos livros soube manter certa força ficcional e um humor feroz. Uma Fábula é o seu pior livro; Enquanto Agonizo, o melhor (em minha opinião). E se você ainda não teve o prazer de conhecer Faulkner, sugiro que comece por este, ou por qualquer dos outros cincos melhores. Não vai se arrepender. Mas advirto: é uma bigornada acme!... Os personagens de Faulkner são chocantes. Joe Christmas (paródia sinistra de Jesus Cristo), por exemplo, é uma das figuras mais impactantes que já li até hoje, não podemos simpatizar nem antipatizar com ele, é um desafio a nossa capacidade de interpretação, é a representação daquilo que Freud chamava de instinto de morte!... Eu diria até que é a morte literarriamente personificada. O sonho de Gabriel Garcia Márquez (fã nº 01 de Faulkner) era, e talvez ainda seja, fazer algo parecido com esse Joe. Quem viver verá!
Faulkner ganhou o Nobel, em 1949, quando já tinha perdido o talento, mas houve época em que, desconhecido e sem vender quase nada, se trancou num celeiro com duas caixas de bourbon, que bebeu todas em duas semanas, saindo com um livro ordinário, um potboiler e seguro de que enriqueceria com os direitos autorais. O livro é Santuário, a obra-prima que encalhou, apesar de ter cenas sensacionais como o personagem Popeye, que conforme Faulkner parece uma boneca de cera barbeada. Popeye estupra a moça bem-nascida, Templeton Drake, com um sabugo de milho. Ela adora e, quando é salva do cativeiro de Popeye, tem saudades dele.

Faulkner é assim... vai encarar?

Uma piadinha literária (politicamente incorreta)....


Um professor cego esquece-se da correspondência em sua biblioteca particular, entra na cozinha (por engano) às apalpadelas, pega (por engano) num ralador, apalpa-o e exclama:
-"C*r*lhO, quem é que escreveu esta parvoíce, James Joyce?"


P.S.: Juro que quando me contaram tinha muito mais graça!

domingo, 16 de setembro de 2007

Rainha do crime impossível


Pense num escritor de romances policiais e de quem você lembra? A maioria das pessoas de Agatha Christie. Pense em livro policial – e novamente muitos lembram de O assassino de Roger Ackroyd (1926). Este romance é um dos mais perfeitos exercícios de investigação já escritos, um ardil que, mesmo depois de oitenta anos, de seu lançamento, não deve ser revelado porque sempre haverá novos leitores para se surpreender com seu desenlace. A Ratoeira não é melhor peça dela, mas foi encenada por mais de quarenta anos. E por que? Talvez seja a lenda que existe em torno de Agatha Christie, cuja vida é no mínimo pitoresca: aos quatro anos de idade, já uma, menina curiosa, cultivava o hábito de perguntar a babá o que era toda palavra que via em qualquer lugar que fosse, como por exemplo, na fachada de um armazém. Memorizava as palavras, tornando-se capaz de ler frases sem conhecer as letras. Das frases, ela passou para os livros, tornando-se uma leitora voraz desde muito cedo. Mas nem só de lenda vive o mito, Agatha também tinha um conhecimento preciso do que faz o leitor vibrar – o aconchego misturado com alguns indícios de algo podre por baixo de tudo. Ela adorava o aconchego preferindo Miss Marple e Hercule Poirot, nunca permitindo que a violência entrasse em seus textos. Apesar disso, a sua fascinação por crimes domésticos escoa para milhões de leitores. Eles sabem que quando ele envenena um personagem, está apenas brincando, que o sangue de suas vítimas não vai deixar nenhuma mancha em sua imaginação. Ela não gostava de ver sujeira nem mesmo em sua autobiografia (que levou 15 anos para ser escrita). Contudo há um capítulo muito obscuro em sua vida do qual ela nunca quis falar: quando morreu sua mãe e seu marido pediu o divórcio para casar com a secretária.
Estes dois fatos lhe causaram uma grande crise nervosa que resultou em amnésia. Sabe-se que em uma noite de dezembro do ano 1926, tendo ela 36 anos, desapareceu misteriosamente, e seu carro foi encontrado abandonado numa auto-estrada.
Sobre este acontecimento surgiram muitas especulações, até se pensou que era uma ação para dar publicidade à escritora. O certo é que onze dias mais tarde ela apareceu num hotel litorâneo registrada com o nome da amante de seu marido. Depois de encontrada foi submetida a um tratamento psiquiátrico.
Separada de seu marido e com sua filha internada em um colégio, Agatha viajou sozinha à Bagdá a bordo do Orient Express, trem que serviu de inspiração para uma de suas novelas mais famosas: "Assassinato no Expresso do Oriente".
Agatha deixou sucessores, mas estes não possuem sua ingenuidade. Foi, e ainda continua sendo um dos maiores fenômenos da literatura mundial (com aproximadamente 2 bilhões de exemplares vendidos), e para sempre será a rainha do crime impossível.

Altamente qualificados...


Para investigações empresariais, flagrantes de adultério, paradeiro de adolescentes, ficha de antecedentes criminais, dossiês de vida pregressa entre outros tipos de investigação. É só chamar...

quinta-feira, 13 de setembro de 2007

Erótico neurótico


David Herbert Lawrence nasceu em 1885 em Eastwood, perto de Nottingham. Filho de um homem rude e bêbado e uma ex-professora muito refinada, que o criaram num ambiente de terríveis conflitos conjugais.
A trajetória escolar de David foi exemplar. Na escola secundária de Nottingham foi premiado em matemática, francês e alemão. Logo passou a dominar também o italiano e o espanhol. E não tardou para tornar-se professor em Croydon. Mas uma fúria para escrever o perseguia desde muito jovem.
Aos dezessete anos pegou uma pneumonia que arruinou sua saúde. Pelo resto da vida Lawrece teria que lutar contra a tuberculose (que no fim acabou vencendo). Foi durante a convalescença que começou a escrever e a aperfeiçoar seus poderes literários.
O gênio de D. H. Lawrence é notavelmente versátil, incluindo romances, contos, poemas, ensaios críticos, narrativas de viagem, comentários apocalípticos e quase qualquer outro gênero. Para alguém que morreu aos 44 anos, Lawrence teve uma produção prodigiosa: cerca de 75 volumes, muitos dos quais publicados postumamente - e que hoje é pouco lido. Política e culturalmente incorreto, Lawrence nunca foi muito bem quisto pelos “arcontes” da crítica. O conteúdo declaradamente sexual de suas narrativas foi o principal motivo de sua elevação e queda. A vida e a obra dele são quase inseparáveis, mesmo quando usadas para mútua dissimulação: em todos os texto vemos como, em vão, tentava esconder a própria bissexualidade. A contenda pessoal de Lawrence com questões de identidade sexual e da guerra entre os sexos tem base espiritual e implicações psicanalíticas. A percepção das diferenças espirituais fica patente no confuso confronto com Freud, a quem o escritor não conseguia compreender, ou talvez não desejasse compreender. Seja como for, Freud foi-lhe inteiramente dispensável. A exemplo de Blake, Lawrence foi o profeta de uma visão religiosa controversa, mas abrangente, englobando espírito e natureza. Ele ambicionava criar um moderno culto ao falo, mas sem que isso implicasse em opressão à mulher. Esse culto não deveria, segundo ele, voltar-se ao pênis masculino, mas a um grande Falo Universal, símbolo da fertilidade criadora.
Suas duas obras-primas, plenas de erotismo clássico, são o Arco-Íris e Mulheres Apaixonadas, dois textos que ficarão para a eternidade. Contudo, hoje em dia é só pelo O Amante de Lady Chatterley que seu nome é lembrado. A leitura de qualquer destas obras nos permite perceber que Lawrence pretendia deixar claro que para ele sexo e amor são coisas distintas que merecem tratamentos distintos. É claro que o sexo está contido no amor, mas este é qualitativamente diferente do ato físico através do qual se obtém o prazer físico. Mas não é só isso. A omissão dos detalhes indica que a partir do momento que o amor uniu as personagens, a descrição do ato físico perdeu progressivamente sua importância. Isto reforça a tese de que o autor faz uma clara distinção entre o amor (que contém o sexo) e o ato físico desprovido de emoção. Em virtude disto acreditamos que o livro foi injustamente acusado de ser pornográfico. Só seria pornográfico se o autor insistisse na descrição dos coitos até o final, o que não ocorre. A obra de Lawrence sempre nos coloca diante de uma questão delicada: o desejo sexual é fruto de uma opção consciente ou conseqüências de nossas tendências naturais? Leiam e respondam.
Visionário e demoníaco, perturbado e perturbador, D. H. Lawrence foi o gênio mais autêntico que a literatura do século XX pôde ensejar.
É verdade que ele está fora de moda por ter sido alvo da antipatia da crítica politicamente-correta, à qual praticamente nenhum escritor é capaz de sobreviver nos dias de hoje. Mas o gênio sempre acaba por enterrar seus próprios agentes funerários, e eu tenho certeza que sete décadas após sua morte, Lawrence, nas páginas mais marcantes de sua obra, continua a transmitir energias ferozes de espírito, determinação e audácia.

Além de tudo, se dizia pintor....

A Sagrada Família, segundo D. H. Lawrence
(só se for a dele!)

domingo, 9 de setembro de 2007

Sozinho


Sei que muita gente nunca ouviu falar dele, e os poucos que ouviram talvez nunca leram. É raro aparecer alguém na biblioteca à sua procura, e quando aparece não o encontra, visto que já não está disponível. E tudo isso é extremamente lamentável, pois Cesare Pavese, a despeito do esquecimento, foi um dos mais grandiosos romancistas italianos do século XX. Eu diria que ele está para a Itália assim como Albert Camus está para França: o homem que sozinho incorporou e expressou a solidão de todos os homens!...

Isso pode ser comprovado nos livros La luna e i falò (A Lua e as Fogueiras) e Tra Donne Sole (Entre Mulheres Apenas), ambos situados na Itália do pós-guerra. Toda a literatura de Pavese fala-nos de como viver é sempre um ato solitário, apesar da pulsão para o outro, apesar da necessidade de amar. O mundo é o que cada um conhece: aquilo que acaba e começa em nós. E o amor é antes uma força destrutiva que salvadora. Uma pessoa não se mata por amor a outra – dizia ele - mas porque o amor, qualquer amor, nos revela a nossa nudez, a nossa miséria, a nossa vulnerabilidade, o nosso vazio.
Sempre que leio Pavese me pergunto quem poderia tê-lo magoado tanto. Por toda a sua obra ouvimos ecos de uma vida terrivelmente solitária, marcada por uma necessidade desesperada de amor (nunca correspondido), pela amargura e desolação, por uma infância assombrada pela morte do pai e vivida com uma mãe insensível (que desapareceu quando ele tem 13 anos). Escreveu-se, a propósito de Pavese, que a constatação da sua inadaptabilidade à vida o fez refugiar-se na literatura. Difícil contestar.
Com uma angustiante melancolia, ele constrói uma narrativa onde tudo aparece como mutável e imutável, como variações e contradições das paisagens exteriores e interiores do narrador. Há as oposições entre o campo, uma espécie de paraíso perdido, e a cidade, entre a aldeia e as cidades da Califórnia, entre o permanecer e o partir. Há em cada página dos livros de Pavese doses cavalares de existencialismo puro, que sem dúvida fazem dele o grande rival de Camus, seu duplo.
Para quem ainda não o conhece, e hesita em conhecer o desconhecido, recomendo que leia A Lua e as Fogueiras, romance escrito por ele meses antes de se suicidar, em Turim, num quarto de hotel, quando tinha apenas 42 anos. Eu considero sua obra-prima, emblemática, aquela que o confirma como romancista e poeta fundamental da literatura italiana. Depois, se tiver coragem, leia seu diário, intitulado O Mistério de Viver, que para ele foi mais um tormento que um mistério. Entre outras preciosidades você encontrará essa triste confissão de cansaço anotada nove dias antes de tentar estancar o sangue que lhe corria nas veias: "Um imenso fastio de tudo. Basta de palavras. Um gesto. Não escreverei mais."

Calar é a nossa força

um antepassado nosso deve ter-se sentido muito só

um grande homem entre imbecis ou um louco coitado

para ensinar aos seus tanto silêncio.


Cesare Pavese

quinta-feira, 6 de setembro de 2007

O Anjo Banido

Certo dia no apogeu do seu reinado, o imperador Ming Huang recebeu embaixadores da Coréia que lhe trouxeram importantes mensagens escritas num dialeto que nenhum dos seus ministros conseguia entender. Indignado e constrangido pela situação, o imperador decretou que se a mensagem não fosse decifrada no prazo de três dias, todos os seus ministros seriam enforcados.
Durante um dia os ministros confabularam e se atormentaram temendo pelas próprias vidas, até que se lembraram de chamar um poeta chamado Li Po, que era conhecedor de todas as línguas. Li compareceu, leu a carta e ditou uma resposta sábia, que o imperador assinou sem hesitar, quase acreditando no que seus ministros diziam: que o poeta era na verdade um anjo banido do céu por uma alguma travessura.
Provavelmente essa estória é uma invenção do próprio Li, que se empenhava em ser uma lenda. E conseguiu.
Na noite em que Li Po nasceu, no ano de 701, sua mãe – pertencente à família Li – sonhara com Tai-po Hsing, a Grande Estrela Branca, que no ocidente é conhecida por Vênus. Assim a criança foi chamada de Li, que significa jóia, e recebeu o sobrenome Tai-po, Estrela Branca. Aos 10 anos de idade, ele já conhecia a fundo todos os livros de Confúcio, fazia comentários do Tao e compunha poesias imortais. Era autodidata e um tanto megalômano; supunha-se capaz de seduzir qualquer mulher com seus versos melífluos.
Com efeito, casou cedo, mas ganhou tão pouco dinheiro que a esposa o deixou e levou os filhos. O imperador ajudou-o e cobriu-o de presentes por ele ter prometido compor a mais bela elegia poética jamais escrita para uma mulher, que neste caso seria Yang Ywei-fei, a prestigiosa concubina imperial. Li cumpriu a promessa, mas a chata da Yang achou o poema excessivamente erótico, quase lascivo, e conseguintemente convenceu o imperador a banir o poeta dos domínios do Império do Meio, ou seja, de toda a China.
Desde então Li Po nunca mais teve sossego, e levou uma vida errante e abjeta.
Os últimos anos do poeta foram os mais amargos, pois ele jamais se humilhou para ganhar dinheiro e no caos da guerra e da revolução não encontrou um único mandarim que lhe evitasse a fome. No entanto, ao final dos tumultos foi declarada anistia geral e o velho Li pôde se dirigir para casa os seus passos vacilantes. Três anos depois adoeceu e morreu, mas a lenda, descontente com essa morte comum para uma alma tão rara, contou que ele afogou-se num rio, bêbado, tentando abraçar o reflexo da lua na água.
No conjunto, os trinta volumes de versos delicados e agradáveis que Li deixou garantem-lhe a reputação de maior poeta da China. “Ele é o ápice sublime do Tai dominando milhares de montanhas e colinas, é o sol em cuja presença milhões de estrelas do céu perdem o brilho cintilante” - afirmou um crítico chinês.. O mundo ocidental conheceu Li Po através de uma tradução livre realizada por Ezra Pound, e da qual Cecília Meirelles nos deu uma versão em português. Graças as muitas imagens taoistas vertidas em sua poesia, Li Po escrevia com a simplicidade de um poeta moderno, e sua melancolia, às vezes, chega a lembrar o heteronômio pessoano Alberto Caiero.
Aproximadamente mais de mil dos seus poemas subsistem na atualidade.
Portanto, podemos declarar que o imperador Hang e Yang sua antipática concubina estão mortos, mas Li Pó ainda canta!

A esposa do guerreiro está sentada à janela.

De coração aflito, borda uma rosa branca numa alfofada de seda.

Picou-se no dedo! Seu sangue corre na rosa branca, que se torna vermelha.

Seu pensamento vai ter com seu amado,

que está na guerra e cujo sangue tinge, talvez, a neve de vermelho.

Ouve o galope de um cavalo... Chega, enfim, seu amado?

É apenas o coração que salta com força no peito...

Curva-se mais sobre a almofada e borda com prata

as lágrimas que cercam a rosa vermelha.

Li Po


(Tradução de Cecília Meireles)
Do livro: "Poemas Chineses / Li Po e Tu Fu", Nova Fronteira, 1996, RJ

terça-feira, 28 de agosto de 2007

Um escravo de suas vontades...


Se vier um dia em que ao momento

Disser: Oh, pára! és tão formoso!

Então algema-me a contento,

Então pereço venturoso!

Repique o sino derradeiro,

A teu serviço ponhas fim,

Pare a hora então, caia o ponteiro,

O Tempo acabe para mim!


Aos olhos de Fausto, aquele "Oh, pára!" não constitui nenhuma manifestação de vida ou de amor, mas sim um sinal de morte. Pois o momento em que ele desejasse parar, quisesse deter-se porque a existência se lhe afigurasse bela e ele se mostrasse satisfeito com a realidade presente, esse momento deveria ser ao mesmo tempo o de sua morte - o instante, portanto, em que Mefisto, zeloso servo de Fausto durante o seu tempo de vida, assumiria domínio irrestrito sobre sua alma.

A quem interessar possa, há na wikipédia um verbete sobre Fausto escrito por mim. Vale a pena conferir.

A Alma do Mundo


Goethe, já idoso, disse uma vez que seus escritos não podiam se tornar populares, não se destinavam às massas, mas aos indivíduos dotados de aspirações e propósitos semelhantes aos seus!... Parece uma afirmação arrogante, mas não é.
Forças da natureza, quando humanizadas, raramente se tornam figuras literárias: antes, manifestam-se como fundadores de religiões, conquistadores, políticos, santos, destruidores do mundo. Johann Wolfgang von Goethe foi talvez a única potestade natural a escolher a carreira de poeta, pela qual revelou ser ele próprio a alma da poesia, quiçá do mundo!... Parece uma apreciação exagerada, mas não é.
A extraordinária personalidade de Goethe (excepcionalmente bem documentada) é uma espécie de milagre, nada fácil de ser descrito. Emerson, com a perspicácia de sempre, definiu Goethe como a idéia “de que o homem existe para a cultura; não para o que pode realizar, mas para o que pode através dele ser realizado”. Com efeito, no reinado da contracultura, Goethe é hoje a cultura ocidental obscurecida pela rede mundial de computadores, pela mídia, pela culpa equivocada, pelo semi-analfabetismo, pela linguagem empobrecida e, sobremaneira, pela incapacidade de uma leitura intensa. Considero este fato desolador, no início deste terceiro milênio, pois Goethe seria, para nós, mais saudável do que nunca, agora que a sensibilidade agoniza e a opinião contrária à idéia de gênio alcança a força de uma ideologia daninha.
Fausto, sua obra-prima, mesmo em tradução, ainda é leitura essencial, se pretendemos alcançar um entendimento definitivo com relação à nossa própria cultura, mesmo enquanto sucumbimos. Somos cercados de mulheres e homens faustianos em sua necessidade de desafiar e transgredir, e até o nosso atrevimento tecnológico tem um elemento faustiano. Em Fausto ouvimos a ironia da própria natureza falando através de um indivíduo. E infinitamente metafórico, tanto quanto a natureza, Goethe é a própria alma do mundo, permanecendo um ou dois passos à frente da nossa compreensão.
Deveras, não há outro como Goethe. Até hoje é a glória do idioma alemão e da poesia ocidental. A sobre-humana criatividade que possuía fez com que sempre estivesse só, ao vento e as intempéries do tempo. Tanto poder quase sempre implica em solidão. Não obstante, viu e compreendeu todas as coisas, e a despeito de ser solitário, era sereníssimo. Isso, de certo, explica a demora na iniciação sexual, ocorrida durante uma viagem à Itália, aos trinta e tantos anos, e, mais tarde, com Christina Volpius, ao retornar a Weimar. Até então o que se poderia chamar de carreira erótica de Goethe caracteriza-se por relacionamentos intensos que evitavam qualquer consumação, dos quais o mais duradouro e destrutivo foi uma paixão fraternal e idealizada pela virtuosa Charlotte von Stein, judia convertida à igreja luterana.
Apesar disso, sua poesia não carece de Eros. Aos 81 anos, compôs os trechos mais arrebatadores do Segundo Fausto (meu predileto), somando uma ousadia à outra, em uma obra que qualifico como o mais sublime filme de terror já concebido - ainda que um magnífico poema.
Ler Goethe é, para mim, algo de um fascínio interminável, mas os romances Wilhelm Meister, Egmont e Os Sofrimentos do Jovem Werther são hoje peças de museu, datados a não poder mais. Fausto, especialmente a esplêndida segunda parte, é fantasia grotesca, um pesadelo erótico que, insisto, deve ser lido por todos capazes de suportar tal experiência. Mas não se trata de haver algo errado com Goethe (O Escrito, conforme Emerson o chamava) – existe algo muito errado conosco. Não perdemos apenas sabedoria, mas as qualidades de espírito que constituem requisitos mínimos para uma leitura prazerosa de Goethe.

Mas disso ele já sabia.

sábado, 25 de agosto de 2007

Errar é umano!


Pensei que coisas assim só aconteciam neste blog!

sexta-feira, 24 de agosto de 2007

Senhor dos Labirintos e Espelhos


Certa vez, comentando algumas críticas, Jorge Luis Borges declarou que não se considerava, de fato, um escritor moderno, pois havia nascido no dia 24 de agosto de 1899. Ironias a parte, é realmente difícil situá-lo, visto que não parece moderno, mas tampouco antigo. Digamos então que é, em si mesmo, uma atualidade, apesar de atemporal. Não obstante, a modernidade é o que menos importa em seu estilo, basta que seja o que é: indiscutivelmente original.
Embora tenha iniciado sua carreira literária na infância (quando traduziu o “Príncipe Feliz” de Oscar Wilde, aos seis anos de idade), e tenha contribuído muitíssimo para a renovação da literatura Argentina, Borges só veio obter notoriedade aos 62 anos, quando já estava cego e foi traduzido para o francês. Curiosamente, mesmo na qualidade de mestre da língua espanhola, ele aparentava sentir-se mais à vontade em outros idiomas. Como o poeta Fernando Pessoa, Borges cresceu falando em inglês e, segundo consta, leu Cervantes em língua inglesa antes de ler no original. Mas, também a exemplo de Pessoa, ele sabia que sua pátria literária era outra, era o espanhol. E foi neste vernáculo que escreveu toda a sua obra.
A fama que veio repentina e tardiamente, foi um advento memorável, todavia mais para os leitores do que mesmo para ele. De súbito, o mundo viu surgir algo até então inédito na prosa ocidental, mais precisamente no conto. Se antes desse advento as estruturas do conto haviam sido definitivamente estabelecidas por Tchekov e Maupassant, Borges insinuou-se entre os dois como uma terceira via, originalíssima, que conduzia a novas possibilidades narrativas - todavia difícil de percorrer e até mesmo de ler. Toda a sua genialidade se fundamenta em seus contos (ou Ficções), os melhores dos quais, de modo geral, não excedem 12 ou 15 páginas!... Isso já o qualifica como o maior contista do século XX. E conquanto seja poeta de qualidade considerável, é só como contista que se destaca e inspira reverência. O que não é pouco.
Dominando todos os gêneros, sabendo imitar o sotaque de todas as línguas e épocas, Borges utiliza seu poder de síntese para baralhar a realidade com a ficção em textos impecavelmente insidiosos, ante os quais fica difícil não hesitar entre o crer e o não crer. Borges é um mistificador perigoso, que leva a intertextualidade as última conseqüências, e quase sempre consegue nos enganar. Escreve críticas sobre obras que nunca foram escritas. Cita, em notas eruditas, uma profusão de livros de todos os tempos e de todas as literaturas, metade reais, metade imaginárias, inventadas. E também gosta de citar, de livros que realmente existem, páginas que não constam deles. Define, ele próprio, sua arte literária como sendo de “anacronismos deliberados e atribuições errôneas”.
Esses truques de mistificação estão a serviço de sátiras aparentemente jocosas, mas realmente sérias, que estabelecem os limites do evasionismo. Com feito, Borges não é evasionista. Seu mundo fantástico é, contra todas as aparências, igual ao nosso. Só que visto através de espelhos, ou melhor, de um labirinto de espelhos – duas coisas bastante recorrentes em toda a sua obra. Que já o leu sabe que é com labirintos, espelhos e pedaços da realidade, que Borges faz uma paródia fantástica de nosso mundo, um mundo que por si só já é bastante incompreensível e fantástico.
A única coisa que faz falta nessas paródias é o amor, Eros. Mas essa ausência é facilmente justificada se levarmos em conta que a vida afetiva e sexual de Borges foi praticamente inexistente. Ele viveu sempre como um solteirão, só casando-se na velhice, e, segundo a viúva, nem sequer consumou o ato. A única companheira de toda a vida foi a mãe, que trabalhou e morreu como sua secretária particular até os 99 anos. Essa ausência de eros, porém, não diminiu o seu brilho, pelo contrário, dá até um certo glamour trágico se aliado a cegueira!... Pode-se até criar uma legenda: Borges desposou a literatura e leu até ficar cego!...
Borges começou a perder a visão muito cedo, no começo da década de trinta. E quinze anos depois, quando foi nomeado diretor da Biblioteca Nacional de Buenos Aires, já não enxergava mais. Não obstante, ainda era capaz de criar e ditar poesia. E uma delas foi o Elogio das Sombras, na qual cantou o destino do leitor cego a quem um dia concederam um reino de livros.
Através desse poemas percebemos que ele nunca se deixou abater, e tampouco abandonou a literatura.
Mesmo perdido num escuro labirinto de espelhos e livros, Borges pôde demonstrar justamente o que é o homem: o sujeito e objeto de sua própria busca.