quinta-feira, 28 de agosto de 2008

A Nova Idade das Trevas... ou do Esquecimento.

Houve um tempo em que entre Religião e Cultura havia uma equivalência, quase uma sinonímia óbvia - aliás, ainda há, só que esta equivalência, ou sinonímia, é hoje algo despercebido, esquecido. E, ironicamente, estando sintetizados pela Igreja, pelas artes, pela filosofia e pela literatura, a religião e a cultura são ainda os únicos componentes de uma civilização que podem sobreviver quando ela chega ao término da sua duração histórica. São os valores universais, que, por servirem a toda a humanidade e não somente ao povo em que se originaram, justificam que ele seja lembrado e admirado por outros povos. A economia, a política, a tecnologia e a ciência são apenas o suporte, local e temporário, de que a civilização se utiliza para seguir vivendo enquanto gera os símbolos nos quais sua imagem permanecerá quando ela própria já não existir. Nenhum povo ascendeu ao primado econômico e político para somente depois se dedicar a interesses espirituais ou intelectualmente superiores. O inverso é que é verdadeiro: a afirmação das capacidades civilizacionais da religião e da cultura antecedem as realizações político-econômicas.
A Itália medieval, por exemplo, mesmo politicamente fragmentada, foi o ponto de encontro do espírito humano com a mais absoluta perfeição artística. A França foi o centro literário e cultural da Europa muito antes das pompas de Luís XIV. Os ingleses, antes de se apoderarem dos sete mares, foram os supremos fornecedores de santos e eruditos para a Igreja. A Alemanha foi o foco irradiador da Reforma e em seguida o centro intelectual do mundo - com Kant, Hegel, Goethe e Schelling - e antes mesmo de constituir-se como nação. Os EUA tinham três séculos de religião devota e de valiosa cultura literária e filosófica antes de lançar-se à aventura industrial que os elevou ao cume da mais dinâmica prosperidade. Os eslavos e escandinavos também tiveram seus santos, filósofos, poetas - sem falar nos dois maiores romencistas de todos os tempos - e isso antes do carvão, do aço e, atualmente, da enérgia nuclear ou do invejável IDH. Aqui não convém desdenhar dos espanhois e portugueses, que complexados por não acompanharem pari passu o pensamento moderno, acabaram se esquecendo daqueles fantásticos padres-filósofos de Salamanca e Coimbra, mestres de Descartes e Leibniz, que em pleno século XVI já pensavam em economia de mercado e física probabilística, saltando três séculos sobre a ilusão mecanicista cujo prestígio, tão invejado pelos ìluministas ibéricos, só fez atrasar o desenvolvimento das ciências e inspirar, na política, os frutos mais letais da falência estatal. O poder ocidental, então, foi de alto a baixo fruto da religião cristã - religião que seria inconcebível se não tivesse encontrado, como legado das tradições judaica e greco-latina, a semântica poderosa e sutil da Igreja, que irradiaria o conhecimento da Bíblia e da Antiguidade Clássica.
A experiência e herança de dois milênios, no entanto, pode ser obscurecida até tornar-se invisível e inconcebível. Basta que novos bárbaros, travestidos de intelectuais, invadam nossa escolas e nos eduquem para a preguiça e o esquecimento. Coisa que desde há muito vem acontecendo. Por toda parte, as universidades - antigas filhas das igrejas - são hoje, de uma perspectiva intelectual, intrigueiras, doentes, falidas, e, salvo exceções, dirigidas por impostores que, inveriavelmente, duvidam de Deus e desconfiam do homem. O abismo entre o progresso material e a cultura espiritual aumenta de dia para dia, e as armas desse progresso nas mãos dos bárbaros é fato que salta aos olhos de quem ainda pode enxergar. Olhamos em volta e vemos que as universidades foram reduzidas a escolas (superiores) profissionalizantes ou, quando muito, em cursinhos de ideologia, onde toda bagagem intelectual do "acadêmico" se reduz a um punhado de jargões niilistas, clichês relativistas e slogans demagógicos. A bem da verdade, os edifícios das universidades ainda resistem, e neles trabalha-se muito, demais, às vezes, mas o edifício do espírito, esta catedral invisível, está ameaçado de cair em ruínas. Em tempos mais felizes a sueca Ellen Key dizia com sutileza: "Cultura é o que nos resta depois de termos esquecido tudo quanto aprendemos." Mas que dizer quando o "esquecimento" é já em si um imediato fator cultural. Com efeito, somos riquíssimos de informação imediata, porém mendigos de cultura. Hoje em dia H. G. Wells poderia dizer melhor do que antes: "We are entered in a race between education and catastrophe..." ("Entramos numa corrida entre educação e catástrofe..."). Aí está a questão da Universidade.
Entretanto, não é sobre universidades que pretendo falar, é sobre trevas e esquecimento. O escritor Jorge Luis Borges dizia que "a memória é o essencial, visto que a literatura está feita de sonhos e os sonhos fazem-se combinando recordações!" Noutra ocasião, ele também ressaltou que "somos nossa memória, somos esse incomensurável museu de formas inconstantes, esse montão de espelhos rompidos." E ainda numa acertiva máxima, ele declarou que "o livro é uma extensão da memória e da imaginação." A memória é pois, naturalmente, o ponto crucial, a pedra de toque que infelizmente, neste tempo de arrogantes esquecidos, converteu-se em pedra de tropeço!... A capacidade de reagir ao texto, a compreensão e a resposta crítica ao autor, pertinentes ao ato pleno da leitura dependem estritamente das artes da memória, isto é, do saber de cor (termo que merece atenta reflexão). Saber de cor é uma arte, ou melhor, uma tradição cultural que prevaleceu na educação do ocidente desde a idade média até a Primeira Guerra Mundial. Thomas Mann, por exemplo, na infância havia decorado toda a Ilíada e o Livro de Jó. Os monges e cléricos (ou clercs como se dizia nas escolas inglesas) sabiam e ensinavam de cor extensos trechos das Escrituras Sagradas, da liturgia, da poesia, épica e lírica. A capacidade de citar e recitar de memória capítulos de Homero, Virgílio, Horácio ou Ovídio, de ter sempre uma citação apropriada de Dante, Shakespeare, Milton ou Platão gerou uma tessitura compartilhada de ecos, de identificações e reciprocidades intelectuais e emcionais sobre as quais fundamenta-se a linguagem da filosofia, da política, da jurisprudência, das leis e das ciências ocidentais. O conhecimento de cor das fontes latinas da cultura, de La Fountaine, de Racine, das frases de impacto de Oscar Wilde deram à vida cultural da Europa o seu caráter retórico. O leitor autêntico, o lector ou lisant, como se dizia na Idade Média, situava o texto que estava lendo num espaço cheio de ressonâncias. Um eco respondia a outro, a analogia era precisa e imediata, as correções e as emendas eram justificadas por precendentes evocados com precisão. O leitor reagia ao texto com todo este repertório de referências e associações. Mas isso é coisa do passado!... Quantas pessoa com dotes semelhantes, atualmente, você conhece? Decerto, poucas, talvez nenhuma. Mas não se envergonhe porque vivemos na era do esquecimento, a nova e verdadeira idade das trevas, em que não há restrição de livros, mas de leitores. Nesta era a atrofia da memória é característica principal da educação. A grande maioria de nós já não sabe identificar - e muito menos citar - até mesmo as passagens bíblicas mais importantes, tampouco os textos subjacentes à leitura ocidental (de Camões a Cora Coralina, de Goethe à Guimarães Rosa, os textos carregam dentro de si o eco implícito dos textos que os antecedem). As mais elementares alusões à Mitologia Grega, ao Antigo e ao Novo Testamento, aos clássicos, à história antiga e ocidental tornaram-se herméticas. Pequenos retalhos de textos sobrevivem agora precariamente à custa de pretenciosas notas de rodapé. A identificação da fauna e da flora, das principais constelações, das liturgias das horas e das estações do ano, que, como demonstrou C.S. Lewis, são conhecimentos essenciais à mais simples compreensão da poesia ocidental, do drama, do romance, de Bocaccio a Tennyson, são considerados hoje em dia um saber especializado. Já não mais aprendemos de cor. Os interstícios de nosso saber já não comportam ecos, pois estão entulhados de trivialidades estridentes, de lixo ideológico, de preconceitos politicamente-correto, todos cimentados por uma inexpugnável preguiça mental. O ensino escolar de nossos dias, princialmente o universitário, o acadêmico, é amnésia programada. Estamos esteticamente falidos, agonizantes. Logo resta-nos apenas um esplendor tecno-científico, uma semântica de estímulos auditivos e visuais, em que telas e monitores substituem livros. A ciência e a tecnologia não passam pelo processo de declínio observado em outras áreas da criação humana. Mas isso não invalida o diagnóstico geral. Digamos então que o estado da alma ocidental não é feliz. Não encontramos ninguém dizendo a frase de Erasmo no começo da Renascença: "Que tempo maravilhoso para se viver!". Por isso precisamos reavaliar nosos conceitos de civilização, de cultura, de identidade e sobretudo de educação.
A moderna educação ocidental nos acostumou a ler a historia antiga e sobretudo a medieval sob a ótica de "valores modernos" (termo bastante paradoxal!). Porém, quem já tentou ler a modernidade através da Idade Média?... Por que não podemos, em vez de medir o passado com a régua dos senhores do dia, julgar os senhores do dia à luz das sementes cujo máximo e perfeito desenvolvimento eles, sem a mínima prova, asseguram representar? Por que não nos atravemos a provar que as antigas sementes, plantadas em terra nova, podem dar melhores e mais doces frutos do que as ideologias niilistas, positivistas, anarquistas, relativistas, multiculturalistas das quais pendem toda degradação intelectual de hoje?
Toda a civilização ocidental nasceu de surtos religiosos da Igreja Cristã. Jamais existiu uma “cultura laica”. E longo tempo decorrido da fundação desta civilização, nada impede que alguns valores e símbolos sejam separados abstrativamente das suas origens e se tornem, na prática, forças educativas relativamente independentes. Até isso ela propiciou.
Mas digo “relativamente” porque, qualquer que seja o caso, seu prestígio e em última análise seu sentido continuarão devedores da tradição religiosa e não sobrevivem por muito tempo quando ela desaparece da sociedade em torno. Toda “cultura laica” não é senão um recorte operado em códigos e referências religiosas anteriores. Esse recorte pode ser eficaz para certos grupos dentro de uma civilização que, no fundo, permaneça religiosa, mas, suprimido esse fundo, o recorte perde todo sentido. A incapacidade de uma leitura autêntica e proveitosa decorre, portanto, apenas disso. O presente estado de coisas nos países que se desprenderam mais integralmente de suas raízes judaico-cristãs está demonstrando com evidência máxima que a pretensa “civilização laica” nunca existiu nem pode existir. E a literatuta é somente um indício.

3 comentários:

DIARIOS IONAH disse...

e de quem pode ser a mea culpa?????????????????????????????

O Bibliotecário disse...

Bom, minha é que não é!

DIARIOS IONAH disse...

mas tem que a ver um mea culpa!