sexta-feira, 9 de maio de 2008

Lady Frieza


A primeira vez que li Virginia Woolf tive uma péssima impressão. Sua prosa se parecia exatamente com ela: fria, diáfana, taciturna, anêmica, de um bom gosto excessivo, que transcendia o terreno literário para entrar no chique. Definitivamente, Virginia Woolf era uma literatura, um desafio, ou simplesmente uma pessoa para quem eu não estava preparado. E mesmo, hoje, quando quase tudo já foi devidamente relido e reconsiderado, ainda não sei como defini-la. O que me consola é que talvez ninguém saiba. E consta que a escritora detestava e evitava qualquer definição. No entanto, 67 anos após o seu suicídio, ela se encontra atada a definições de todos os tipos: modernista, teórico feminista, lesbian chic!... Mas não é para menos, estamos na nova idade das trevas onde um rótulo é tudo, e a teoria literária é mais lida do que a própria literatura. Porém como sou antipático a estereótipos acadêmicos, me limitarei à falar como leitor sincero e dizer que a literatura de Virginia Woolf é tudo o que se podia esperar de melhor em experimentação, inovação, abstração, embromação, delírio, faniquito e virtuosismo psicológico produzido até então pela língua inglesa no século XX, sem deixar, contudo, de dar continuidade a grande tradição literária deste idioma que vemos implícita através dos momentos cruciais, privilegiados e epifânicos dos seus cinco melhores romances: “Mrs. Dalloway”, “O Farol”, “As Ondas”, “Os Anos” e “Entre os Atos”. Em alguns momentos ela exagera, é verdade, erra a mão, parece drogada, e merecidamente pode ser encarada como a mais radical experimentalista da ficção do século passado - ao lado de James Joyce, mas sem o intelectualismo deste. Virginia buscava tão obsessivamente uma nova forma lírica para o romance, que acabou desenvolvendo com precisão inédita os recursos do fluxo da consciência e dos monólogos interiores, que constituíram a narrativa de seus livros.
Por isso, aos leitores agitadinhos, vou logo avisando que os romances de Virginia têm pouca ação - ''Sra. Dalloway'', por exemplo, resume-se a um passeio por Londres - espécie de motor para o desencadear de sensações que fazem da sua narrativa uma literatura ''radial'', como ela definia, em oposição a uma narrativa ''linear''. Esse mergulho radial e vertiginoso no inconsciente era, a bem dizer, lenitivo e veneno para sua fragilidade psicológica. Sabemos que uma adolescência traumática causou uma série de colapsos nervosos e internações que pontuariam toda a sua vida, e fariam dela uma esteta triste e desesperada. Todavia, Virginia alcançou o domínio de uma arte com características tão pessoais que a sua escola é composta somente por ela mesma – ainda que sobejem originais imitadoras mundo a fora: Katherine Mansfield, Marguerite Duras e Clarice Lispector, só para citar as melhores. Assim como nestas escritoras, o que caracteriza o texto de Virginia Woolf são os relatos de isolamento, loucura e amor perdido, que são verbalizados num complexo de imagens; não só um amontoado de imagens fraturadas, mas sim uma reunião harmônica de percepções e sensações. Virginia Woolf era duplamente dotada, quer como escritora quer como leitora, e talvez esse seja o segredo do seu grande gênio criativo - um gênio que sabia não apenas inventar uma forma de escrever, mas também uma nova forma de ler.

5 comentários:

helentry disse...

Confesso que nuunca li Vírginia Woolf, mas a carcaterística lírica e a relação com Clarice Lispector, que você cita em seu texto, faz com que pense agora em lê-la. Será que a pergunta me assustou:Quem tem medo de Virginia Woolf? Vi o filme As Horas e conheci um pouco de sua história atormentada, seu drama! Como os escritores densos nos atraem!...

Eduardo Multicultura disse...

Primeiro queria dizer que sempre passo por aqui, para ler alguma coisa. O seu blog é muito bom mesmo!
Depois, quanto a Vírginia, realmente ela não é uma escritora fácil. Já li Orlando (que na minha modesta opinião foge um pouco do estilo da autora, desse fluxo de consciência das outras obras) Já tentei ler Noite e dia e não aguentei, era muito lento para mim, acho que não estava preparado. E mais recentemente li Rumo ao farol e consegui digerir melhor sua escrita. Mas, pra mim não é ainda uma escritora fácil. Também vi As horas e gostei muito do filme. Talvez um dos meus favoritos. O fluxo de consciência das personagens do filme (da Juliane Moore principalmente) são mais facéis que o da autora e o filme tem uma montagem das 3 histórias muito bem feita. Adorei mesmo a frase da Virigina. É pra que eu pense muito nela essa semana. Abraços..

O Bibliotecário disse...

Eduardo, que surpresa agradável!... Olha, de fato, Virginia nem sempre é fácil. Assim como vc, eu também tive que pelejar muito com o texto e (admito)nem sempre valeu a pena. Mas isso não significa que tenha sido uma experiência ruim. Não mesmo. Como disse no artigo, ela afeta nossa capacidade de leitura, e se não nos distroi, nos fortalece. E quase sempre é a segunda possibilidade que acontece.
Agradeço pela visita e pelo comentário. Que sirva de estímulo a nossa querida Elô (helentry).
Volte mais vezes, sempre.

Badá Rock disse...

Quando eu crescer lerei Virginia Woolf. Por enquanto não.

MaC disse...

Mestre Bibliotecário, algumas consideraões: 1) Gosto sempre de ler teus escritos (e nem sempre os comento, mas sempre os leio); 2) Apesar de ser um leitor voraz (segundo opiniões terceiras) nunca li Virgínia Woolf... E, me espantei com isso agora: Nossa! Nunca li Virgínia Woolf!!! Fico-lhe grato por me alertar para este fato... 3) Quando era pequeno, fui fisgado pelo mundo dos livros e, uma das minhas aspirações laborais era ser bibliotecário. Infelizmente, cá em minha terra não havia o curso, as bibliotecas são poucas, as oportunidades de trabalho menos ainda... fiquei apenas no sonho! Um cordial abraço para você!