
Eu dormia, mas o meu coração velava
E ouvi o meu amado que batia:
Abre minha amada, minha irmã,
Pomba sem defeito!
Tenho a cabeça orvalhada,
Meus cabelos gotejam sereno!
Já despi a túnica,
E vou vesti-la de novo?
E ouvi o meu amado que batia:
Abre minha amada, minha irmã,
Pomba sem defeito!
Tenho a cabeça orvalhada,
Meus cabelos gotejam sereno!
Já despi a túnica,
E vou vesti-la de novo?
Como se pode vê, é a lírica do "Cântico dos Cânticos" que assinala o modo como Juan de la Cruz compreende e expressa o cerne da nossa existência: o desejo! E sendo o desejo a contingência universal da natureza humana, só a sua objetivação em Deus pode plenificá-lo e abri-lo inteiramente à transcendência, cujo emblema é a cruz. Cristo, diz o santo-poeta, não pregou a aniquilação do desejo ou da paixão, pois era "verdadeiro Deus" e "verdadeiro Homem". Não quis desumanizar-nos, embotando nosso coração ou nos fazendo fugir dos sentimentos como fazem os estóicos e niilistas. Antes, ensinou-nos a vivê-los consciensiosamente, em máxima caridade, a ponto de aniquilarmos a nós mesmos!... Quem quiser segui-Lo, que tope o desafio: tome sua cruz e siga-O. Juan tomou a sua cruz e fez dela a mais bela poesia sobre os mistérios de Deus na alma e da alma em Deus. Sua imensa obra poética foi lida ao longo destes últimos quatro séculos, em várias línguas e lugares. Muitos dos seus leitores, naturalmente, não o entenderam, porém, isso não o impediu de marcar, indelevelmente, a moderna literatura ocidental com uma experiência espiritual que ecoou, e ainda ecoa, na noite escura da atualíssima insensibilidade estética, para não dizer espiritual.
Com efeito, o Deus dos filósofos iluministas e dos laicistas radicais pode ter morrido no século XIX, mas o Deus de San Juan de la Cruz, e a linguagem e a visão de mundo gerada por sua "presença real" continuam formidavelmente vivos e operantes nos escritos de Cervantes, Pascal, Thomas Hardy, Hölderlin, Dostoiévski, Proust, Joyce e Borges. Nós não teríamos os ritmos inquietantes da prosa de Mauriac e Grahan Green, nem as aflitas indagações de Baudelaire, Thomas Mann ou Faulkner. Não teríamos o erotismo sagrado de John Donne, Hilda Hilst e Adélia Prado. Nem o mundo de Schoenberg e Guimarães Rosa, que é bíblico até o âmago. Não teríamos sequer a peça “Fim de Jogo” de Beckett, que é uma meditação precisa sobre os instrumentos e as finalidades da Paixão. Se temos isso, e muito mais, é porque estes escritores optaram por continuar uma mística poética à qual, confessadamente, foram expostos por San Juan de la Cruz.
3 comentários:
realemnte alguem acreditar que estar pregado numa cruz é a gloria,
não se pode mesmo mesmo acreditar que exista uma Coisa chamada SER FELIZ no mundo sem culpa NENHUMA DE ESTAR AQUI!
Pois é, cara mia. A Cruz, por tudo o que representa e também pela mensagem espiritual que contém, é escândalo e estupidez. O Apóstolo afirma isso com uma força tão impressionante, que é melhor escutar de suas próprias palavras: «A linguagem da cruz é loucura para os que se perdem, mas, para os que foram salvos, para nós, é uma força divina. Está escrito: Destruirei a sabedoria dos sábios, e anularei a prudência dos prudentes (Is 29,14). Onde está o sábio? Onde o erudito? Onde o argumentador deste mundo? Acaso não declarou Deus por loucura a sabedoria deste mundo? Já que o mundo, com a sua sabedoria, não reconheceu a Deus na sabedoria divina, aprouve a Deus salvar os que crêem pela loucura de sua mensagem. Os judeus pedem milagres, os gregos reclamam a lógica; mas nós pregamos Cristo crucificado, escândalo para os judeus e loucura para os pagãos» (1 Cor 1, 18-23).
E quem mais seria capaz de tanto amor, senão o próprio Deus feito homem? Mistérios de louco amante!
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