sexta-feira, 18 de janeiro de 2008

O grande escritor menor


O primeiro narrador norte-americano a obter ressonância européia foi Edgar Allan Poe (1809-1849). Ressonância tal e tanta que, na sua pátria, pensaram - e ainda pensam - ser excessiva. Poe viveu naquele período que antecede imediatamente os anos em que se deu o nascimento da grande tradição literária norte-americana: os anos que viram publicar as obras mais belas e significativas de Hawthorne, Melville e Whitman: respectivamente A Letra Escarlate (1850), Moby Dick (1851), Folhas da Relva (1855). É assim que, mesmo cronologicamente, Poe surge como um estranho à tradição literária norte-americana, pelo menos no sentido em que temos vindo a utilizar o termo: o romantismo exacerba-se e assume um caráter de sombria violência no gênero em que Poe amplamente dominou, o da short-story, ou estória curta, ou do conto mesmo. Entretanto, se os norte-americanos negaram a Poe lugar eminente no seu Parnaso, decidiram com não pouca arrogância atribuir-lhe, como se de uma compensação se tratasse, um dos mais ilustres, diga-se, no seu martirológio. O sinistro, desesperado, inglório martirológio do alcoolismo. Poe é, na verdade, o mais célebre e, muito possivelmente, o mais ilustre dos poetas vítima do álcool. Num dos seus mais belos e intensos contos, O Homem da Multidão (1840), o narrador acompanha uma personagem até à porta de uma taberna; mas não lhe chama “taberna”: chama-lhe “one of the huge suburban temples of Intemperance - one of the palaces of the fiend, Gin” (“um dos gigantescos templos suburbanos da Intemperança - um dos palácios do demônio Gin»). As palavras templo, palácio e demônio tornam facilmente compreensíveis qual deveria ser a parte assumida na vida do poeta pelo álcool: uma força simultaneamente odiada e adorada, contra a qual teve de se envolver numa luta sem resguardo e sem possibilidade de vitória, uma luta cansativa e esquálida, numa vida tão breve e infeliz.
Filho de atores circenses, Poe, muito cedo, viu desaparecer os pais, vitimados pela tuberculose. Em conseqüência, foi adotado por um tio rico, com quem conheceu um verdadeiro lar, sobretudo confortável. No entanto, os anos de miséria e a morte dos pais desenvolveram no jovem um espírito mórbido, que a sua natureza enfermiça só fez agravar.
Em 1827, ele abandonou a casa adotiva, vivendo por uns tempos um período de instabilidade emocional. Matriculou-se na Academia Militar de West Point, mas depressa se manifestou avesso à disciplina militar e foi expulso. Publicou ainda em 1827 o seu primeiro livro de poesia, Tamerlane e outros poemas. Em 1833 ganhou um prêmio instituído pelo jornal Philadelphia Saturday Visitor com seu conto “Manuscrito encontrado numa garrafa”. O diretor do jornal, vendo a situação de miséria e depressão em que Poe vivia, conseguiu-lhe um lugar de vice-diretor do Southern Literary Messenger, onde ficaria por pouco tempo, visto que devido à sua permanente morbidez, se tornaria num alcoólatra inveterado. No amor foi igualmente infeliz. Casou com uma prima chamada Virgínia, uma noiva-criança, com 13 anos apenas, que ele amava de verdade e junto de quem pareceu readquirir um pouco de confiança em si mesmo. Mas Virgínia morreu cedo, também vítima de tuberculose, e Poe, completamente arrasado, mergulhou num estado de desespero que o levou a procurar novas mulheres e a passar a maior parte do seu tempo embriagado. Ainda antes de os círculos literários dos EUA se terem decidido conceder um pouco de crédito artístico a Poe, este foi traduzido e apresentado aos leitores europeus por um dos maiores poetas e críticos de Oitocentos: Charles Baudelaire.
Baudelaire - como introdução a uma seleção de contos traduzidos - escreveu uma biografia do poeta americano: mas, em vez de lhe ressaltar a figura de artista, apresenta-o como se estivesse a descrever uma vida de santo; e, numa famosa página de diário, não hesitou confessar, com total franqueza, que, antes de adormecer dedicava a Poe as orações noturnas. É claro que a canonização literária de Poe levada a cabo por Baudelaire foi essencialmente prejudicial ao grande contista americano, pois, em vez de ajudar a compreender e apreciar melhor a sua arte sublime, distrai as atenções do essencial para o acessório.
Por outras palavras, as obras de Poe podem parecer pela sua extravagância (se o compararmos com os seus contemporâneos) o fruto corrompido de uma mente presa aos efeitos do álcool e, por isso, serem lidas, em chave desajustada, como testemunho de um mal, de uma doença. Tal leitura será sempre um modo superficial e mecânico do leitor abordar a arte de Poe, ainda que o método tenha sido recomendado por um crítico ilustre. Isto porque nunca do álcool nasceu poesia verdadeiramente grande. E, de qualquer modo, a poesia de Poe, a dos seus versos e da sua prosa narrativa, teve uma origem totalmente outra. E que ele revela no ensaio The Philosophy of Composition (A Filosofia da Composição,1846), que consiste numa receita pessoalíssima para escrever poesia. Aí, o autor toma posição clara contra todos aqueles que acreditam ser a poesia (e a arte em geral) o resultado de um estado de espírito excepcional, a que é usual chamar inspiração.
Poe escreveu cerca de cinqüenta poemas e setenta contos, um romance (Gordon Pym, 1838), um drama que ficou incompleto (Politian, publicado postumamente em 1923). Mas é opinião generalizada que a mais sólida razão para a sua justa glória literária se encontra nos contos que publicou, um gênero cuja evolução fortemente determinou. Não obstante, o poema “The Raven” (O Corvo, 1845), é considerado uma das obras primas da poesia universal.
Poe inventou uma humanidade à sua medida e, a partir dela, uma dor: e foi capaz de lhes dar consistência poética, ainda que essa humanidade e essa dor sejam profundamente diversas daquelas que os leitores alguma vez possam ter conhecido ou experimentado. Graças a Poe, o leitor moderno aprendeu a servir-se do terror como uma espécie de calmante. Não deixa de ter a sua lógica que nos EUA os thrillers (os romances negros) se possam comprar nas farmácias. E os repertórios de suspense, de suspensão angustiosa dos nervos, produzidos com tantos cuidados e sabedoria no laboratório de Edgar Allan Poe, são perfeitamente adequados a provocar uma boa sacudidela no sistema nervoso de qualquer um e a repô-lo em ordem. É importante recordar, a este propósito, que o thriller, afinal de contas, é um gênero ao qual o nome do poeta americano está irrefutavelmente ligado: a Poe deve ser reconhecida definitivamente a sua descoberta literária, se não a paternidade. E até de lamentar vivamente que a este gênero tão caracteristicamente norte-americano Poe só haja dedicado três narrativas O assassinato da Rua Morgue (1841), O Mistério de Marie Rogêt (1842) e A Carta Roubada (1845): é que, esgotado em breves páginas o retrato gostosíssimo do infalível Auguste Dupin, fica o eterno sabor amargo da nostalgia, o desejo imenso de o reencontrar, quando o leitor se defronta com os seus pálidos sucessores, de Philo Vance a Maigret, passando por Sherlock e Poirot.
Há quem diga que Poe, para ser mais do que um grande escritor menor, deveria ter ido um pouco mais longe na sua ânsia cognitva e procurado instituir uma relação entre as impressões da sensibilidade neurótica e a vida interior da consciência e alcançar o coração humano, com o peso da sua carne e a luz do seu espírito: mas Poe não poderia instituir esta relação pela simples razão de que a negava explicitamente ao não suspeitar sequer da sua existência: a isto chama-se ingenuidade.
Para instituir esta relação, e portanto para transportarem a sua arte para um plano mais responsável e adulto, mas certamente nunca esteticamente mais alto que o atingido por Poe, surgem, na idade moderna, dois outros escritores: um era Nathaniel Hawthorne, o sonhador, igualmente ingênuo; o outro era Franz Kafka, cujos sonhos eram pesadelos labirínticos.

3 comentários:

Anônimo disse...

Senhor Allan, comerciante que adotou Edgar Poe, não era seu tio

O Bibliotecário disse...

Obrigado por ter lido o texto e pela observação. Volte mais vezes para retificar e, consequentemente, enriquecer esta biblioblogoteca!
Ah, apresente-se! Gostaria muito de conhecê-lo!

O Bibliotecário disse...

Obrigado por ter lido o texto e pela observação. Volte mais vezes para retificar e, consequentemente, enriquecer esta biblioblogoteca!
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