quarta-feira, 10 de junho de 2009

Presença Real

Celebra-se hoje o mistério da presença. Aquele que tudo criou e tudo dispõe, pode ser contemplado numa diminuta partícula, fina e circular, que chega aos nossos sentidos, tão limitados em sua imanência, como um suplemento para a transcendência abosulta. A lógica deste mistério, só inteligível aos que creem, e também aos que leem, tem implicações não apenas metafísicas, mas também semânticas: Transubstanciar é traduzir!
A princípio, Deus estava inacessível à linguagem humana, à articulação conceitual ou a qualquer tipo de pensamento verbalizado. Sua presença era a presença rigorosamente inconcebível, inimaginável e impronunciável do Sinai: Não pronunciareis o meu nome!... Sua revelação era espinhosa como uma sarça, e ardente como uma tautologia: Eu sou Aquele que é!... Qualquer tentativa para caracterizá-lo, para representá-lo, para figurá-lo ou significá-lo, ainda que de forma análoga, era terminantemente proibida: Não farás para ti imagem!...
Mas quando chegou a plenitude dos tempos, o Verbo indizível de Deus se fez carne e veio habitar entre nós. Noutros termos, Ele próprio fez-se imagem, adquiriu figura humana, confirmando assim uma forma já prefigurada no Gênesis: Façamos o homem a nossa imagem, como nosso semelhante!.. Dessa vez Ele mesmo se fez homem, e então ficamos conhecendo não somente o seu nome, mas também a sua face. A misteriosa tautologia da sarça transubstanciou-se na luminosa ontologia do presépio. E a luz brilhou nas trevas!...
Sua presença era real, visível, pronunciável, sensível e até degustável. Sim, porque a grande teofania só estaria completa depois de outra transubstanciação. O verbo que virou carne, agora seria pão, pois assim dizia o 16° capítulo do Êxodo: Deu-lhes o pão do céu a comer!... Com efeito, o Verbo que veio habitar entre nós assim declarou: O pão do céu é aquele que desce do céu e dá vida ao mundo!... Eu sou o pão da vida que desceu do céu!...
A encarnação do Verbo e a sua transubstanciação em pão constituem o grande mistério da Presença Real na eucaristia, que traduz a transdência absoluta do Criador para a imanência contingente da criatura. E, de forma absolutamente singular, essa concepção, como notou Pascal, foi o que impeliu o espírito humano a observar sua profundidade ontológica sob uma perspectiva iminentemente semântica.
Quando Shakespeare, por exemplo, descobre a imagem da "incorporação" (Na peça "Sonho de uma Noite de Verão") para descrever a presença genérica do conteúdo na forma e do sentido no ato, sua poesia estabelece uma analogia direta com a "presença real" da transubstanciação eucarística. Como nenhum outro acontecimento em nossa história espiritual, o postulado da kenosis de Deus por intermédio de Cristo e de sua ininterrupta presença na hóstia e no vinho sacramentais, condiciona, num nível bastante profundo, toda concepção estética.
Antes de Pascal e Shakespeare, São Tomás de Aquino já havia notado que graças à transubstanciação do supremo mistério da presença divina e de sua concreção numa forma exterior (a da eucaristia), o homem podia e devia imprimir um significado ao sensorial. Pois Deus, ao se revelar e participar de nossa condição física, concedeu-nos a dignidade de participarmos e revelarmos sua divindade. Com efeito, já não há interdição ao símbolo, e obsoletos são os anátemas do "Êxodo" e da "República" de Platão.
O ingenium do artista que concebe formas, o processo de imprimir significação à matéria bruta e o poder das artes e da literatura para produzirem imagens, transformam de fato a ficção numa figura veritatis, uma figuração da verdade. É essa semiótica do signo, essa materialidade do imaterial, consentida na encarnação do verbo e confirmada na transubstanciação da hóstia e do vinho, que reforça as singularidades da experiência estética com suas funções de verdade ficcional.
Toda criação verdadeiramente artística ou literária abriga uma "presença real". Como o Cristo na eucaristia, a persona engendrada por um escritor (ou pintor, ou escultor, ou compositor) pode ser perene e onipresente. Nenhuma temporalidade diminui as urgentes indecisões de Hamlet, o heroísmo patético de Dom Quixote ou o cinismo de Brás Cubas. O coelho de Alice no País das Maravilhas continua a correr atravessando os séculos. O autor às vezes é esquecido, mas a sua personagem pode sobreviver muito além da localidade e da língua em que foi criada, pois traduzir é transubstanciar. O grego de Homero e o aramaico dos evangelhistas já não é falado hoje, porém Aquíles e os convidados da Última Ceia continuam revigorando cada vez mais sua presença inextinguível.
Habitamos mundos de linguagem (como queria Heidegger) ou jogos de linguagem (como queria Wittgenstein) de um modo tão multifacetado e íntimo que nossa própria sensação de ser é, fundamentalmente, estética. É algo que se torna "sensível", nas condições mais abrangentes deste termo, por meio de uma transubstanciação. Ouvir uma música, admirar um quadro ou ler um livro é o mesmo que comungar: participamos de uma transcendência em tom menor. Não à toa, Oscar Wilde, depois de convertido, dizia que quando lemos realmente, quando a experiência é a descoberta do significado, agimos como se o texto (a peça de teatro ou uma escultura) encarnasse a presença real de um ente significante. Ser habitado pela música, pela arte, pela literatura, tornar-se capaz de reagir a tais hospedagens como anfitrião - ainda que inesperado - é ter a simples experiência eucarística.
Cada frase, verso, parágrafo, página, livro, pintura ou canção tem o efeito comunicador das partículas sacramentais, podendo expandir seu significado no tempo e no espaço a todos aqueles que seu autor não viu nem conheceu, simplesmente por não terem ainda nascido.
O agente épico, cêncio ou ficcional possuem uma vitalidade, uma densidade, isto é, uma presença tão real que supera, com frequência, a de qualquer ser vivo.
Portanto, só a articulação dos três campos semânticos em torno da sagrada eucaristia - o teológico, o filosófico e o poético - pode assumir a sua mais orgânica coesão. E fique dito, mas bem dito, que colocar isso em texto não representa nenhuma tentativa de proselitismo religioso ou de exercício filológico, por mais legítimos e férteis que sejam. Representa apenas uma oportunidade para medir com a maior precisão possível nossa distância de um centro perdido e a extensão das sombras projetadas por nosso atual crepúsculo laico - embora certamente tais sombras anunciem um dia novo, anunciem aquilo que Dante teria batizado de uma "Vita Nuova".

5 comentários:

helentry disse...

"Ser habitado pela música, pela arte, pela literatura, tornar-se capaz de reagir a tais hospedagens como anfitrião - ainda que inesperado - é ter a simples experiência eucarística."
Sei bem do que fala aqui. Numa comunidade alguém, Luciana Pessanha, perguntou se Teologia e Literatura teriam uma relação. Acho que seu texto expressa de forma magistral as respostas que ela procurava ou nos levava a refletir sobre.
Minha comunhão não foi completa.Cabe um mês de estudo, ou mais, para seu completo entendimento. Mas, costumo ter sensações de comunhão ao ler grandes poetas, grandes romancistas.da comunhão , ando afastada, não aceitria estar em metades. Abraços e parabéns!

O Bibliotecário disse...

C. S. Lewis, o santo protestante por quem tenho mais devoção, dizia que toda a produção estética do homem é expressão de trancendência, e mais do que teologia há uma religiosidade implícita em todas as formas de arte. Vc sabe bem disso, afinal seu blog "Religa".

helentry disse...

Obrigada, Chris.Visitar vc é sempre uma aula! bjs.

DIARIOS IONAH disse...

quanta sapiencia......
e quanto tempo ainda o mundo vai continuar na escuridão desta luz?

O Bibliotecário disse...

Excelente pergunta, caríssima!... Bem, segundo São João "Ele era luz verdadeira que ilumina todo homem... Estava no mundo e o mundo foi feito por meio dele, mas o mundo não reconhceu". (Jo. 1:9-10)
Mas, quanto a isso, São Platão, lá do outro lado mediterrâneo, já havia predito:"E uma vez avistada a Luz, se compreenderá que é para todos, pois a todos criou... Temem porém que tal Luz lhes passe despercebida, tão acostumados estão à escuridão." (A República, Livro VII - 517.a)