quarta-feira, 13 de junho de 2007

Mais do que um poeta: uma literatura!


É raro um país e uma língua adquirirem quatro grandes poetas em um só dia, mas foi precisamente o que ocorreu em Lisboa a 13 de jnho de 1888. Nesta data, dia de Santo Antônio, nascia Fernando Antônio Nogueira Pessoa, o maior poeta da língua portuguesa, e um dos maiores do século XX. Não duvidem, seu gênio era tão grandioso que foi incapaz de expressá-lo sozinho. E, além de grandioso, foi precoce: aos seis anos, após a morte do pai e do irmão caçula, Pessoa começou a inventar "heterônimos" — "personas" imaginárias para povoar um "teatro íntimo do eu". O garoto já trocava cartas com um correspondente fictício. Sua mãe casou-se novamente, e a família mudou-se para Durban, África do Sul. No Natal veio à luz um certo Alexander Search, invenção para quem Pessoa criou uma biografia, traçou o horóscopo e em cujo nome calmamente translúcido escreveu excelente poesia e prosa em língua inglesa, o que lhe valeu um prêmio da família real. Seguir-se-iam outros 72 personagens em busca de um autor. De início, eles tendiam a escrever na esteira de Shelley e Keats, de Carlyle, Tennyson e Browning.
Quando, porém, a poesia de Walt Whitman chegou aos ouvidos de Pessoa, seu gênio manisfestou-se e fez com que ele deixasse de ser poeta para se tornar uma sociedade de poetas invisíveis. A fissão em incandescência quadri-partida teve lugar num dia de março de 1914, e até hoje permanece um dos fenômenos mais notáveis da história da literatura. Ao rememorar o fato (numa carta de 1935), Pessoa fala de um "êxtase cuja natureza não conseguirei definir (...) aparecera em mim o meu mestre: Alberto Caeiro!..." Mas Caeiro não saltara à existência sozinho. Viera acompanhado de dois discípulos principais. Um era Ricardo Reis, o pomposo e clássico; o outro: "Bem, de repente, em derivação oposta à de Ricardo Reis, surgiu-me impetuosamente um novo indivíduo. Num jato, e à máquina de escrever, sem interrupção nem emenda, surgiu a "Ode Triunfal" de Álvaro de Campos — a Ode com esse nome e o homem com o nome que tem. Surgiu, então, uma "coterie" inexistente. Convidei todos à realidade. Graduei as influências, conheci as amizades, ouvi, dentro de mim, as discussões e as divergências de critérios, e em tudo isto me parece que fui eu, criador de tudo, o menos que ali houve. Parece que tudo se passou independentemente de mim. E parece que assim ainda se passa".
Pseudônimos, "noms de plume", anonimato e toda forma de máscara retórica são tão velhos quanto a literatura. Os motivos são muitos. Eles se estendem desde a escrita política clandestina à pornografia, desde o ofuscamento brincalhão a sérios distúrbios de personalidade. Entretanto o caso de Pessoa permanece sui generis. Ele não tem nenhum paralelo próximo, não apenas por causa de sua estrutura quadri-partida, mas também por diferenças mercantes entre suas quatro vozes. Cada uma tem sua própria biografia e físico detalhados. Caeiro é loiro, pálido e de olhos azuis; Reis é de um vago moreno mate; e "Campos, entre branco e moreno, tipo vagamente de judeu português, cabelo, porém, liso e normalmente apartado ao lado, monóculo", como nos diz Pessoa. Caeiro quase não dispôs de educação e vive de pequenos rendimentos. Reis, educado num colégio de jesuítas, é um médico auto-exilado no Brasil desde 1919, por convicções monárquicas. Campos é engenheiro naval e latinista.
O inter-relacionamento dos três, seja na atitude ou no estilo literário, é de uma densidade e sutileza intrigante, a exemplo de seus vários laços de parentesco com o próprio Pessoa. O Caeiro em Pessoa faz poesia por pura e inesperada inspiração. A obra de Ricardo Reis é fruto de uma deliberação abstrata, quase analítica. As afinidades com Campos são as mais nebulosas e intricadas. "É um semi-heterônimo porque, não sendo a personalidade a minha, é, não diferente da minha, mas uma simples mutilação dela. Sou eu, menos o raciocínio e a afetividade".
Campos era abusado e encrenqueiro, costumava escrever desaforadas para os amigos de Pessoa, e uma vez quase acabou seu noivado com a bobinha Ofélia.
O poeta e prêmio nobel OctavioPaz via Caeiro, Reis e Campos como "os protagonistas de um romance que Fernando Pessoa jamais escreveu". Pessoa não é entretanto "um inventor de poetas-personagens, mas um criador de obras de poetas", argumenta Paz. "A diferença é crucial". As biografias imaginárias, as anedotas, o "realismo mágico" do contexto histórico-político-social em que cada máscara se desenvolve são um acompanhamento, uma elucidação para os textos. O enigma da autonomia de Reis e Campos é tal que, vez por outra, eles chegam a tratar Pessoa com ironia ou desdém. Caeiro, por sua vez, é, como vimos, o mestre cuja brusca autoridade e salto para a vida generativa desencadeiam todo o projeto dramático. Paz distingue com admiração estes fantasmas animados, e diz que do jogo espectral dos heterônimos emerge uma poesia de primeira grandeza. Não atoa ele foi incluído entre os 20 principais escritores do canône ocidental pelo crítico americano Harold Bloom.
Jorges Luis Borges era tão fascinado por esses poetas imaginários que chegou a escrever-lhes cartas, que, obviamente, nunca foram respondidas. E Ítalo Calvino, num ensaio magnífico, brincou com a suposição de que na verdade era Fernando Pessoa o poeta imaginário criado pelos os outros três.
José Saramago foi ainda mais ousado, e no romance "O Ano da Morte de Ricardo Reis" nos conta como foi o dia em que Reis encontrou-se com o fantasma do seu criador, que já havia falecido há 16 anos. Pra mim é o melhor livro do Saramago, pois depois dele nada mais perceptivo foi escrito sobre Pessoa e suas sombras contrastantes. Uma homenagem merecida para quem em vida jamais foi reconhecido.
Fernando Pessoa morreu aos 47 anos, no dia 30 de novembro de 1935, em decorrência do alcoolismo. Dizem que, além da ex-noiva Ofélia e do poeta Mário de Sá Carneiro, quase ninguém acompanhou o enterro. Dias depois, Sá Carneiro escreveu uma nota num jornal de Lisboa dizendo que o maior poeta da língua portuguesa havia descido num caixão para a eternidade sem que ninguém soubesse quem ele era.

3 comentários:

flordelys disse...

Eis aí um luxo! Ler Pessoa é puro prazer!Mexe com os sentidos! falar de Pessoa , não tem preço!rsrr Ler comentários tão inteligentes sobre ele também! Parabéns! Mas há um comentário de Octávio Paz que mais me encheu de prazer: o romane que Ferando Pessoa poderia ter escrito.Tenho faz tempo esta idéia na cabeça! defenderia uma tese com ela. Pessoa viveu este romance.Pena não tê-lo publicado, como romance! Só nos deixou seus rastros...Admiro suas informações e comentários. Meu heterônimo preferido, além de Pessoa, Alberto Caeiro.

DIARIOS IONAH disse...

SEU BLOG, CRISTIANO EH MUITO BOM!
ADOREI TER LIDO TODOS ESTES TEXTOS QUE NOS PROPORCIONA.
CREI QUE EH O MELHOR BLOG DE TEXTOS QUE CONHECO.

O Bibliotecário disse...

Meninas, mas uma vez obrigado pela presença e pelos comentários. Vcs são uns amores.
Flordelys, eu tb prefiro o Caeiro!

Tamar, e o seu é o mehor blog de fotografias que eu conheço.