quinta-feira, 16 de agosto de 2007

Loser


Por minha vontade, Charles Bukowski não figuraria neste blog. Não porque não goste dele, mas porque ainda não tenho certeza se era realmente um escritor. Escrever, ou melhor, viver da escrita não implica necessariamente no ofício de escritor. Há inúmeras variantes, como escrivão, por exemplo. Bukowski, ou simplesmente Buk, não era uma coisa nem outra. O que era então? Um loser, um perdedor!... Mas um perdedor espertalhão, que escrevia estória de perdedores para entretenimento de outros perdedores. Eis tudo.
Feito este breve desabafo, o que mais pode ser dito? Muita coisa!... Ninguém obtém fama à toa, mesmo que seja má fama. E embora seja um escritor mixuruca, Buk se fez ouvir por algum motivo, ou por algum talento. Qual?
A resposta talvez esteja na trajetória de vida do escritor.
Charles Bukowski veio ao mundo no dia 16 de agosto de 1920. Alemão de Andernach, mudou-se para os EUA com 3 anos de idade, e cresceu em Los Angeles - cidade de anjos decaídos onde conheceria as zonas devassas do inferno terrestre e haveria de ficar conhecido pelo diminutivo Buk. Coincidência ou não, “Buk” rima com “puke” (vomitar), coisa que, de copo em copo, o escritor fazia constantemente, até ao momento em que decidiu escrever para se distrair dos vícios (distrair, não se livrar!). E a mesma cidade que lhe proporcionou os vícios, haveria de dar-lhe a matéria-prima literária, com suas ruas onde deambulam as putas, os ladrões e os vagabundos, cuja voz e perspectiva ele iria assumir. Isso já diz muito, pois numa época de exaltação ao fracasso, à mediocridade e à vulgaridade, ou seja, no ápice da contracultura do século XX, uma figura assim não passaria despercebida. Com efeito, Bukowski tornou-se a voz de todos os perdedores, aquela lôbrega estirpe de que geralmente não se fala nos filmes e literatura highbrow. Desde os bairros onde gangues controlam o submundo e guerreiam entre si, até os caipiras perdidos e sem esperança. Passando pelos falsos brilhantes da sociedade de aparências de Hollywood. Ele fez um retrato rápido, fiel e cruelmente imparcial da casta dos losers. Sua prosa rivaliza com as ruas e bares fétidos que freqüentava. O odor se espalha pelas páginas de seus livros e poemas, e, décadas depois, a fetidez ainda atrai muitos outros losers que, como uma nuvem de moscas, nele encontra o seu habitat. Os diálogos são rápidos, não existem grandes dissertações e nem julgamentos – duas coisas ininteligíveis para um publico entorpecido! Bukowski apresenta tudo sob uma ótica maldosa e ácida, porém interessada. A informalidade dessa escrita e a recusa em optar por uma literatura mais convencional transformou-o, nesta época de linguagem demótica, num autor de culto, amado pelos mesmos leitores de Jack Kerouac, Allen Ginsberg ou William S. Burroughs. E apesar de o nome Bukowski nunca ter sido associado à “beat generation”, há quem o considere um escritor “beat” honorário. Pra mim ele é mais do que isso, é a conseqüência literária direta da geração beat (que para sempre maldita seja!). Apesar de tudo, eu nunca me convenci, ou melhor, ele nunca me convenceu acerca de sua arte – se é que podemos assim chamá-la. Não acredito que uma literatura possa se sustentar por muito tempo baseada apenas nos frágeis pilares da conduta pessoal e das digressões do seu autor. Seria preciso ser um Joyce pra me convencer disso, aliás, nem ele!... Buk que era um genérico de Edward Bunker estava como este infinitamente aquém de Joyce.
Creio que por isso o impecável Truman Capote, num debate travado contra Norman Mailer na tv, declarou que a geração beat (e congêneres: Charles Bukowski!) não sabia escrever, apenas datilografar!...
Eu não vi esse debate (acho que ainda não era nascido), mas dizem que Norman Mailer não ousou replicar. E assim, para sempre, a escrita dos losers ficou confinada ao umbral que existe entre os escritores e os escrivães.

2 comentários:

Anônimo disse...

Enfim percebo que você não gosta de um escritor, de um escritor você ñ gosta: Bukowski. ÊH, parabens. rsrsrsr!!! Brincaderinha, eu entendo você, deliciar-se com Herculano vá lá, a gente até entende, agora Bukowski, ninguém merece, assim não pode, assim não dá.rsrs

Nunca li nada desse cara, e talvez jamais leia. ora, com uma publicidade dessas tb. Vejo bastante seus livros, são daquela coleção da p&ml pockts, parece-me que são mais de vinte. Já ouvi falar dele, aliás uma certa vez assiti naquele programa sem censura, um programa da tve, a filha de Dias gomes que também escrevia e que estava lançando um livro, falar que pra escrevê-lo leu bastante Bukowski. "No livro conto uma história sem filtro" dizia ela.
Como nunca li nada dela (nem do pai), e nem do bukowski, fica p/ mim uma coisa interesante: a certeza de que
às vezes o escritor é ruim sem ser lido.
Emerson Coelho

flordelys disse...

Christiano, você armou uma cilada sobre Bukowski: escreveu um texto colacando seus escritos em dúvida como literários, mas postou um belíssimo poema sobre solidão humana! Parabéns!