sexta-feira, 10 de agosto de 2007

Coronel Sensualidade!


Jorge Amado foi o primeiro escritor brasileiro a obter fama internacional, donde se deduz que não era tão bom quanto se imaginava nem tão mau quanto se queria. Digo isso, obviamente, porque até hoje não consegui gostar de sua obra, e tampouco não gostar. Minha consideração por tal obra é - como ela própria - cheia de altos e baixos, coisa que certamente não diminui seu mérito.
Entre outras coisas, a fama de Jorge Amado se deve primeiramente à época em que foi escrita. Assim como Paulo Coelho (seu admirador confesso) que despontou em meio ao fascínio esotérico do final do século XX, Amado surgiu na crista da onda comunista que encharcou a primeira metade desse mesmo século.
Era o começo de uma carreira promissora, e como todo começo teve um desempenho bastante discutível, apesar de notório. Quem lê seus primeiros romances, como Pais do Carnaval, logo se depara com um escritor panfletário, que fazia de sua escrita uma arma política social descaradamente tendenciosa, pura propaganda. São também livros cheios de falhas devido ao desinteresse pela composição, e ao abuso de uma poesia barata. Os primeiros sinais de mudança, ou evolução, surgem em “Terras do Sem-Fim”. Mas há uma descaída em “Seara Vermelha” e em “Os Subterrâneos”, para só depois, e finalmente, aparecer um escritor novo, na plena posse dos seus dons, menos engajado e menos preso a preconceitos e partidarismos. E em compensação impregnado de bondade e lirismo. É quando surge “Os Pastores da Noite”, “Dona Flor e Seus Dois Maridos”, “Gabriela Cravo e Canela”, “Tieta do Agreste”, “Teresa Batista” e “Tenda dos Milagres” (meu predileto).
Creio que Jorge Amado, assim como Garcia Márquez, acabou percebendo que em geral (e creio que haja poucas exceções a essa tendência), o talento dos grandes criadores de seu tempo insistia no testemunho do destino trágico dos homens, explorando os sombrios abismos nos quais poderia despencar. E como o explicou Bataille, a literatura representou principalmente "mal" a vertente mais destrutiva e acre do ser humano. Talvez isso explique porque Jorge Amado acabou reavaliando seus propósitos e decidiu exaltar o reverso dessa medalha, ou seja, a cota de bondade, alegria peculiar e grandeza esplêndida que a existência também contém, e que, em seus romances, feitas bem as contas, termina sempre vencendo a batalha em quase todos os destinos individuais. Não sei se essa concepção é mais justa, digamos, que a de um Faulkner ou de um Onetti, que são seu oposto. Mas, graças a essa macumba de consumado escritor e à convicção com que fantasia em suas histórias, não havia dúvida de que Jorge Amado seria capaz de, com ela, seduzir milhões de leitores mundo.
Só isso pode explicar sua fama. Em suas estórias todas as desventuras do mundo não bastam para dobrar o desejo de sobrevivência, a alegria de viver, o engenho brincalhão para dar a volta por cima do infortúnio, que animam seus personagens. O amor pela vida é tão grande neles que são capazes, como ocorre à excelente dona Flor e seu marido defunto, de ressuscitar os mortos e restituí-los a uma existência que, com todas as misérias que ela implica, está repleta de momentos de prazer e felicidade. Esse desfrute dos pequenos prazeres, ao alcance do ser anônimo, que vibra em quase toda a sua obra — saborear um copo de cerveja gelada, uma gostosa conversa, contar uma piada espirituosa, elogiar um corpo desejável que passa, cultivar amizade fraterna, ver uma ave que rasga o céu imutável — é intenso e contagia os leitores, que costumam sair dessas páginas convencidos de que, sejam quais forem as ruins circunstâncias em que se vive, sempre haverá na vida humana um lugar para a diversão e outro para a esperança.
Portanto, embora haja uma ou outra coisa datada, ainda pode e merece ser lido.

2 comentários:

Fernando disse...

Muito bom!

O Bibliotecário disse...

Ficará melhor com a sua participação. Seja bem-vindo e volte sempre!