quinta-feira, 31 de maio de 2007

O Cantor de si Mesmo


No dia 31 de maio de 1819, a Sra. Louisa van Velsor, piedosa e respeitável membro da comunidade quacker de West Hills, de Long Island nos Estados Unidos, deu a luz ao menino que conduziria a poesia ocidental à modernidade, encontrando no viver do homem comum temas dignos de belos versos... livres. O que faz Homero para a Grécia, Virgílio para Roma, Dante para a Itália, Shakespeare para a Inglaterra e Goethe para a Alemanha, iria fazer Walt Whitman para a jovem América.
Gênio precoce, ele abandou os estudos na adolescência para encontrar na escola da vida o material humano de que precisava para se expressar e semear a poesia do futuro. Antes disso, porém, foi moleque de recados em escritório de advocacia, tipógrafo, professor primário, assistente editorial de Edgar Allan Poe, jornalista freelancer, especulador imobiliário, funcionário público, conferencista, defensor da mulher, polêmico pregador evangélico, enfermeiro de guerra, militante da democracia e ativista gay. E todas estas coisas, fé, democracia, guerra, capitalismo, feminismo e homoerotismo estão presentes em sua originalíssima obra poética, onde não há nenhuma nuança de pompa ou verbosidade, mas substantivos e adjetivos viris, verbos brutais, expressões tomadas das ruas e dos campos. E também o inusiado da forma: nada de rimas, nenhum metro ou ritmo regular, apenas os naturais da respiração ou dos ventos do mar.
Não é de admirar que tudo isso, em todos os aspectos, fosse considerado um escândalo.
Mas Whitman era a ousadia em pessoa, e quando todos viraram-lhe as costas com asco e soberba, ele, ao invés de se calar, aliou-se a outro escandaloso e polêmico literato: Oscar Wilde!... O oceano separava os dois, todavia não foi empecilho para que um dia se encontrassem e, em público, trocassem elegios e um beijo de língua. A literatura de língua inlgesa ficou de cabelo em pé.
Apesar disso, Whitman dividia opiniões, e era amado e odiado na mesma proporção. Queria ser a voz dos excluídos, um grito, um protesto, um manifesto, por isso escreveu a "Canção de Mim Mesmo", um poema imenso, onde canta a tudo e a todos. E mesmo chocando, conseguiu abrir um caminho por onde, futuramente, passariam Baudelaire, Emerson, Hart Crane, T. S. Eliot, Federico García Lorca, Luis Cernuda, Fernando Pessoa, Jorge Luis Borges, Elizabeth Bishop, Sylvia Plath, Paulo Leminsk, Bob Dylan e muitos outros. Até Bram Stoker, criador do Drácula, era seu admirador e correspondente.
O curioso é que toda a sua poesia está complida num único livro, The Leaves of Grass (As Folhas da Relva) , que ele escreveu, corrigiu, reescreveu e recotocou infatigavelmente milhares de vezes ao longo de 40 anos. Só parou quando morreu. E eme meio a essas folhas encontramos, além da "Canção de Mim Mesmo", a deslumbrante poesia de "A Última vez que Lilases Floresceram à Porta", de "Os que Dormem" e da "Travessia da Barca do Brooklyn".
Eu, particurlamente, gosto muito de "Os que Dormem", por ser o registro de uma caracterista de Whitman que poucos reparam ou comentam, ou seja, a sua bondade. Para além, ou aquém, do Whitman genial, libertário, militante, inovador e gay, existia um Whitman imensamente humano, bastante sensível ao sofrimento alheio, que, durante a terrível Guerra Civil Americana, trabalhou voluntariamente socorrendo suas vítmas. Dizem que ele chegava nos hospitais como um Papai Noel disfarçado, com sua enorme barba de neve, trazendo brandy e sorvete, livros e cigarros, canetas e papel, afim de escrever cartas para os incapazes. E os curava: com sua presença, sua compaixão e, sobretudo, com seus poemas. De quantas outras figuras de santo dispomos na literatura? Eu não sei.
Só sei que nos EUA, Whitman continua sendo amado e odiado. Leaves of Grass ainda se encontra banida dos currículos escolares por razões de censura moral, contudo é a obra mais lidas e estudada em termos de investigação universitária. Muito dessa poesia foi citada no filme Sociedade dos Poetas Mortos, o que reacendeu o interesse do grande público. E eu lembro que, em 2004, New York comemorou os 150 anos de sua publicação.

Walt Whitman parace que é moderno até para nosso tempo.



4 comentários:

flordelys disse...

dorei as informações sobre o poeta e sua visão. Vi Sociedade dos Poetas Mortos e tive curiosidade sobre este grande poeta, que você parce amar tanto.As pessoas mais sensíveis nem sempre são entendidas pelas ditas 'normais", mas, sem elas, o mundo parece não caminhar. Muito bom o retrato que nos fez do poeta. Vou lê-lo com mais freqüência!

Eloisa disse...

Para acrescentar informações importantes ao blog , coloco aqui o que descobri motivada por sua leitura.
Cordel para Walt Whitman

Por Gustavo Dourado


"Ó Capitão! meu Capitão!":
Flui a Whitmania...
Folhas de Relva no tempo
Prima-obra da poesia
Sexo e verso livre:
Natureza e alchemia...

1819 - 31 de maio
Walt Whitman nasceu
West Hills...Long Island
Em New York aconteceu
O poeta veio ao mundo :
Boa poesia floresceu...

Filho de Walter e Louisa:
Em West Hills viveu
1820 - 1823...
O bom menino cresceu
Para o Brooklin se mudou:
Foi assim que sucedeu...

Freqüentou escola pública
Trabalhou em escritório
De direito e medicina...
Exercício em consultório
Ofício de tipografia:
Poeta premonitório...

No Mirror, em New York:
Trabalhou em jornalismo
Foi professor em Suffolk
Vertente do criticismo
Precursor dos beatniks:
Na terra do Capitali$mo...

Aulas em escolas agrícolas
No Queens, Walt lecionou
Em três anos de ensino
Ao saber inspecionou
Deus asas à poesia:
Belo sonho transmutou..

The Long Islander publica:
Importante semanário
Em Hungtington editou
O seu hebdomadário
Versos que agora ficam:
No Webdomadário...

Ano 1840:
Whitman é eleitor
Em New York City:
Jornalista e editor
Atua em periódico:
Demonstra o seu valor...

Escreve no New World
Dinâmica colaboração
Dirige o Brooklin Daily
Em permanente atuação
Tira pedras do caminho:
Busca a transformação...

Deu início à jornada:
A sua grande viagem
Tem Jeff por companhia
Prepara sua mensagem
Do Ohio ao Mississipi:
Consolida a sua imagem...

De Alleghenies a New Orleans:
Caminhada e jornalismo
Redator-Chefe do Crescent:
Atua em Periodismo...
The Freeman no Brooklin:
Vate ás em dinamismo...

Pelas estradas da vida
Poeta inovador
Constrói casas para o povo
Hábil empreendedor
Difunde a sua arte:
Renova o ato criador...

Eleição americana:
Van Bauren pra presidente
Delegado em convenção
Representa a sua gente
Faz poesia na política:
É poeta trancendente...

Ano 1855:
A grande publicação
Folhas de Relva opúsculo
Tem a primeira edição
12 poemas de primeira:
Em tempos de evolução...

Vive um bom momento:
Novo círculo cultural
Cultiva idioma nativo
Busca essência nacional
Whitman é um destaque
Na poesia universal...

Em 1855:
Do pai o falecimento
Reforça a sua língua
Renova o pensamento
Transcende a poesia:
Dinamiza o sentimento...

O livro Folhas de Relva
Ganha nova edição
384 páginas
De boa elaboração
Poesia elevada:
Pra se ler com atenção...

Em 1857:
É nomeado redator
No Brooklin Daily Times
Expressa o ato criador
Combate as injustiças:
Que trazem tristeza e dor...

Destoou da maioria
Criticou o meretrício
O comércio do amor
É o mais antigo vício
Atacou as falcatruas:
Os ilegais do ofício...

Em 1860
A terceira edição
Folhas de Relva em alta
Tem nova publicação
456 páginas
De arte e criação...

A Guerra de Secessão
Traz a dor e sofrimento
Ano 1861
É um tempo de tormento
No dia 13 de abril:
A morte faz movimento...

Ano 1862
Em batalha crucial
Enfermeiro por bom tempo
Bela ação social
Muito tempo trabalhou:
Para sanar tanto mal...

Em 1865
Ocorre a rendição
Lee em Appomatox
Estanca a revolução
O conflito chega ao fim:
É tempo de união...

Depois da luta renhida
De ato contraditório
O poeta vai à luta
Trabalha em escritório
Enfermagem e poesia
Escrita e consultório...

Folhas de Relva de novo
Conquista publicação
"O rufar do tambor"
Sai em nova edição
Poesia de alto nível
Pra falar ao coração...

Ano 1868:
Whitman em alemão
O poeta Freiligrath
Inova na tradução
Em jornal de Augsburg
Publica sua versão..

Publica Democratic Vistas:
Whitman em movimento
Folhas de Relva reedita
Renovação do pensamento
Surge em 5ª edição:
Folhas de Relva ao vento...

Em 1873:
Sofre de paralisia
O malefício o ataca
Não esquece a poesia
Na cidade de Washington:
A dor prende a alegria...

Paralisado pela dor
Não perde a sua essência
Busca praias no Atlântico
Em teste de paciência
Reside na Filadélfia
Em tempos de penitência...

Whitman em turbulência:
Em New Jersey foi morar
Residência em Camden:
Por 15 anos seu lar
Permaneceu até a morte:
Folhas de Relva no ar...

Escreve "Two Rivalets":
Mistura prosa e poesia
Folha de Relva reedita
Fez obra de alquimia
Poética do sentimento:
Luzes da filosofia...

Osgood & Co., Boston:
Faz a sétima edição
O livro Folhas de Relva
Em nova publicação
O poeta ganha fama:
Junto à população...

Oitava edição do livro
Na Filadélfia é publicada
Por ato de David MacKay
A obra é editada
Folhas de Relva é:
Grande obra consagrada...

Publica Specimen Days:
Em prosa do dia-a-dia
O poeta é resistente
Contra a paralisia
A escrita o anima:
Faz autobiografia...

Ano 1884:
Uma casa adquiriu
Mickle Street, 330
Whitman lá residiu
Camden, New Jersey:
À poesia ele serviu...

Ano 1888:
Não consegue mais andar
November Boghs no prelo
Pronto para editar
Um livro de prosa e verso:
Aos 70 a publicar...

Ano 1891:
Revê a nona edição
Folha de Relva, um marco:
Poesia em transmutação
Obra revolucionária
De um gênio da criação...

Ano 1892:
Foi grande a emoção
Dia 26 de março
Parou o seu coração
Foi-se nas folhas da relva
Para a quinta dimensão...

"Mude-me de posição, Warry":
Walt Whitman proferiu
Em Camden desencarnou
Seu espírito só.sorriu
Foi-se para outros mundos:
Seu uni.verso se expandiu...

Eloisa disse...

Chris, desculpe mas não resisti ...Usar este cordel emprestador rsrsr foi o que de melhor pude fazer para ajudar a homenagem tão justa que você prestou ao grande poeta. Seu blog e suas palavras no blog da Mente da mulher muito tem me enquecido. Muito obrigada! Parabéns!

O Bibliotecário disse...

Se todas as bibliotecas tivessem frequentadores tão interessantes, e inteligentes, e phenos, e tudo como esta biblioteca virtual, o munod seria bem outro.
Essa garotas me enchem de orgulho!

Elô (oh a intimidade!) onde vc encontrou esse cordel sofisticadíssimo? Adorei! Fala de outros autores? Quero saber.

Voltem sempre!