
No dia 31 de maio de 1819, a Sra. Louisa van Velsor, piedosa e respeitável membro da comunidade quacker de West Hills, de Long Island nos Estados Unidos, deu a luz ao menino que conduziria a poesia ocidental à modernidade, encontrando no viver do homem comum temas dignos de belos versos... livres. O que faz Homero para a Grécia, Virgílio para Roma, Dante para a Itália, Shakespeare para a Inglaterra e Goethe para a Alemanha, iria fazer Walt Whitman para a jovem América.
Gênio precoce, ele abandou os estudos na adolescência para encontrar na escola da vida o material humano de que precisava para se expressar e semear a poesia do futuro. Antes disso, porém, foi moleque de recados em escritório de advocacia, tipógrafo, professor primário, assistente editorial de Edgar Allan Poe, jornalista freelancer, especulador imobiliário, funcionário público, conferencista, defensor da mulher, polêmico pregador evangélico, enfermeiro de guerra, militante da democracia e ativista gay. E todas estas coisas, fé, democracia, guerra, capitalismo, feminismo e homoerotismo estão presentes em sua originalíssima obra poética, onde não há nenhuma nuança de pompa ou verbosidade, mas substantivos e adjetivos viris, verbos brutais, expressões tomadas das ruas e dos campos. E também o inusiado da forma: nada de rimas, nenhum metro ou ritmo regular, apenas os naturais da respiração ou dos ventos do mar.
Não é de admirar que tudo isso, em todos os aspectos, fosse considerado um escândalo.
Mas Whitman era a ousadia em pessoa, e quando todos viraram-lhe as costas com asco e soberba, ele, ao invés de se calar, aliou-se a outro escandaloso e polêmico literato: Oscar Wilde!... O oceano separava os dois, todavia não foi empecilho para que um dia se encontrassem e, em público, trocassem elegios e um beijo de língua. A literatura de língua inlgesa ficou de cabelo em pé.
Apesar disso, Whitman dividia opiniões, e era amado e odiado na mesma proporção. Queria ser a voz dos excluídos, um grito, um protesto, um manifesto, por isso escreveu a "Canção de Mim Mesmo", um poema imenso, onde canta a tudo e a todos. E mesmo chocando, conseguiu abrir um caminho por onde, futuramente, passariam Baudelaire, Emerson, Hart Crane, T. S. Eliot, Federico García Lorca, Luis Cernuda, Fernando Pessoa, Jorge Luis Borges, Elizabeth Bishop, Sylvia Plath, Paulo Leminsk, Bob Dylan e muitos outros. Até Bram Stoker, criador do Drácula, era seu admirador e correspondente.
O curioso é que toda a sua poesia está complida num único livro, The Leaves of Grass (As Folhas da Relva) , que ele escreveu, corrigiu, reescreveu e recotocou infatigavelmente milhares de vezes ao longo de 40 anos. Só parou quando morreu. E eme meio a essas folhas encontramos, além da "Canção de Mim Mesmo", a deslumbrante poesia de "A Última vez que Lilases Floresceram à Porta", de "Os que Dormem" e da "Travessia da Barca do Brooklyn".
Eu, particurlamente, gosto muito de "Os que Dormem", por ser o registro de uma caracterista de Whitman que poucos reparam ou comentam, ou seja, a sua bondade. Para além, ou aquém, do Whitman genial, libertário, militante, inovador e gay, existia um Whitman imensamente humano, bastante sensível ao sofrimento alheio, que, durante a terrível Guerra Civil Americana, trabalhou voluntariamente socorrendo suas vítmas. Dizem que ele chegava nos hospitais como um Papai Noel disfarçado, com sua enorme barba de neve, trazendo brandy e sorvete, livros e cigarros, canetas e papel, afim de escrever cartas para os incapazes. E os curava: com sua presença, sua compaixão e, sobretudo, com seus poemas. De quantas outras figuras de santo dispomos na literatura? Eu não sei.
Só sei que nos EUA, Whitman continua sendo amado e odiado. Leaves of Grass ainda se encontra banida dos currículos escolares por razões de censura moral, contudo é a obra mais lidas e estudada em termos de investigação universitária. Muito dessa poesia foi citada no filme Sociedade dos Poetas Mortos, o que reacendeu o interesse do grande público. E eu lembro que, em 2004, New York comemorou os 150 anos de sua publicação.
Walt Whitman parace que é moderno até para nosso tempo.