
segunda-feira, 31 de dezembro de 2007
quinta-feira, 20 de dezembro de 2007
Oremus...

Para escalar o cume deste dia.
Anunciação
terça-feira, 11 de dezembro de 2007
Solilóquios...

A Perfeição que destrói...

Flaubert era filho e neto de médico e foi, como Dostoievski, criado num ambiente de médicos. Gostava de diagnosticar e receitar, e fascinava-se até a morbidez com o anormal. Seus personagens são pacientes, cobaias – e como bom médico ele termina mandando todos para o outro mundo. Nasceu em Rouen em 1821, e excetuadas três excussões a Bretanha e ao Oriente Médio, permaneceu nesta cidade a vida toda, dedicando a sua mãe um edipiano que o fazia fugir ao casamento. Quando jovem era forte, atlético, vivaz e bastante promíscuo. Mas a sífilis veio juntamente com a epilepsia que derramou-lhe na alma negra melancolia. A consciência destas doenças tornou-o tímido e recluso, embora terrivelmente orgulhoso. Sua extrema sensibilidade fez-se irritadiça; seus amigos só lidavam com ele com grande diplomacia, mas a maior parte o deixou entregue ao azedume e a solidão. Por duas vezes apaixonou-se sem que nada disso resultasse. Enclausurou-se num monasticismo literário, fez-se um solteirão da arte.
Entretanto, muito antes disso, já havia decido ser escritor. E começou cedo, com quinze anos já tinha três romances: A Bela Andaluza, O Baile de Máscaras e O Marido Prudente. Por sorte não os publicou!... “Ah, que prudência tive eu não imprimindo aquilo! Como me envergonharia agora!”... Ele se propusera anos de prática; dia a dia, durante meses, fechava-se no quarto para obstinadamente buscar o estilo mais belo, único, ou seja, a perfeição. E assim trabalhou no silêncio e na solidão; às vezes agarrado a uma página pela semana toda, nunca satisfeito com o que realizava, atordoando-se por casa de um sinônimo adequado, procurando, investigando sempre. Mal comparando, ele era como um desses carpinteiros que derrubam uma floresta para fazer uma gaveta. Com efeito, nessa idade, já havia descoberto a receita da prosa perfeita: “Primeiro, seguir de perto as metáforas; depois não entrar em detalhes alheios ao assunto; trabalhar em linha reta.Condensar o pensamento, remendos de púrpura de nada valem. Criar um tecido fino com a seda e forte como a malha. Nunca repetir na mesma página um adjetivo, nem na mesma frase uma preposição. E, por fim, a frase deve permitir a leitura em voz alta. A frase mal escrita não suporta este teste, pois só está correta quando se harmoniza com todas as necessidades da respiração.”
A perfeição artística, como se pode ver, não lhe veio naturalmente, nem pela inspiração. Foi comprada, e custou caro. A observação de Flaubert tinha sutileza de Sthendal, a descrição tinha abrangência de Balzac; só que Balzac primeiro narra e depois descreve, Flaubert descreve por meio da narração. Cada personagem sua é a um tempo comum e individual, revelando a humanidade inteira através duma única alma. Tomados em conjunto formam um tratado completo da psicologia humana. Nada pode ser mais objetivo, o autor fala do “bem” do “mal” a neutralidade dum coveiro. Escreveu alguns livros e acabou fixando um parâmetro, o maior.
Ironicamente, por tudo isso, o final da sua vida foi amargo. O esforço sobre-humano das composições agravou-lhe a epilepsia, os amigos escritores evitavam-no porque temiam seu julgamento, os parentes morreram. A velhice veio encontrá-lo só, triste, esgotado. “Gostas demais da literatura; isso irá te matar” – foi como a escritora George Sand o advertiu. Ela o sabia, mas não se importava; por que não ser destruído por uma sublime devoção? Flaubert pagou voluntariamente com o preço do seu sangue a grandeza conseguida no céu literário do ocidente. Um sobrinho e também escritor, Guy de Maupassant, disse que “ele deu, desde novo, toda a sua vida às letras e nunca pediu devolução. Gastou sua existência nessa imoderada paixão, passando noites de insônia, caindo de fadiga depois de horas de amor violento, e recomeçando de novo, cada manhã a dar tudo de si à sua amante. Finalmente, um dia, caiu fulminado sobre a escrivaninha, assassinado por ela, pela literatura: assassinado como o são todas as almas grandes – consumido pela paixão que nelas arde.”
Que estas palavras sejam o ponto final.
Da série: correspondência secreta!

Ensaio sobre a Infidelidade

Madame Bovary tornou Flaubert, num momento, famoso e infame. Ele foi levado aos tribunais sob a acusação de “cínica imoralidade”. Contudo, satisfazer o sensualismo do leitor foi coisa que jamais lhe passou pela cabeça, não fora para isso que dedicara seis anos de trabalho àquele livro. Nele apenas descreveu a infidelidade como teria descrito a varíola, desapaixonadamente e sem ênfase. O pasmo não passava de uma reação acidental a uma análise crua e aguda nunca dantes realizada acerca da traição.
O triunfo de Madame Bovary fez mal a Flaubert, porque levou o público a ver-se no espelho; quando esse público percebeu que Flaubert interessava-se mais pela realidade do que pelo entretenimento erótico, abandonou-o – deixando-o entregue aos que ainda eram capazes de suportar a visão de si mesmo.
Em cada detalhe Flaubert vai-nos recriando em seu romance, toda a nossa humanidade está lá. O primeiro tipo, como já esperávamos, é um médico de aldeia, Charles Bovary, imensamente mais real que o virtuoso monstro de Balzac em “O Médico do Interior”; e mais real porque mais medíocre; nada se parece tanto com a vida como a mediocridade. Charles Bovary estabelece-se numa aldeia em que o único rival era o boticário Homais, sujeito manhoso que “curava” ilegalmente e matava menos que Bovary. O médico se queixa; limita-se a exercer sua profissão com diligência só igual a sua incompetência. Vive calmamente e tem a felicidade de não ter história, até que se casa com uma mulher bonita, Ema Bovary.
Ela é o mais complexo e bem acabado retrato da inconstância, da insatisfação e da fraqueza humana. Devoradora de livros românticos e melosos (o equivalente das telenovelas de hoje), Ema atribui e espera do pobre marido as qualidades heróicas e sentimentais que vê nos romances preferidos. Mas, aí, até um Don Juan, é muitas vezes um aborrecimento para sua mulher: depois dum ano ou dois ela conhece todas as idéias do esposo, ouvi-o falar demais, abusou-se dele, boceja antes suas aspirações sem ambição. Pior para Charles, pois do ponto de vista duma mulher a ambição é a maior virtude de um homem. Ele, porém, está contente sendo o que é; cai na rotina em tudo, seja trabalho ou sexo. É quando Flaubert nos diz:
“Suas expansões tornam-se regulares; possui a esposa em dias fixos. Ela era apenas mais um hábito na sua lista de hábitos.”
Ema Bovary sente-se inquieta, arrependida, como poderá suportar aquela vida. Decide então ter um filho, mas ao contrário do que esperava, isso só lhe faz aumentar o tédio. Logo a criança é desprezada. Ema torna-se pálida, com palpitações. Charles receita-lhe valeriana e banhos canforados. Ela quer algo mais. É quando surge Rodolfo, um forasteiro, que diz a Ema o que há um ano Charles esqueceu-se de dizer – que ela é formosa e encantadora. Rodolfo é um cafajeste charmoso, que a seduz com silogismos, aliás supérfluos. Raramente a arte foi tão feliz ao retratar a vulgaridade de uma relação de interesses baratos. Durante meses, Ema e Rodolfo encontram-se secretamente – e tanto amor e paixão ela despejou-lhe em cima, que ele depressa sentiu-se encharcado. Quanto mais ela redobrava de ternura, menos Rodolfo escondia sua indiferença. Ema então propõe uma fuga, ele manda-lhe um delicado bilhetinho e some. Desolada, Madame Bovary procura consolo na religião.
Reza até que um depois surge Leon, um leão de Paris, que lhe conta as glórias da cidade grande de onde acaba de chegar escapando de agiotas. Leon faz tudo na cama, dizendo sempre que “em Paris é assim”. Ema afunda num torvelinho de mentiras e de dívidas para manter esse luxo. Derrama sobre Leon a sua beleza e seus favores; mas novamente constata que os homens destruidores de lares não são tão bons amantes. Leon cansa-se de Ema e Ema de Leon...
“E de novo ela encontra no adultério todas as chatices do casamento”.
Esta é a idéia central do livro, e mais profunda de Flaubert. Por fim, Madame Bovary suplica-lhe que a auxilie no pagamento das dívidas que contraiu para custear a traição; Leon dá no pé e Ema suicida-se. Mas nos últimos momentos abraça o marido e exclama:
“Tu és bom, tu!”...
Eis a tragédia da bondade sem malícia e do amor que morre quando é retribuído demais. Charles Bovary nada sabe das aventuras da esposa; ama-a depois de morta ainda mais do que antes. Reúne suas coisinhas para beijá-las e entesourá-las; entre elas encontra as cartas de Rodolfo e alguns retratos. O choque e a decepção o arrebentam. Seu criado o encontra morto num banco de jardim.
Este desfecho é o único defeito de um livro que estava destinado a banir da literatura e da vida o irreal. Mesmo assim, nunca a infidelidade foi vista de tão perto.
Por falar nisso...

“Não sabe que há almas que vivem em contínuo tormento? Necessitam alternadamente de sonho e de acção, das paixões mais puras e dos prazeres mais furiosos, e por isso se lançam em toda a espécie de fantasias, de loucuras.Emma olhou-o como quem contempla um viajante que passou por países extraordinários, e disse:
- A nós, pobres mulheres, nem mesmo essa distracção é concedida!
- Triste distracção, pois nela não se encontra a felicidade.
- Mas é coisa que se encontre alguma vez? – perguntou ela.
- Sim, encontra-se um dia –, respondeu ele.(…)
- Encontra-se um dia – repetiu Rodolfo -, um dia, subitamente, e quando já se começava a desesperar. Então entreabrem-se horizontes, e é como uma voz que exclama: «Ei-lo!» Sentimos necessidade de fazer a essa pessoa confidências da nossa vida, de lhe dar tudo, de lhe sacrificar tudo! Não são necessárias explicações: adivinha-se que está ali. Encontrámo-la já em sonhos. (E olhava-a.) enfim, está ali, o tesouro que tanto procurámos, ali, diante de nós; brilha, resplandece. Mas há ainda um resto de dúvida, porque não ousamos acreditar…”
Não há maneira de fugir, Flaubert confessou o que nós, homens ou mulheres, pensamos em segredo: Emma Bovary c’est moi.
Palavras cantadas...
quinta-feira, 29 de novembro de 2007
O sarcasmo usa monóculo

José Maria Eça de Queirós realizou a estética esperada. Espatifou a forma clássica da frase e deu agilidade neurótica à linguagem - o que deixou todo mundo estarrecido e encantado. Diante de prosa tão sem osso, carne só, que atropelava a pesada e vetusta gramática da língua portuguesa, o temido lexicógrafo Cândido de Figueiredo, que tinha consultório de extrair crases mal colocadas e extirpar vírgulas suspeitas, entrou logo em desespero:
“Com esse Eça de Queirós não há sintaxe que agüente. Sai tudo de suas respectivas presilhas. Vou embora para o Brasil!...”
Eça sabia causar. Passava o monóculo medonho e impertinente a sua volta, na capital, nas províncias, nas serras minhotas e, com um riso fino, deixava que sua observação ácida recobrisse as coisas e os seres. Deu-lhes significado de declínio e de ridículo. Desfigurou-os, escolheu-os, e com eles, pintou um mundo aberrante que seria trágico se não fosse cômico. Sabe-se que o monóculo de Eça, que levava jeito de agudo estilete, abria clareira de terror em qualquer multidão. Ele era um psicólogo implacável a quem nada nem ninguém escapava. Todavia houve e ainda há críticos que insistem em deixá-lo aquém de Machado de Assis. Discordo. Ambos tinham o mesmo poder e capacidade de percepção, sendo que Machado era microscópico e Eça macroscópico. Noutros termos, Eça foi antes um crítico social do um psicólogo. Criticou e descreveu de preferência as exterioridades, os ridículos, os sestros e manias aparentes. Escritor caricaturesco, primou pelo exagero e a zombaria, e para tanto subverteu a linguagem, buscando a expressão fiel de suas idéias e sentimentos. Literariamente é descendente de Balzac, Flaubert e Dickens, dos quais herdou, respectivamente, a força criadora, a excelência estética e o sarcasmo corrosivo. Com estes mestres, Eça aprendeu a fazer de sua literatura uma tempestade, cujos raios eram os adjetivos. Suas páginas estão cheias de tal riqueza, palavras, frases que agem umas sobres as outras, para um resultado de expressão inédito. Por vezes, um vocábulo, a uma volta do pensamento, lá está, sozinho, esteio do trecho, estourando de significações. De outra vez, fora desse virtuosismo estranho, a responsabilidade expressiva distribui-se harmoniosamente: as orações se enfeixam, as imagens se amparam, cada palavra, nas dobras delicadas da frase, sustenta e compõe a sugestão do conjunto.
Por isso toda a sua obra é prima de fio a pavio, pelo menos para mim que até hoje não sei dizer qual o melhor livro, conto ou crônica por ele escrito. Tudo é bom, engraçado, agudo, desconcertante e fascinante. Com efeito, sugiro que os interessados leiam tudo o que puder e conseguir. Eu pensava já ter feito isso, mas meu amigo Emerson (ilustre freqüentador desta biblioteca) tirou-me do engano quando, para minha felicidade, descobriu num sebo algumas farsas e cartas raríssimas.
Tanto melhor, será algo mais a degustar.
Da série: qualquer semelhança não será mera coincidência!

Eça de Queirós desde o seu tempo de moço, jornalista em Évora, apossando-se do pensamento de Vitor Hugo sem o citar, permitiu que a suspeita e acusação de plagiário o seguissem pelo resto da vida. Plágio é uma incriminação forte, vergonhosa e nem mesmo Shakespeare escapou dela. No entanto, é difícil não acatar esta imputação e tentar negar que esses senhores de enormes riquezas tiraram, de outros, um pequeno punhado.
Assim quando se lê em Salambô (de Flaubert): “Sés grillages d’airain qui le defendait em bas des scorpions”... encontra-se na Relíquia: “uma entrada mais nobre, em arco, com uma grade baixa, que a defendia dos escopiões”... Aí está um recurso de erudição, inacusável, um detalhe de arquitetura antiga, propriedade artística universal.
Mas lê-se ainda na Relíquia: “estas colinas que eu vira dias antes em torno à Cidade Santa, dessecadas por um vento de abstração, e brancas da cor de ossadas”... Encontra-se também na Vie de Jesus (de Ernest Renan): “La triste Judée, dessechée comme par um vent brulant, d’abstraccion et de morte”... Já aqui não é um dado de cultura, mas uma imagem descritiva de que Eça se apossou.
E para aqueles que resistam tanto quanto os que mais o amam, em acreditar nessa sombra na face do mestre, reserva-se uma cópia literal duma das mais belas imagens, de mais sugestão poética, escrita por Flaubert, está na Relíquia: “As lágrimas rolavam por sua face, tristes como a chuva por um muro em ruínas”... quando em Salambô já Flaubert havia posto: "et des pleurs coulaint sur as face comme pluie d’hiver sur une muraille en ruine”.
Não fiquem pasmos, se Shakespeare podia, Eça também. E sabem do que mais, se gritar pega ladrão não fica um meu irmão - todos os gênios fizeram isso!... E cá pra nós, pouco valem esses singelos furtos que nada corroem a glória daquele que tocou uma nova harmonia à velha língua portuguesa, ao romanceador de todo um país, criador único do maior friso de tipos populares de toda a literatura latina (segundo Harold Bloom). Eça de Queirós elevou-se a tal altura, que em confronto com as suas próprias riquezas, por ele acumuladas, estas jóias desonestas de sua arca merecem o mesmo olhar de benevolência risonha com que se olham as culpas iguais de outros grandes.
sábado, 24 de novembro de 2007
Solilóquios...
terça-feira, 20 de novembro de 2007
Da série: encontros inusitados!!!...

O Imoralista

Quando a primeira guerra mundial terminou, os principais escritores franceses eram Paul Claudel, Paul Valery, Marcel Proust e André Gide. Os primeiros três destacavam-se cada um em seu gênero literário. Não se pode dizer que Gide fosse excelente em nenhum, mas seu espírito permeou todo o clima literário nos anos que se seguiram a guerra. Nos dias atuais, praticamente, nenhum dos quatro é lido.
A atual obscuridade de Gide, talvez, se explique porque era uma moralista, só que às avessas, ou seja, não como um modelo, mas como uma contestação. Sem querer, querendo, ele tornou-se porta-voz do novo mal-do-século, o símbolo da angústia pós-guerra. Gide acreditava que, na tentativa de se conformar com os padrões culturais, o indivíduo era obrigado a desenvolver uma personalidade falsa, que, o deformava e que precisava ser descartada. Isso deu muito pano para a manga da psicanálise e da contracultura que assolaria todas as expressões artísticas do século XX. E a posteridade acabaria acusando Gide de dilapidar séculos de tradição, desmerecendo a herança espiritual do ocidente.
Em parte isso é verdade, e em parte é um exagero. André Gide não tinha todo este poder, mas sabia fazer uma barulheira danada - sobretudo quando se sentia acuado. A sociedade configurava uma camisa (para não dizer saia) muito justa para seu espírito inquieto e confuso, por isso o que se pode afirmar de fato, é que sua obra literária era uma forma de querer ficar nu.
Gide tentava ser “normal”, mas nunca obtinha êxito, com efeito, clamava por rebeldia. Toda a sua trajetória pode ser acompanhada através do diário que ele começou a escrever aos 13 anos e só parou quando morreu. Nele vemos sua ascensão literária, as crises espirituais, as lutas consigo mesmo, e a imensa e terrível canseira que tudo isso lhe causava. Quem não tiver acesso aos diários (são de rara edição) pode ler qualquer um dos seus muitos romances e poemas, principalmente “Os frutos da terra”, “Os moedeiros falsos” ou “Os Subterrâneos do Vaticano”, que é a sua obra-prima e o único que eu li (gostei muito). Neles, André Gide, pós casamento fracassado e homossexualidade assumida, se consagraria como um dos maiores escritores do século passado. Em 1947 recebeu o prêmio Nobel de literatura e quatro anos depois, em 1951, faleceu em Paris, em decorrência de uma embolia pulmonar.
O mais interessante é que no final da vida, Gide passou a acreditar que a cultura precisava, para sobreviver, de uma tradição que lhe servisse de esteio. Depois disso o destino de André Gide foi ser considerado um cínico imoralista.
Leiam e façam seu próprio julgamento.
quarta-feira, 7 de novembro de 2007
Cecília em poesia e prosa...
equilibra-se um planeta.
E, no planeta, um jardim,
e, no jardim, um canteiro;
no canteiro uma violeta,
e, sobre ela, o dia inteiro,
entre o planeta e o sem-fim,
a asa de uma borboleta

terça-feira, 6 de novembro de 2007
Mais do que uma poeta: a poesia!

Ela tornou-se poeta muito cedo, acho que desde a infância, quando ficou órfã dos pais e foi morar com a avó. Aos 17 anos estreou parnasianamente com “Espectros”, poetando em versificações rigorosas, quase calculadas. A partir de 1922 aproximou-se das correntes modernistas através de ligações com os poetas católicos da revista Festa, sem todavia aderir efetivamente ao espiritualismo literário deles. A bem da verdade, Cecília, na qualidade de caldeirão poético, era “anti-aderente”. Nelas fervilhavam paradoxalmente elementos clássicos, parnasianos, simbolistas e modernistas, sem quem nenhum deles embotasse ou marcasse seu estilo que era categoricamente independente.
Digo independente porque nenhum rótulo pode grudar-se em Cecília Meireles. Ela é um dos poucos casos na literatura de língua portuguesa de “poesia pura e absoluta”. E essa pureza e absoluto poéticos residem no desprezo do material e do concreto, na ascese e perfeição formal. A sua temática é das mais amplas e profundas da nossa literatura moderna. A fugacidade do tempo, a precariedade do ser, a falta de sentido da existência, a vida vista como sonho (se não pesadelo), a insuficiência e os desacertos humanos, sua irremediável solidão – eis os ingredientes do lirismo delicado onde há uma constante penumbra de ceticismo e desencanto. Sua música é plangente, melancólica, dolorida, jururu – mas sem notas desesperadas, só tons penetrantes, agudos. Dos amigos católicos ela contraiu o devanear lírico, a abstração visionária, a fixação poética de um mundo imaterial, intemporal. E ainda certo misticismo dolente e vaporosa espiritualidade que conferem uma ressonância religiosa à sua dicção às vezes profética ou bíblica, como se fosse uma Santa Teresa D’Ávila que de santa não tinha nada.
Mas sabia fazer milagres verbais em metáforas inigualáveis do tipo:
“a aérea franja de sua voz, o cheiro molhado do chão, sua boca de nata....” Quer erotismo mais elegante do que esse? Como Clarice Lispector, eu considero o lirismo de Cecília Meireles o mais elevado da moderna poesia de língua portuguesa. Nenhum outro poeta iguala o seu desprendimento, a sua fluidez, o seu poder transfigurador, a sua simplicidade e seu preciosismo, porque Cecília, só ela, se acerca da nossa poesia primitiva e do nosso lirismo espontâneo... A poesia de Cecília Meireles é uma das mais puras, belas e válidas manifestações da literatura contemporânea. E é exatamente por ser pura e bela que tem a cara dela.
Da série: encontros inusitados

quinta-feira, 1 de novembro de 2007
sábado, 27 de outubro de 2007
sexta-feira, 19 de outubro de 2007
Mundo menos interessante

Casa vazia

Poema nenhum, nunca mais,
para esse público dos ermos
quarta-feira, 17 de outubro de 2007
Descalça e sozinha entre a poesia e a santidade

Sacudida pela poesia e santidade daquele texto, Teresa decidiu não mais pertencer ao número das virgens loucas; então se retirou do século para entrar num mosteiro carmelita, onde, livre e descalça, começou a escrever. De imediato, a virgem sábia foi considerada como louca. Todavia sua loucura não estava no ato de converter-se em monja (coisa corriqueira na época), mas na atitude que essa conversão ensejou: Teresa d’Ávila tornou-se, através de sua poesia, na mulher mais desafiadora e crítica do seu tempo. Seu primeiro alvo foi a própria Igreja; ainda noviça enviou uma carta ao Papa Pio XI denunciando o grande inquisidor Quiroga como uma prostituta assassina e mitrada. Com efeito, foi presa e processada. Ela, porém, não se deixava dobrar, continuou escrevendo e afrontando o inquisidor, os bispos e até o rei Felipe II, de quem era prima distante. Reunindo em si a imaginação de Dom Quixote e a inteligência prática de Sancho Pança, e mais ainda: o humor superior e o gênio literário do criador dessas personagens imortais, ela iniciou a carreira poética de missionária solitária, visionária extática e peregrina fugitiva que cruzou a Espanha deixando atrás de si um rastro de 32 conventos - aos quais convergiram todas as virgens sábias de sua época.
Capturada em Toledo, continuou escrevendo as obras místicas que a consagrariam como a primeira prosadora da literatura de língua espanhola. Escreveu inúmeras cartas aos grandes do mundo e às autoridades religiosas de crenças diversas; cartas cheias de uma coragem indomável, cheias de conselhos sábios, de um humor surpreendente e, sobretudo, de perguntas desconcertantes: foi ela quem fez o filósofo alemão Gottfried Leibniz desistir de ser ateu ao propor-lhe uma pergunta suprema - Por que antes existe o ser e não o nada?... – Leibniz jamais encontrou uma resposta, todavia em face da pergunta concluiu que qualquer declaração atéia, de sua parte, seria uma imponderação evasiva e leviana.
Ainda em vida, Teresa teve um público considerável, foi lida por Cervantes e o dramaturgo Lope de Vega, pelo pintor El Greco e o igualmente poeta e santo Juan della Cruz – com quem manteve extensa correspondência. E como, naquele tempo, o espanhol era a língua universal, sua obra foi traduzida para quase todas as línguas ocidentais. Foi a ela que Goethe atribuiu a moderna redescoberta da consciência individual, isto é, da alma humana como um valor em si mesma. E isso devido ao texto de Alma y Dios, Sola com em Solo (Alma e Deus, sozinha com o Único) – extenso poema que, no século XIX, inspiraria profundamente o existencialismo filosófico de Kierkegaard. Avaliar todo o impacto da obra literária de Teresa d’Ávila nos levaria longe, mas aqui ainda cabe lembrar a estirpe de mulheres igualmente poderosas e santas que ela inspirou, uma linhagem de Teresas, discípulas suas, imitadoras de Cristo, que ao longo dos séculos vêm marcando drasticamente a história espiritual da humanidade: a imaculada e precoce Therese Martin ou Santa Teresa de Lissieux, a mártir e filósofa Santa Edith Stein ou Teresa de Israel; e a iluminada e sempre amada Agnes Gonxha Bojaxhiu ou Madre Teresa de Calcutá.
Em seus diários, Dostoievski escreveu que através de Teresa d’Ávila entendeu “que os santos podem não ser infalíveis, mas são resolutos. E não são reacionários, modernos, restauradores ou revolucionários, pois representam o eterno. E são loucos sim, mas absolutamente livres, e sabem que a espada do espírito é mais cortante que o aço.”
Além da fé, do amor e da esperança, podemos dizer que a liberdade, o intelecto, a paixão, a audácia e influência espiritual de Teresa d’Ávila são provas incontestes de sua santidade.
Fé que inspira santos que inspiram arte...
sexta-feira, 12 de outubro de 2007

O homem que falava brasilês!

Numa segunda fase, é o descobrimento do País, do nacionalismo pitoresco, do folclore, ou seja, é a época de O Clã do Jabuti, do insólito Macunaíma e do magistral Ensaio sobre a Música Brasileira. Num terceiro período, a sua arte, abandonando o pitoresco exterior, interioriza-se e amadurece pela meditação. Torna-se mais serena mais profunda, e então surge o poeta do “Remate de Males”. Aqui o nacional, o folclórico, o coletivo fundem-se com o pessoal, o individual, numa solução estética muito original, típica do autor. Assim a poesia de Mário de Andrade é inconfundível, tem um sotaque brasileiro e ao mesmo tempo pessoal.
Na ficção distingue-se principalmente no conto, tendo sido uma dos maiores criadores do gênero entre nós. Em caso de dúvida sugiro que leiam Belazarte e os Contos Novos. Mas excepcional mesmo é Macunaíma, que ele classificou como rapsódia brasílica, “o experimento ficcional mais sério que o modernismo fez do caráter nacional.” No ensaio, brilha uma das inteligências mais penetrantes da nossa realidade. E Mário de Andrade é o autor de alguns melhores livros brasileiros do gênero. Basta lembra seus estudos sobre Aleijadinho e Álvares de Azevedo, e outros reunidos em Aspectos da Literatura Brasileira, seus escritos sobre música brasileira e os artigos de crítica enfeixados no Empalhador de Passarinhos.
Mário de Andrade foi, acima de tudo, o intelectual e artista cônscio de seu dever, de sua missão histórica. Essa consciência faz dele um participante, um agitador de idéias e de espíritos. Dizem que sua personalidade irradiava alegria de viver e estímulo ao trabalho criador. Isso transpira principalmente de sua numerosa e palpitante correspondência. Com esse alto sentimento de obrigações com o seu momento histórico-cultural, de home a serviço da renovação nacional, plasmou a sua obra. Isto explica talvez o cunho circunstancial, às vezes polêmico, de parte de sua criação literária. Exagerou alguma vez no sotaque brasileiro a sua língua artística. Mas, no todo, a sua obra é das mais altas expressões da literatura nacional, e, impregnada de calor humano e entusiasmo, te força suficiente para perdurar.
Quatro retratos, quatro polêmicas...

Sobre os trabalhos de Segall e Portinari, Mario de Andrade escreveria em 11 de julho de 1941 à sua amiga Henriquetta Lisboa: “(...) O Portinari quando se propôs fazer meu retrato já me queria muito bem e éramos já muito bons camaradas. E além disso ele tinha por mim um especial e muito agradecido carinho.(...) E foi nesse estado iluminado de amor que ele fez o meu retrato que...eu fiz ele fazer de mim: só bom“. “Como os retratos dele (Portinari) e do Segall me completam... quase chego a me envergonhar.(...) O retrato feito pelo Segall foi ele mesmo sozinho que fez. Não creio que o Segall, russo como é, seja capaz de ter amigos. Pelo menos no meu conceito de amizade, uma gratuidade de eleição, iluminada, sem sequer pedir correspondência. Éramos bons camaradas e apenas. Como bom russo complexo e bom judeu místico ele pegou o que havia de perverso em mim, de pervertido, de mau, de feiamente sensual. A parte do Diabo. Ao passo que o Portinari só conheceu a parte do Anjo. Às vezes chego a detestar (me detestar) o quadro que Segall fez.
Anita fez vários retratos do escritor paulista, (uns vinte, segundo Mario de Andrade em sua carta à Henriqueta), mas, em 1922, ela e Tarsila pintaram juntas os retratos do amigo escritor, presenteando-o pelo seu aniversário em 9 de outubro do mesmo ano, segundo informações de Marta Rosseti, autora do livro "Anita Malfati – no Tempo e no Espaço". O resultado desse trabalho exemplifica claramente os traços mais livres de Anita (que ela abandonaria em seguida), com as cores dominando a composição, o fundo plano e expressividade concentrada nas cores fortes das faces e da testa. Houve reclamações: O “ar messiânico” e a “magreza espigada”, comentados por Mario de Andrade como se ele tivesse “jejuado quarenta dias e quarenta noites” revelavam, segundo suas próprias palavras, o espírito dessa fase de delírio que vivenciou.
Coloco isto aqui porque acredito haver uma costura interessante a ser feita entre as interpretações plásticas dos artistas, a interpretação pessoal do próprio retratado como modelo exigente (e nem sempre justo) que era, e a do espectador deste blog que deve também exercer o seu direito à interpretação. Então, por favor, olhem, comentem e constatem que Mário de Andrade não passava de uma diva.
sexta-feira, 5 de outubro de 2007
Um estranho no ninho do império!

A sua relação de amor e ódio com os Estados Unidos está bem expressa na série de romances “Crônicas Americanas” e na coleção de ensaios “United States”, que valeu-lhe em 1993 o National Book Award. Em 1995 publicou uma notável autobiografia, “Palimpsesto”, na qual fica mais visível a sua postura diante do american life way, com direito a revelações sobre a elite política de Washington e a nata artística de Hollywood. Em todos estes livros ele diz coisas incômodas, como se observasse os Estados Unidos simultaneamente com um telescópio e um microscópio. Quando se vêem as coisas com este pormenor, com esta ironia, com este humor, com este cinismo, se é forçosamente incômodo, e às vezes extravagante, e outras vezes abusado. Mas é justamente o que ele quer ser. Oscilando sempre entre o romance e a história, Vidal só não decidiu se quer ser um romancista ou historiador. Só o tempo dirá.
Entretanto, é fundamental sublinhar que a sua narrativa tem uma enorme qualidade literária, talvez duas. “Prodigioso” foi um adjetivo comum da crítica para definir as “Crônicas”. E “didático” foi outro. Por “Império (seu melhor romance)” passam figuras da História dos Estados Unidos como os Presidentes McKinley e Theodore Roosevelt, como John Adams e John Hay; como o magnata da imprensa William Randolph Hearst, como o escritor britânico Henry James. Passa toda a promiscuidade entre dinheiro e política. Passam todos os bem intencionados, todos os corruptos, todos os fazedores de políticos e de presidentes. Passa tudo aquilo com que se constroem e mantêm os impérios.
Mas nem tudo é política em sua obra (embora sempre seja polêmica): é dele o escandaloso “Ao vivo do Calvário”, onde reconta o Novo Testamento de um ponto de vista bastante irreverente, para não dizer blasfemo.
Hoje Gore Vidal é um senhor de quase 80 anos que continua a insistir na faceta de provocador, o homem que pensa que os Estados Unidos não têm razão para se interrogarem por que foram atacados no 11 de Setembro, sabendo-se que depois da II Guerra Mundial já fizeram em todo o mundo mais de 200 ações militares e que uma lei da natureza é a de que não há ação sem reação... O homem que defende que os militares norte-americanos devem fazer as malas e sair de todos os lugares do mundo em que se encontram. Enfim, que os Estados Unidos regressem às suas raízes republicanas, que deixem de interferir nos assuntos das outras nações e também nas vidas privadas dos seus próprios cidadãos. Que enterrem este império cujo nascimento ele nos mostra e cuja morte ele profetiza nas “Crônicas Americanas”, que fazem dele um dos principais escritores americanos da atualidade. Essas crônicas - quase me esqueci de dizer - são compostas pelos livros “Washington D.C.”, “Burr”, “Lincoln”, “1876”, “Império (sua obra-prima)”, “Hollywood” e a “A Idade de Ouro”.
Só o tempo dirá!
Da série: Não vou falar, não vou falar... Vou falar!

terça-feira, 25 de setembro de 2007
Vai encarar?

Apesar disso, Faulkner também era capaz de cometer grandes equívocos e exagerar no experimentalismo (o mal do século) e no fluxo da consciência (às vezes parece uma Virgínia Woolf emaconhada), mas entre 19 romances que escreveu se incluem cinco obras-primas: O Som e a Fúria, Enquanto Agonizo, Santuário, Luz de Agosto, e Absalão, Absalão!... Coisas que por se só já o redimem de qualquer pecado. É verdade que ele jamais voltaria a escrever à altura dessas cinco obras, entretanto, nos últimos livros soube manter certa força ficcional e um humor feroz. Uma Fábula é o seu pior livro; Enquanto Agonizo, o melhor (em minha opinião). E se você ainda não teve o prazer de conhecer Faulkner, sugiro que comece por este, ou por qualquer dos outros cincos melhores. Não vai se arrepender. Mas advirto: é uma bigornada acme!... Os personagens de Faulkner são chocantes. Joe Christmas (paródia sinistra de Jesus Cristo), por exemplo, é uma das figuras mais impactantes que já li até hoje, não podemos simpatizar nem antipatizar com ele, é um desafio a nossa capacidade de interpretação, é a representação daquilo que Freud chamava de instinto de morte!... Eu diria até que é a morte literarriamente personificada. O sonho de Gabriel Garcia Márquez (fã nº 01 de Faulkner) era, e talvez ainda seja, fazer algo parecido com esse Joe. Quem viver verá!
Faulkner ganhou o Nobel, em 1949, quando já tinha perdido o talento, mas houve época em que, desconhecido e sem vender quase nada, se trancou num celeiro com duas caixas de bourbon, que bebeu todas em duas semanas, saindo com um livro ordinário, um potboiler e seguro de que enriqueceria com os direitos autorais. O livro é Santuário, a obra-prima que encalhou, apesar de ter cenas sensacionais como o personagem Popeye, que conforme Faulkner parece uma boneca de cera barbeada. Popeye estupra a moça bem-nascida, Templeton Drake, com um sabugo de milho. Ela adora e, quando é salva do cativeiro de Popeye, tem saudades dele.
Uma piadinha literária (politicamente incorreta)....
domingo, 16 de setembro de 2007
Rainha do crime impossível

Estes dois fatos lhe causaram uma grande crise nervosa que resultou em amnésia. Sabe-se que em uma noite de dezembro do ano 1926, tendo ela 36 anos, desapareceu misteriosamente, e seu carro foi encontrado abandonado numa auto-estrada.
Sobre este acontecimento surgiram muitas especulações, até se pensou que era uma ação para dar publicidade à escritora. O certo é que onze dias mais tarde ela apareceu num hotel litorâneo registrada com o nome da amante de seu marido. Depois de encontrada foi submetida a um tratamento psiquiátrico.
Agatha deixou sucessores, mas estes não possuem sua ingenuidade. Foi, e ainda continua sendo um dos maiores fenômenos da literatura mundial (com aproximadamente 2 bilhões de exemplares vendidos), e para sempre será a rainha do crime impossível.
Altamente qualificados...
quinta-feira, 13 de setembro de 2007
Erótico neurótico

A trajetória escolar de David foi exemplar. Na escola secundária de Nottingham foi premiado em matemática, francês e alemão. Logo passou a dominar também o italiano e o espanhol. E não tardou para tornar-se professor em Croydon. Mas uma fúria para escrever o perseguia desde muito jovem.
Aos dezessete anos pegou uma pneumonia que arruinou sua saúde. Pelo resto da vida Lawrece teria que lutar contra a tuberculose (que no fim acabou vencendo). Foi durante a convalescença que começou a escrever e a aperfeiçoar seus poderes literários.
O gênio de D. H. Lawrence é notavelmente versátil, incluindo romances, contos, poemas, ensaios críticos, narrativas de viagem, comentários apocalípticos e quase qualquer outro gênero. Para alguém que morreu aos 44 anos, Lawrence teve uma produção prodigiosa: cerca de 75 volumes, muitos dos quais publicados postumamente - e que hoje é pouco lido. Política e culturalmente incorreto, Lawrence nunca foi muito bem quisto pelos “arcontes” da crítica. O conteúdo declaradamente sexual de suas narrativas foi o principal motivo de sua elevação e queda. A vida e a obra dele são quase inseparáveis, mesmo quando usadas para mútua dissimulação: em todos os texto vemos como, em vão, tentava esconder a própria bissexualidade. A contenda pessoal de Lawrence com questões de identidade sexual e da guerra entre os sexos tem base espiritual e implicações psicanalíticas. A percepção das diferenças espirituais fica patente no confuso confronto com Freud, a quem o escritor não conseguia compreender, ou talvez não desejasse compreender. Seja como for, Freud foi-lhe inteiramente dispensável. A exemplo de Blake, Lawrence foi o profeta de uma visão religiosa controversa, mas abrangente, englobando espírito e natureza. Ele ambicionava criar um moderno culto ao falo, mas sem que isso implicasse em opressão à mulher. Esse culto não deveria, segundo ele, voltar-se ao pênis masculino, mas a um grande Falo Universal, símbolo da fertilidade criadora.
Suas duas obras-primas, plenas de erotismo clássico, são o Arco-Íris e Mulheres Apaixonadas, dois textos que ficarão para a eternidade. Contudo, hoje em dia é só pelo O Amante de Lady Chatterley que seu nome é lembrado. A leitura de qualquer destas obras nos permite perceber que Lawrence pretendia deixar claro que para ele sexo e amor são coisas distintas que merecem tratamentos distintos. É claro que o sexo está contido no amor, mas este é qualitativamente diferente do ato físico através do qual se obtém o prazer físico. Mas não é só isso. A omissão dos detalhes indica que a partir do momento que o amor uniu as personagens, a descrição do ato físico perdeu progressivamente sua importância. Isto reforça a tese de que o autor faz uma clara distinção entre o amor (que contém o sexo) e o ato físico desprovido de emoção. Em virtude disto acreditamos que o livro foi injustamente acusado de ser pornográfico. Só seria pornográfico se o autor insistisse na descrição dos coitos até o final, o que não ocorre. A obra de Lawrence sempre nos coloca diante de uma questão delicada: o desejo sexual é fruto de uma opção consciente ou conseqüências de nossas tendências naturais? Leiam e respondam.
Visionário e demoníaco, perturbado e perturbador, D. H. Lawrence foi o gênio mais autêntico que a literatura do século XX pôde ensejar.
É verdade que ele está fora de moda por ter sido alvo da antipatia da crítica politicamente-correta, à qual praticamente nenhum escritor é capaz de sobreviver nos dias de hoje. Mas o gênio sempre acaba por enterrar seus próprios agentes funerários, e eu tenho certeza que sete décadas após sua morte, Lawrence, nas páginas mais marcantes de sua obra, continua a transmitir energias ferozes de espírito, determinação e audácia.
domingo, 9 de setembro de 2007
Sozinho

Sempre que leio Pavese me pergunto quem poderia tê-lo magoado tanto. Por toda a sua obra ouvimos ecos de uma vida terrivelmente solitária, marcada por uma necessidade desesperada de amor (nunca correspondido), pela amargura e desolação, por uma infância assombrada pela morte do pai e vivida com uma mãe insensível (que desapareceu quando ele tem 13 anos). Escreveu-se, a propósito de Pavese, que a constatação da sua inadaptabilidade à vida o fez refugiar-se na literatura. Difícil contestar.
Com uma angustiante melancolia, ele constrói uma narrativa onde tudo aparece como mutável e imutável, como variações e contradições das paisagens exteriores e interiores do narrador. Há as oposições entre o campo, uma espécie de paraíso perdido, e a cidade, entre a aldeia e as cidades da Califórnia, entre o permanecer e o partir. Há em cada página dos livros de Pavese doses cavalares de existencialismo puro, que sem dúvida fazem dele o grande rival de Camus, seu duplo.
Para quem ainda não o conhece, e hesita em conhecer o desconhecido, recomendo que leia A Lua e as Fogueiras, romance escrito por ele meses antes de se suicidar, em Turim, num quarto de hotel, quando tinha apenas 42 anos. Eu considero sua obra-prima, emblemática, aquela que o confirma como romancista e poeta fundamental da literatura italiana. Depois, se tiver coragem, leia seu diário, intitulado O Mistério de Viver, que para ele foi mais um tormento que um mistério. Entre outras preciosidades você encontrará essa triste confissão de cansaço anotada nove dias antes de tentar estancar o sangue que lhe corria nas veias: "Um imenso fastio de tudo. Basta de palavras. Um gesto. Não escreverei mais."
quinta-feira, 6 de setembro de 2007
O Anjo Banido
Durante um dia os ministros confabularam e se atormentaram temendo pelas próprias vidas, até que se lembraram de chamar um poeta chamado Li Po, que era conhecedor de todas as línguas. Li compareceu, leu a carta e ditou uma resposta sábia, que o imperador assinou sem hesitar, quase acreditando no que seus ministros diziam: que o poeta era na verdade um anjo banido do céu por uma alguma travessura.
Provavelmente essa estória é uma invenção do próprio Li, que se empenhava em ser uma lenda. E conseguiu.

Com efeito, casou cedo, mas ganhou tão pouco dinheiro que a esposa o deixou e levou os filhos. O imperador ajudou-o e cobriu-o de presentes por ele ter prometido compor a mais bela elegia poética jamais escrita para uma mulher, que neste caso seria Yang Ywei-fei, a prestigiosa concubina imperial. Li cumpriu a promessa, mas a chata da Yang achou o poema excessivamente erótico, quase lascivo, e conseguintemente convenceu o imperador a banir o poeta dos domínios do Império do Meio, ou seja, de toda a China.
Desde então Li Po nunca mais teve sossego, e levou uma vida errante e abjeta.
Os últimos anos do poeta foram os mais amargos, pois ele jamais se humilhou para ganhar dinheiro e no caos da guerra e da revolução não encontrou um único mandarim que lhe evitasse a fome. No entanto, ao final dos tumultos foi declarada anistia geral e o velho Li pôde se dirigir para casa os seus passos vacilantes. Três anos depois adoeceu e morreu, mas a lenda, descontente com essa morte comum para uma alma tão rara, contou que ele afogou-se num rio, bêbado, tentando abraçar o reflexo da lua na água.
No conjunto, os trinta volumes de versos delicados e agradáveis que Li deixou garantem-lhe a reputação de maior poeta da China. “Ele é o ápice sublime do Tai dominando milhares de montanhas e colinas, é o sol em cuja presença milhões de estrelas do céu perdem o brilho cintilante” - afirmou um crítico chinês.. O mundo ocidental conheceu Li Po através de uma tradução livre realizada por Ezra Pound, e da qual Cecília Meirelles nos deu uma versão em português. Graças as muitas imagens taoistas vertidas em sua poesia, Li Po escrevia com a simplicidade de um poeta moderno, e sua melancolia, às vezes, chega a lembrar o heteronômio pessoano Alberto Caiero.

Do livro: "Poemas Chineses / Li Po e Tu Fu", Nova Fronteira, 1996, RJ
terça-feira, 28 de agosto de 2007
Um escravo de suas vontades...
Aos olhos de Fausto, aquele "Oh, pára!" não constitui nenhuma manifestação de vida ou de amor, mas sim um sinal de morte. Pois o momento em que ele desejasse parar, quisesse deter-se porque a existência se lhe afigurasse bela e ele se mostrasse satisfeito com a realidade presente, esse momento deveria ser ao mesmo tempo o de sua morte - o instante, portanto, em que Mefisto, zeloso servo de Fausto durante o seu tempo de vida, assumiria domínio irrestrito sobre sua alma.