quinta-feira, 19 de abril de 2007

Bandeira de simplicidade


Manuel Bandeira nasceu sob o signo da doença, no dia 19 de abril de 1886.
O poeta que esteve sozinho no front do modernismo, preparando o caminho da semana de arte (da qual não participou), disse uma vez que sua poesia era uma efeito colateral da tuberculose: "Pertenço à fase heróica da tuberculose. Foi através dela que construí minha poesia. Não fiz versos por ser poeta".
Não é exagero. Por causa da doença sempre esteve no lugar certo e na hora certa, conheceu tudo e todos, e por tudo e todos foi reconhecido. Ainda muito jovem, e já doente, ele foi viver num sanatório na Suíça, como o da Montanha Mágica de Mann, e lá tornou-se amigo do poeta Paul Éluard e de Gala, mulher de Salvador Dali. É por incentivo de ambos que escreve As Cinzas das Horas, e inaugura uma das mais belas carreiras poéticas do Brasil.
Exigente em sua obra, e ainda assim um dos poetas mais populares do século XX, com uma série de poemas obrigatórios em antologias e recitais, Bandeira é o poeta da ternura humilde e ao mesmo tempo sofisticada, do amor, da vida, das pequenas coisas de todo dia. Sabia humanizar os objetos mais prosaicos: a Balada das três mulheres do sabonete araxá, por exemplo, ele escreveu quando um dia entrou numa venda e viu o cartaz do tal sabonete.
Era sempre assim, Bandeira tirava poemas de tudo o que via, de notícias de jornal, de coisas ouvidas na rua, de incidentes domésticos. Daí o timbre inconfundível de sua obra: ao mesmo tempo contida e escandalosa, erudita e popular, picaresca e séria, leve e trágica.
E era tão bom poeta quanto tradutor - para o português ele verteu Shakespeare, Omar Kayhan, Morris West, Emily Dickinson, Santa Edith Stein, Jean Cocteau, John Ford e Elizabeth Bishop, de quem se tornou amigo. Dizem que tinha uma das bibliotecas mais invejáveis do Brasil.
Como decano do modernismo, inspirou profundamente Carlos Drummond de Andrade e o primo João Cabral de Melo Neto, com os quais comporia a santíssima trindade da poesia brasileira. Um ano antes de morrer ficou sabendo que na França havia sido editado, pela Pierre Seghers, na coleção "Poètes d'Aujourd'hui", o volume Manuel Bandeira, com estudo, seleção de textos, tradução e bibliografia de Michel Simon.
De Bandeira, Simon disse: Soube atingir a verdadeira simplicidade - a simplicidade dos que domam o complexo com passes de magia.

Um comentário:

flordelys disse...

Fez uma biografia muito saborosa deste amado poeta! Adorei!