domingo, 15 de abril de 2007

Mr. Elite


Confesso que sou profuso, falo pelos cotevelos, e quando se trata de definir Hanry James me perco em digressões. A culpa não é minha, eu gostaria de ser breve, mas o talento de James não cabe numa frase, nem mesmo num parágrafo. E como hoje é o dia do seu aniversário, dou-lhe toda minha atenção.
Ele foi o melhor artista americano da prosa em ficção, só comparável a Proust e Mann em orginalidade e visão. Mas se Proust, Mann, Joyce ou Kafka nos oferecem, através de suas visões de mundo, um espetáculo meticuloso, único e deslumbrante; Henry James, bem mais que uma visão, é capaz de oferecer uma forma de ver. Foi ele quem inventou a técinca da narração indireta, onde os acontecimentos são relatados por vários personagens, sob pontos de vista diferentes de cada um, de modo que o enredo se torna nosso: em vez de vermos o que nos permitem, com James podemos ver o que queremos — em vez de conhecermos um enredo, com Henry James ganhamos uma percepção. É uma dádiva generosa — o modo como percebemos as coisas, os outros e nós mesmos acaba profundamente alterado.
Fino, elitista, quase blasé, ele deixou uma obra que é sofisticada demais para se contentar com o meramente cínico, e exigente demais para se limitar ao puramente estratégico. James evitava ser simples, popular, e por isso sempre desprezou serenamente o curioso movimento literário do início do século que tentava desacreditar qualquer estilo levemente mais rebuscado aproximando a literatura do jornalismo. Ao invés disso, preferiu manter uma saudável distância das virtudes do despojamento; era mais que natural que nunca tivesse conseguido aceitar plenamente o estranho fascínio dos substantivos. “Advérbios e adjetivos são o sal e o açúcar da literatura”, chegou a comentar — e nunca escreveu uma linha que não fosse memorável por seu sabor.
Fútil? Pedante? Retrô? Engana-se quem pensa assim. Para nossa sorte, é impossível atravessar impunemente a literatura de H. James. Sua obra-prima é o romance "Os Embaixadores", mas os inicantes dvem começar pelo sinistríssimo "A Outra Volta do Parafuso", conto de terror psicológico que mataria Edgar Allan Poe de inveja. O climax do suspense é perfeito, não há sossego, a presença profusa de alusões, sugestões, obliqüidades e subentendidos tiram nosso fôlego. Leiam e pasmem!
Ler Henry James é deliciosamente humilhante.

2 comentários:

Badá Rock disse...

Oh, desespero! Vou correndo para a biblioteca. Preciso ler Henry James com urgência!!!

O Bibliotecário disse...

CAUTION: Causa dependência!