sexta-feira, 27 de abril de 2007

Um historiador do futuro ou um profeta do passado?


Esse figura bochechuda que vemos aqui ao lado, é uma caricatura simpática do maior historiador do mundo, e um dos principais escritores da língua inglesa. Nascido no dia 27 de abril de 1737, numa época em que pesquisar e escrever história era quase como seguir as pegadas de um fantasma, Edward Gibbon realizou a proeza de investigar e narrar majestosamente toda a trajetória do Império Romano, desde os tempos dos primeiros e "virtuosos" imperadores até a queda do império do oriente, quando Constantinópla morreu e a América nasceu! - e tudo isso com minúncias.
Gibbon era tão culto quanto rico, e quando decidiu escrever a obra máxima da historiografia mundial - Declínio e Queda do Império Romano - ele não poupou um tostão em viagens e na compra de documentos raros. Resultado: seis tomos da mais detalhada, elegante e profunda pesquisa que alguém já escreveu. Digo elegante, porque nunca um historiador se preocupou em apresentar suas teses com tanto estilo e poesia. Foi por causa dessa preocupação que Gibbon hoje figura ao lado de Shakespeare como um dos nomes mais altos da língua inglesa.
Mas além de elegante, ele é ainda generoso, e nos mostra não apenas a Roma civilizada e moribunda do começo da nossa era, mas também a infância da Europa bárbara que conhecemos como Idade Média. Vemos o surto do papado para a realização do maior sonho platônico: o rei-sacerdote; e o maior sonho do catecismo ocidental: uma civilização cristã. Numa página assistimos a coroação de Carlos Magno, em outra vemos Maomé e seus generais, chefiando exércitos famintos de pilhagem e bêbados de fé, derramarem-se sobra a África e Espanha, construírem a civilização de Bagdá e Córdoba e por fim recuarem para o deserto, quando os bárbaros turcos rolaram do Cáucaso sobre o império ocidental em desordem. Quer saber da vida íntima de algum imperador? Gibbon conta. Quer descobrir a origem das tribos germânicas? Gibbon diz. Quer ver como se formou a hierarquia da Igreja? Gibbon mostra. E mostra, e diz, e conta como se uma lady sofisticada e fofoqueira estivesse fazendo futricas acerca de suas conhecidas. Gibbon tinha tanto pendor para o lado picante da história que alguns críticos chegaram a dizer que ele viveu a maior parte de sua vida sexual nas notas de rodapé! Mas isso é justamente o tempero com que o historiador nos prende ao longo das 3 mil páginas em que narra 1400 anos de história.
Para mim a leitura de Gibbon é imprescindível em nossa época decadente, quando mais uma vez a cultura ocidental (arte, música, literatura, religião, filosofia) está a beira da falência, e os bárbaros estão novamente à porta. Como um profeta, que pelas ruínas do passado antevê uma queda futura, Gibbon é mais atual do que nunca, e sua obra nos alerta para a responsabilidade que temos de não deixar a história se repetir.

4 comentários:

Adriano Holtz disse...

Interessante esta matéria sobre Edward Gibbon. Já tive em mãos, salvo engano, um volume desta coleção sobre o Império Romano. Seu blog chamou minha atenção pelo conteúdo de qualidade a ponto de colocá-lo entre os meus favoritos. Publico um romance em meu blog:
http://mondrianeasondas.blogspot.com/
Adriano Holtz

O Bibliotecário disse...

Obrigado pela visita e pelo elogio, Adriano. Também pude visitar o teu blog e gostei bastante. Quando vejo pessoas talentosas, como vc, Badá e a Deborah, interessadas em manter a literatura viva, fico mais esperançoso. Por isso vou juntar o link do teu blog com os outros. Volte sempre.

PS: A companhia das letras lançou uma edição de bolso, com uma síntese da obra de Gibbon, o essencial da história narrada por ele. Muito bom e baratinho.
Recomendo.

DIARIOS IONAH disse...

~vou procurar para ler, cristiano.'
ja li a HISTORIA escrita por Herodotos, que fala da antiguidade grega e seus vizinhos, e vez em quando passo uma vista nos livros do Eric Hobsbawm,o que mais temos aqui na biblioteca de casa. Ja que a minha filha eh professora de HISTORIA na universidade estadual da bahia e temos muitas coisas desta materia, infelizmente ainda nao temos o GIBBON.
Valeu a dica,
seu blog eh muito bom,

fatimapombophotos disse...

eu texto me inspirou a ler trechos da ERA DOS EXTREMOS DO historiador ingles eric hobsbawm.
ele fala aqui da mudanza radical da metade do nosso seculo depois que o campones abandonou o campo pelas cidades, isto em todas as partes do mundo. principalmente na europa aonde existem paises que nao teem mais nada de agricultura.e as pessoas sao quase todos cosmopolitas.
o que vai acontecer se o campo deixar de produzir alimentos?