segunda-feira, 23 de abril de 2007

Estranhas Coincidências

Não existe outra data mais auspiciosa para a literatura do que o dia 23 de abril - que, não por acaso, é o dia do livro. Foi exatamente nesta data que os dois maiores nomes da literatura ocidental, Cervantes e Shakespeare, faleceram. Todos os anos, durante as comemorações do dia do livro, alguém se depara pasmado com essa feliz e estranha coincidência.







Na verdade, foi a mesma data, mas não o mesmo dia. Explico. Cervantes morreu em 23 de abril de 1616 do calendário que agora temos, ou seja, o Gregoriano. Chama-se assim porque, em 1582, uma comissão pontifícia auspiciada pelo papa Gregório XIII o reformou conforme cálculos astronômicos corretos. A reforma consistiu em adiantar de golpe 10 dias que se haviam “perdido” por erros do calendário anterior. E tal reforma, precisa e científica, foi adotada imediatamente por Espanha, Itália e Portugal. A Inglaterra, porém, não a adotou até 1752, quando o erro era já de 11 dias. Dessa forma, para os ingleses o 02 de setembro de 1752 passou a ser o 13 de setembro. Assim, pois, Shakespeare morreu em 23 de abril de 1616, mas esse dia era realmente o dia 03 de maio. Logo, Cervantes e Shakespeare morrem na mesma data, mas não no mesmo dia.
Não obstante, desde logo, é uma espantosa coincidência, que se junta às muitas outras ocorridas na trajetória dos dois. A genialidade de ambos, e o fato de terem vivido numa mesma época, são as fontes naturais desses paralelos. A estatura colossal de Cervantes é normalmente comparada à grandeza de Shakespeare - embora nunca tenham se conhecido pessoalmente. 1605 foi o ano em que publicou-se o Dom Quixote, mas também Otelo, Macbet e o Rei Lear. Shakespeare, evidentemente, leu Quixote, mas é bastante improvável que Cervantes soubesse da existência de Shakespeare. A Imaginação evoca contente a imagem do grande bardo na solidão de sua casa em Stratford, para a qual se retirou três anos antes de sua morte, lendo o célebre romance que já havia sido traduzido para o inglês por Thomas Shelton.
Que cena para o leitor que, como eu, é fã de ambos: Shakespeare lendo Dom Quixote.
Dizem que não sobreviveu Cardenio, peça escrita por Shakespeare, com a colaboração de John Fletcher, após essa leitura do Dom Quixote. Pela Primeira vez, Shakespeare se deparava com um rival igualmente poderoso, capaz de superá-lo. Todavia o duelo nunca aconteceu, pois ainda não havia Shakespeare em espanhol.
Em todo caso, vamos evitar comparações. Cervantes, suponho eu, não gostaria de ser coparado a Shakespeare ou a quem quer que fosse. Dom Quixote diz que todas as comparações são odiosas.
Mas nada nos impede de admirar a história desses dois famosos gênios, e seus filhos loucos - Quixote e Hamlet - cujo recado implícito, em ambos, é o de que para endireitar as coisa do mundo é preciso ser-se um tanto maluco, e dotado com uma boa dose de desatino.


O mundo está fora dos eixos. Oh! Maldita sorte! ...Por que nasci para colocá-lo em ordem!..." - Hamlet, I,V"

..é o meu ofício e exercício andar pelo mundo endireitando tortos, e desfazendo agravos" - D.Quixote, XIX

Um comentário:

Badá Rock disse...

Eu sempre imagino a minha vida como um romance épico e romanesco cheio de cenas humorísticas, cavaleiros de armadura e dragões alados imaginários (na minha imaginação o dragão também é imaginário).
E os personagens, claro misturam as pessoas com quem convivo e aquelas com quem gostaria de conviver.
Assim, Edgar Allan Poe trabalha no meu escritório, Cervantes é meu professor de literatura e Shakespeare é o diretor do teatro municipal, onde uma vez por mês tem sessão gratuita.
E viajamos todos a outros planetas através do Stargate, eu e o Ralph Fiennes, e às vezes Liz Taylor vai também, mas ela é sempre mais um estorvo que uma companhia.
Vivemos para endireitar o mundo e transformá-lo uma extensão da Escócia.